Em nome da Pátria…Que Pátria? Os Falcões de Cabo Verde

Por Victor Andrade de Melo

Nos anos 1930, surgiu em Cabo Verde um movimento cujo intuito era contribuir para conscientizar jovens para a necessidade de se envolverem ativamente com a resolução dos problemas da colônia: os Falcões de Cabo Verde.

Sua atuação procurava articular educação física, educação moral e educação cívica; a ginástica e o esporte eram importantes ferramentas.

Disponível no sítio “Mindel na Coraçon” (de Djomartins): http://www.fotolog.com.br/djomartins/. Segundo o autor: “Fotografia de autoria de Foto Progresso – 1936/Mindelo. Demonstração de Ginástica Musicada, pelo grupo de Cadetes dos Socols”.

 Os Falcões de Cabo Verde seguiam as diretrizes dos Sokols, uma sociedade fundada por Jindrich Fuegner e Miroslav Tyrs, em 1862, em Praga. O movimento surgiu como estratégia de afirmação da cultura checa em um momento em que o país vivia sob a influência do Império Austríaco. Com denotado caráter nacionalista e paramilitar, propugnava a ginástica como principal ferramenta de preparação de uma juventude sadia, que estivesse pronta para conduzir o país a um futuro mais promissor.

O movimento se espraiou pelo mundo em grande parte pela ação de migrantes do leste europeu, especialmente por ocasião dos dois grandes conflitos mundiais. Um exemplo curioso pode ser encontrado no Brasil: Axel Grael, notório velejador nacional, lembra que sua avó, Helene Margrete Jelinski, na Prússia fora membro da sociedade. Em 1913, em Porto Alegre, chegou a ser fundada a Sociedade Esportiva Sokol.

Por todo mundo, com configuração distinta, ainda existem grupos ligados ao movimento de origem checa, reunidos no International Falcon Movement (http://www.ifm-sei.org/).

Curiosamente, Cabo Verde foi um dos lugares do mundo onde mais forte foi o movimento. Segundo Jan Klima, professor da Universidade de Hradec Kralove/República Checa, no arquipélago os Falcões teriam se implantado de forma independente e superior à metrópole: “durante sete anos, a colônia portuguesa Cabo Verde foi provavelmente o segundo mais importante local (depois da Checoslováquia) ligado ao movimento Sokol” (2006, p.59).

Os que aderissem aos Falcões deveriam aprender a marchar, manejar armas, fazer uso da telegrafia, velejar. Os membros deveriam assumir o compromisso de frequentar diariamente o ginásio. Havia uma forte base moral e disciplinar.

Tratava-se de um movimento muito hierárquico. Os líderes eram divididos em: oficiais (de 1ª, 2ª, e 3ª classe), suboficiais (de 1ª e 2ª classe), chefes (de 1ª e 2ª classe) e juniores. Para ascender, o candidato devia fazer provas de comandos, tática, ginástica, esporte, exercício com armas, além de ser submetido a uma análise da sua vida social e moral; para os postos mais altos, havia também testes sobre os principais problemas de Cabo Verde .

Disponível no sítio “Mindel na Coraçon” (de Djomartins): http://www.fotolog.com.br/djomartins/. Segundo o autor: “Fotografia de João Cleofas Martins – 1936. Demonstração de ginástica pelos Cadetes dos Falcões Portugueses de Cabo Verde”.

Na minha avaliação, o sucesso dos Falcões, especialmente em Mindelo (capital de São Vicente), teve haver com o fato de que se inseriram em uma cidade que já tinha tanto uma estruturada vida festiva quanto uma antiga tradição de valorização da prática de atividades físicas. A rápida difusão do movimento no arquipélago teve ainda relação com o aumento das preocupações com a saúde, algo que tinha motivações locais, mas também conexão com o contexto africano e mundial como um todo.

Os Falcões investiam sim na glorificação de Cabo Verde, mas não no sentido separatista. Estavam mais ligados ao sentido corrente da construção identitária caboverdiana naquele momento: convencer Portugal e a própria população local que o arquipélago, dado o seu grau de civilização, fazia efetivamente parte e contribuía para a glória do império português.

Disponível no sítio “Mindel na Coraçon” (de Djomartins): http://www.fotolog.com.br/djomartins/. Segundo o autor: “Fotografia de autoria de Foto Melo, 1938. Comemorações do 1º Centenário da Cidade de Mindelo. Demonstração de Ginástica Musicada, por um grupo de elementos do Sockol, na Praça da República (Pacinha da Igreja)”.

 Apesar do sucesso e do alinhamento à metrópole, os rumos da política iriam determinar o fim do movimento em Cabo Verde. A virada dos anos 1930 e 1940 traria para o arquipélago uma nova associação, dessa vez originária de Lisboa, cuja implantação foi uma das responsáveis por sua extinção, em 1939: a Mocidade Portuguesa. Tratava-se de uma organização juvenil do Estado Novo português cujo intuito era promover o amor à pátria por meio do desenvolvimento das capacidades morais e físicas dos jovens.

            Mas esse é assunto para outro post.

Anúncios

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: