Futebol e ficção: a condição feminina

Por Edônio Alves

A literatura de ficção sobre futebol no Brasil vem cada vez mais se adensando e fixando sua trajetória de discussão estética dos nossos problemas de forma ampla, regular e bem posta. A nossa participação nesse blog tem o objetivo de levar ao internauta amante do esporte (sobretudo do futebol, em particular) um pouco dessa produção temática da nossa literatura. Para isso, a cada participação nossa nesse espaço, traremos a leitura de alguma peça literária que trate do assunto. Já podemos dizer sem medo de errar que é na forma conto que os nossos escritoires melhor têm glosado o tema do futebol em nossas letras. Talvez porque o gênero seja em si mesmo muito adequado para englobar um tema cuja expressão real – um jogo, uma partida de futebol – contenha também em si mesmo os traços e requisitos estruturais da história curta. Ou talvez porque, como numa partida de futebol, o escritor, nesse gênero, se sinta mais á vontade para jogar melhor com a bola e com a letra, quem sabe?

Abaixo, apresento aos nossos queridos internautas uma pequena leitura de mais um belo conto de futebol da nossa literatura. Boa leitura.

***

 O goleiro do time

 Edson Gabriel Garcia

Essa é uma história curta, curtíssima, de tonalidade lírica e sobretudo comovente que se assenta na ambigüidade da situação feminina ante o mundo masculino do futebol e suas amplas adjacências. Ou seja, o mundo mesmo, o vasto mundo em que as mulheres são obrigadas a disputar com os homens em condições desiguais seus espaços de existência e realização.

Escrita na linguagem típica que patenteia as histórias da chamada literatura infanto-juvenil, essa narrativa se sustenta na ambivalência e no ocultamento para literalmente revelar algumas situações vividas por Zeca e pelo time do seu novo bairro e da sua nova cidade, já que é justamente essa mudança de lócus geográfico e existencial que faz com que a sua condição de goleiro implique a sua condição de pessoa.

Sendo assim, a história inicia com um narrador neutro em terceira pessoa observando que “quando Maria José mudou de casa, de bairro e de cidade, achou que seria a coisa mais triste do mundo” e que posteriormente essa sua expectativa não se confirmou. O texto segue enumerando justamente os ganhos na vida de Zeca experimentados com essa sua nova situação.

Já se vê aí que a mistura dos nomes Maria Jose (a pessoa) e Zeca (o goleiro do time) é um investimento formal do narrador para com ele marcar a condição agora dúplice do seu personagem em questão: a menina que se torna goleiro de um time de moleques de bairro e de cidades comuns.

Pouco tempo depois, Maria José ganhou duas coisas na nova cidade. Duas coisas deliciosas, na opinião dela: um apelido e uma posição no time de futebol dos meninos do bairro. O apelido era Zeca, que ela adorou, pois não suportava seu nome. A posição no time era de goleiro, que ela também adorou, porque assim não precisava ficar correndo atrás da bola nem dos meninos. A bola, pelo contrário, toda hora viria em sua direção”.

Com extrema habilidade e cuidadosa maestria, o narrador fixa já aqui, no segundo parágrafo da sua história, aquilo que vai ser o seu tom corrente para por em cena o velho e ainda remanescente tabu da presença feminina no espaço do futebol. Vale dizer, a representação social da mulher que advém dos estereótipos de masculinização do feminino como estratégia de sua inserção num reduto ainda marcadamente masculino.

E o signo da ambigüidade entra aqui como força simbólica inquestionável para dar eficácia literária ao tratamento dessa questão levado a efeito pelo contista Edson Gabriel Garcia. Afinal, por que razão Maria José teria gostado de ser Zeca? Por realmente não gostar do seu nome ou por razão de ocultamento de uma condição existencial que só o narrador conhece e que por isso mesmo prefere deixar nas entrelinhas de um meio sócio-cultural conservador nos costumes e nas classificações dos tipos sociais?

E por que também Maria José teria gostado da posição de goleiro no time, uma vez que é essa função no jogo que faz com que para ela, que não precisava ficar correndo atrás da bola nem dos meninos – ao contrário das outras meninas -, “a bola é que toda hora viria em sua direção”? Esta parece ser uma metaforização feita pelo narrador, ao nível da expressão textual, de um outro estereótipo do universo feminino que consiste na idéia de que a mulher, a verdadeira mulher, é que tem que ser conquistada para o mundo e não ao contrário.

É toda essa problemática, pois, que parece fazer evoluir essa história de futebol contada por nosso Gabriel Garcia.

Utilizando-se também do tempo do futebol como uma temporalidade útil às estruturas narrativas, um recurso eficientíssimo para fazer andar as ações da matéria narrada, o autor enumera mais dois ou três episódios elucidativos da discussão que propõe com sua história e arremata o feito de uma forma exemplar para estes casos quase-fábulas que tem por trás uma moral construtiva a ensinar.

Ressalvando para o leitor que ali “o tempo foi passando mais depressa que a corrida da bola de pé em pé”, numa citação avant la letre do título de um livro justamente de antropologia do futebol, de autoria de Roberto Da Mata (“A bola corre mais que os homens”), o narrador cria uma daquelas situações limites em que a força dos fatos faz com que tudo se ilumine e as ambigüidades se desfaçam ante as ingentes necessidades das mudanças que se impõem numa nova realidade que se instaura.

Um dia, muitas vitórias depois, num jogo difícil, o juiz marcou pênalti contra o time de Zeca”, retoma a sua história o narrador. “Ela no gol, cara a cara com a bola e o jogador adversário. Só os dois e a bola. Um tinha a missão de marcar o gol; perder pênalti era imperdoável. O outro, quer dizer, a outra tinha a difícil tarefa de defender o pênalti”.

Na seqüência do episódio (a cobrança do pênalti) – e sem titubear, como faz funcionalmente o narrador com a frase – “O outro, quer dizer, a outra tinha a difícil tarefa de defender o pênalti”-, os companheiros de time de Zeca, depois que a bola bateu com tanta força no peito do goleiro que o jogou ao chão, correram todos para socorrê-la.

E eis que se deparam com uma revelação:

“- Ela é uma moça! – exclamaram todos”.

A partir daqui o narrador explica que depois desse jogo, ninguém apareceu mais para treinar nem para jogar. Parece que uma deliberação se impunha naquela turma de moleques, depois desse acontecido. “Poderia uma moça ser goleiro de um time de moleques?”, essa era a grande dúvida dos meninos e a questão que se impunha ao narrador.

Consta que duas semanas depois, um grupo de meninos do time foi até a casa da Zeca, levando um pacote para ela com os seguintes dizeres num bilhete que estava dentro:

Para o goleiro mais importante do mundo.

Será nosso goleiro até o dia que quiser.”

Sim, a goleira Maria José, ou o goleiro Zeca, como queiram, defendeu o pênlti e de posse do blusão, a camisa nova de goleiro que ganhou da turma, foi para a frente do espelho do guarda-roupa e “achando-se o goleiro mais importante do mundo, decidiu que seria goleiro do time dos meninos até o fim do mundo”.

O gênero das entrelinhas do desfecho de tudo decida o leitor de que tipo é. Ou não decida nada, e estamos conversado, parecer propor o narrador de mais esse conto da bola.

Para se informar mais sobre o tema, ler:

            MATTOS, Cyro. Org. Contos brasileiros de futebol. Brasília: LGE, 2005.

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