RUSSINHO, 1930: LEADER DOS FOOTBALLERS DO BRASIL

por João Malaia

O “Grande Concurso Nacional Monroe”, promovido pela Cia de cigarros Veado, que elegeu o “Leader dos footballers do Brasil” foi uma das maiores estratégias de publicidade ligadas ao futebol do início do século XX, dando uma demonstração inequívoca do potencial deste esporte para a propaganda. A referida companhia, ao lançar um cigarro novo no mercado – os cigarros Monroe – decidiu organizar um concurso para eleger o jogador mais popular do país. As cédulas de votação eram os maços vazios de qualquer cigarro da Cia. Veado. Na parte da frente desses maços, ao lado do selo de consumo do governo, havia um espaço para se colocar o nome do jogador e o do clube escolhido pelo consumidor. O concurso teve a parceria do jornal Diário da Noite, do Rio de Janeiro, onde ficava uma das urnas para o depósito dos votos. A outra urna ficava no escritório central da companhia de tabacos, na Rua da Assembléia, no centro da cidade. Fora do Distrito Federal, havia urnas em todas as sucursais estaduais da empresa e nas sedes do Diário de São Paulo, na capital paulista, e do Estado de Minas, na capital mineira. O jogador mais votado receberia um automóvel muito apreciado no período, uma “barata” da marca Chrysler. Já os consumidores concorreriam, além de prêmios, a um total de 7 contos de réis (7:000$000) em dinheiro, o equivalente a mais de dois anos do que se pagava em média por mês aos operários cariocas naquele ano.[1]

Cigarros Veado

Cada clube escolheu aquele que deveria ser seu representante e não mediu esforços para que seu jogador fosse o escolhido e rapidamente, dois jogadores apareceram como os mais prováveis vencedores: Russinho, do Vasco da Gama, e Fortes, do Flamengo. Os empresários da colônia portuguesa trataram de se colocar à disposição da nova “causa vascaína” desde os primeiros dias. João Rosa Pereira de Almeida era sócio da fábrica de sabão “Portuguez”. O dono da fábrica contou ao repórter do Diário da Noite parte da estratégia para conseguir a vitória de Russinho, “seu amigo”. Uma das táticas consistia em comprar grandes estoques de cigarros e fornecê-los a seus funcionários a preço de custo. Assim, na visão de Almeida, seus trabalhadores fumavam “um óptimo cigarro por um preço mais ‘camarada’”.[2] Além disso, rifou seu carro, um Studebaker. Cada 30 maços de cigarros da Cia. Veado, em branco, valia uma rifa pelo automóvel. As casas do comércio e fábricas portuguesas colocaram urnas para aqueles que votassem em Russinho.[3]

Russinho

Apesar do grande apelo do concurso, João Canale, diretor da Cia. Veado, calculava que, no máximo, a empresa conseguiria vender um milhão de maços durante a duração da promoção. Como cada maço de cigarro custava em média 600 réis, a empresa conseguiria um adicional de 600 contos, que era pouco para cobrir as despesas do concurso com os três carros para os três primeiros colocados e mais relógios de luxo para aqueles que ficassem entre a 4ª e a 10ª posições. Canale afirmava que o que movia a sua empresa era o objetivo de “consolidar a colocação do [novo] produto” no mercado.[4]

* Ouça o Jingle dos Cigarros Veado

Jingle Cigarros Veado

Porém, os números ultrapassaram, e muito, todas as expectativas. No começo de abril, faltando ainda mais de um mês para o encerramento da entrega dos votos, o número de carteiras contabilizadas já ultrapassava um milhão. O primeiro colocado era Fortes, com 351.694 votos, seguido por Russinho, com 339.834; Filó, representante de São Paulo e jogador do Corinthians, com 232.268. Os vascaínos intensificaram a campanha pela vitória de Russinho. Ao final do mês, durante um domingo repleto de jogos de futebol na cidade, os torcedores de diversos estádios cariocas foram surpreendidos por um monoplano sobrevoando os campos com a seguinte inscrição na parte de baixo: “VOTAE NO RUSSINHO”.[5] Durante o mês de maio, o número de carteiras contabilizadas era tão alto, que o periódico que patrocinou o concurso chegou a afirmar que os cariocas se envolviam mais na escolha do maior footballer do país do que na eleição para presidente, entre Julio Prestes e Getulio Vargas.[6] Realmente, os números finais do concurso dão uma idéia do que foi aquele pleito. Russinho ficou em primeiro lugar, com 2.900.649 votos. Fortes foi o segundo, com 2.048.483 votos, seguido por Filó, com 722.563, Friedenreich, com 319.050 e por Nonô, com 129.890. No total, seis milhões[7] de carteiras de cigarros da Cia. Veado foram vendidas, e teve-se certeza de que o futebol poderia ser muito bem utilizado como forma de potencializar os lucros das empresas do período. A revista, fez uma reportagem ilustrada com muitas fotos do evento de premiação, dentre elas, algumas de Russinho e de situações que demonstram o envolvimento dos cariocas e de autoridades públicas com o referido concurso.

O cronista da revista  O Malho, ao final do concurso, destacava que “o exito imprevisto alcançado pelo ‘Concurso Monroe’ […] demonstrou, a par do grande espírito sportivo de nossa mocidade, a efficiencia da intelligencia alliada com a actividade humana a serviço da propaganda commercial”.[8]

O Malho

A grande popularidade de Russinho inspirou Noel Rosa a compor o samba “Quem dá mais?” , em referência ao jogador e ao seu clube. Os dirigentes vascaínos e a torcida do clube davam mais uma demonstração de sua força nos primórdios da organização profissional do futebol carioca.

[1] Fonte: Correio da Manhã, 2 de setembro de 1931. Tabelas apresentadas pelo Sr. Lindolfo Collor, Ministro do Trabalho, ao Sr. Getúlio Vargas, Chefe do Governo Provisório. Os valores são referentes ao pagamento por dia de trabalho, em setembro de 1931. O salário médio era apresentado como de 10$400 por dia, média de cerca de 250$000 ao mês.

[2] Diário da Noite, 20 de janeiro de 1930.

[3] Alguns dos locais eram a Casa Retroz, Casa Campos, de Raul e Antonio Campos, diretores do Vasco, Casa Sportman, de Raul Campos, o Armazem Cruzeiro, a Chapelaria Loureiro, a Chapelaria Leal e a Companhia Fly-Tox. Diário da Noite, 20 de janeiro de 1930. Posteriormente outras aderiram, como a Fábrica de Cerveja Brasil e o Restaurante Pennafiel. Diário da Noite, 17 de março de 1930.

[4] Diário da Noite, 2 de abril de 1930.

[5] O avião, pilotado por Arthur Cunha, passou pelo campo do Bonsucesso, durante o jogo Bonsucesso e Andarahy; por São Januário, durante o jogo Vasco da Gama e São Christovão; pelo campo do Flamengo, durante o jogo Flamengo e Syrio Libanez; pelo campo do Botafogo, no jogo deste clube contra o Bangu;  no campo do SC Brazil, em seu jogo contra o Fluminense, além de passar pelo Jockey Clube e por campos dos subúrbios como o do Engenho de Dentro e do Modesto. Antes de aterrissar no Aeródromo de Ramos, passou ainda pela Igreja da Penha. Diário da Noite, 21 de abril de 1930.

[6] Diario da Noite, 17 de maio de 1930.

[7] Diário da Noite, 4 de junho de 1930. Vale lembrar que as eleições para presidente de 1º de março de 1930, tiveram a participação de pouco mais de 1.800.000 eleitores, daí a comparação do jornal entre a importância atribuída ao concurso e o pleito para presidente.

[8] O Malho, 14 de junho de 1930.

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