BI, TRI OU TETRA? O legitimo e o oficial no futebol brasileiro

Por Maurício Drumond

Na semana que antecedeu o título brasileiro do Fluminense, encontrei-me com um amigo tricolor na universidade. Estampando grande sorriso no rosto, ele afirmava já possuir o ingresso para assistir ao que definiu como “tetracampeonato”, se referindo aos já passados títulos de 1970, 1984 e 1999, aos quais este se somaria. Levando-se em conta a ironia entre torcedores rivais, a brincadeira levou-me a refletir um pouco mais sobre o tema.

Grande parte dos torcedores do Fluminense considera-se tricampeão brasileiro, levando em conta o título de 1970 (como destacado na abertura do site oficial do clube). Mas o que os levaria a desprezar o título brasileiro da série C, conquistado em 1999? Ou seja, por que, ao afirmar ser “tetracampeão”, o torcedor faz uma piada, mas ao falar em 1970 levanta-se uma gama de motivos para justificar o título de “tri”? Para analisarmos melhor o caso, vamos relembrar as duas ocasiões.

Em 1970 não havia o Campeonato Brasileiro como hoje o entendemos. O atual torneio nacional surgiu em 1971, sendo atualmente apenas os clubes que venceram os torneios a partir deste ano considerados campeões brasileiros pela CBF. O título conquistado pelo tricolor carioca em 1970 foi o de campeão do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, carinhosamente apelidado de “Robertão”. O torneio foi um dos precursores do Campeonato Brasileiro, tendo sido realizado de 1967 a 1970. O certame contava com a participação dos grandes clubes do Rio de Janeiro (Flamengo, Vasco, Botafogo, Fluminense e Bangu, este substituído pelo América em 1969), São Paulo (Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos e Portuguesa), Minas Gerais (Atlético e Cruzeiro), Rio Grande do Sul (Internacional e Grêmio) e de outros estados (alternando-se Ferroviário, Atlético Paranaense e Coritiba, pelo Paraná, Santa Cruz e Náutico, de Pernambuco, e Bahia). Em seus dois primeiros anos, o Robertão coexistiu com a “Taça Brasil” [1], e passou a ser a única competição oficial de caráter nacional nos anos de 1969 e 1970, quando recebeu a denominação de “Taça de Prata” e passou a determinar os representantes brasileiros na Taça Libertadores da América. A última edição do torneio contou com o Fluminense como campeão, após vencer o quadrangular final disputado contra Palmeiras, Cruzeiro e Atlético-MG.

Capa da Revista Placar celebrando o título do Fluminense em 1970

Já em 1999, o Fluminense vinha da maior das crises institucionais de sua história. Após ser rebaixado para a série B do campeonato Brasileiro duas vezes seguidas [2], em 1996 e 1997, e rebaixado novamente em 1998, agora na disputa da segunda divisão, o tricolor do Rio disputou a série C do Brasileirão no penúltimo ano do século XX, enfrentando clubes como São Raimundo (AM), Náutico (PE) e Serra (ES), para citar os melhores colocados.

Coloca-se assim em questão a legitimidade de cada uma dessas conquistas. Ou seja, o título de 1999, ainda que reconhecido pela CBF como um título brasileiro, não possui a mesma legitimidade do que o título de 1970. Ao mesmo tempo em que luta pelo reconhecimento do título de 1970 junto à CBF, surgem publicações como o livro de Roberto Sander, “Taça de Prata de 1970”, que conta com o nada imparcial subtítulo “O Campeonato Brasileiro mais difícil de todos os tempos, conquistado pelo Fluminense”.

Capa do Livro de Roberto Sander

Não pretendo entrar aqui no mérito da dificuldade do referido campeonato, nem mesmo na afirmação de dificílima confirmação histórica – para dizer o mínimo – do subtítulo da obra do jornalista e torcedor do Fluminense. Na verdade, busco aqui ressaltar o caráter reivindicatório aparente na capa da obra, uma vez que não li o livro e não posso julgar seu conteúdo. Busca-se afirmar a legitimidade de tal conquista, não reconhecida pela instituição gestora de nosso futebol – a CBF – como um título brasileiro.

O reconhecimento do título pela CBF se torna, no entanto, uma disputa política que pouco tem haver com o futebol disputado no gramado. É, na verdade, mais próxima a uma negociação entre duas entidades políticas, clubes e confederação, que defendem seus interesses e buscam as melhores vantagens possíveis. Tal negociação pode ser rapidamente resolvida, como no caso do descenso do Fluminense em 1996 ou de sua subida à primeira divisão em 2000, ou levar anos em seu curso, como o campeonato carioca de 1907, que só teve seu desfecho final em 1996, declarando-se Fluminense e Botafogo como campeões. O mesmo se dá com o Campeonato Brasileiro de 1987, que eventualmente terá Flamengo e Sport reconhecidos como campeões.

No futebol, a legitimidade de um título se dá principalmente por parte da imprensa esportiva e da manifestação popular, que se relacionam de forma dialética. Ainda que não reconhecido pela CBF, o Flamengo é apontado como campeão em 1987 pela maior parte da imprensa, assim como o Fluminense vem sendo chamado de tricampeão, ao menos da imprensa carioca (como os jornais Extra e Meia Hora).

É evidente que o título de 1970, conquistado sobre rivais como Cruzeiro, Santos, Flamengo, Internacional, Palmeiras, São Paulo e tantos outros grandes clubes, se torna muito mais legítimo do que o de 1999.  Entretanto, a resolução do impasse criado pelo reconhecimento oficial tende a não ser tão facilmente resolvida. Devemos lembrar que, ao reconhecer o Fluminense como campeão brasileiro de 1970, a CBF teria também que reconhecer os outros campeões do Torneio Roberto Gomes Pedrosa (Palmeiras, com os títulos de 1967 e 1969, e Santos, campeão em 1968), ameaçando uma série de batalhas judiciais no STD caso assim não proceda. No entanto, isso também abriria a brecha para que os campeões da Taça Brasil pleiteiem o reconhecimento de seus títulos como de campeões brasileiros. Assim, além de por em conflito os dois campeões de 1967 e 1968 (anos em que foram disputadas as duas competições), teríamos, no final das contas, mais 14 títulos de campeão brasileiro somados aos atualmente reconhecidos pela CBF. Seis do Santos, quatro do Palmeiras e um de Fluminense, Bahia, Cruzeiro e Botafogo.

Pessoalmente, não acho que devamos nos basear no reconhecimento ou não por parte da CBF. Este poderá vir ou não, mais cedo ou mais tarde, através de uma negociação atendendo os interesses atuais dos dirigentes esportivos. Não se trata da “qualidade” do campeonato, dos clubes envolvidos ou da “dificuldade” do torneio. Será apenas mais uma jogada política, tantas vezes vista na história de nosso futebol.

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NOTAS

[1] A Taça Brasil foi realizada de 1959 a 1968. Reunindo os campeões de cada estado da federação, a competição determinava os representantes brasileiros na Taça Libertadores da América, criada em 1960. A Taça Brasil teve como campeões o Santos (5 vezes), Palmeiras (2 vezes), Bahia, Cruzeiro e Botafogo (uma vez cada).

[2] O Fluminense ficou entre os clubes a serem rebaixados para a segunda divisão ao final do Campeonato Brasileiro de 1996, juntamente com o Bragantino. No entanto, através de manobras políticas, não houve rebaixamento no campeonato desse ano. O Campeonato Brasileiro de 1997 foi disputado por 26 clubes, dois a mais do que o anterior, com quatro clubes rebaixados ao final do campeonato, ao invés de apenas dois.  O Fluminense terminou o campeonato na penúltima colocação e foi rebaixado à série B, juntamente com União São João, Criciúma e Bahia.

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