CULTURA, MEMÓRIA E SUCATA

por João Malaia

Não quero falar aqui de marketing. Deixo isso para quem entende mais do assunto. O fato é que o Estádio Palestra Itália, de propriedade da Sociedade Esportiva Palmeiras, está sendo demolido para dar lugar a uma “arena multiuso”, uma moderna estrutura capaz de preparar o clube para grandes arrecadações e para um futuro de conquistas. Eis que vejo no dia 10 de dezembro, no site 3ª Via Verdão (www.3vv.com.br), dedicado ao Palmeiras e feito por torcedores, a seguinte notícia: o zelador do estádio estava com um certo material atrapalhando seu espaço.

Precisando “desentulhar aquele monte de ferro” chamou um sucateiro para recolher o “material”. O material em questão: um grande número de cadeiras das numeradas do estádio Palestra Itália.

Foto Guilherme Tosetto para IG

 

Sr. Acácio Miranda, “que trabalha com reciclagem de madeiras”[1],  viu o material com o sucateiro e, devido aos prováveis anos de estudo em instituições de ensino superior dentro e fora do país em business e marketing, rapidamente percebeu a relíquia que o tal sucateiro tinha em mãos. Sr. Acácio, que nem palmeirense é, comprou as cadeiras do sucateiro e foi anunciando uma a uma em um site que cobra uma pequena porcentagem de cada venda. Primeiro a R$50,00, depois a R$100,00 e chegando até a R$130,00 cada uma.[2] Segundo o 3VV, o sucateiro já arrecadou de 200 a 300 mil reais com seu empreendimento.

 

Praticamente não existem mais cadeiras, tamanha a procura da torcida. Eu mesmo venho tentando comprar a minha, porém sem sucesso. O Departamento de Marketing (?) do clube guardou seis cadeiras para o futuro museu do clube e deixou o resto nas mãos de um sucateiro. Nos blogs de palmeirenses brincam que na verdade o Departamento de Marketing(?) do clube correu para comprar meia dúzias de cadeiras com o Sr. Acácio quando soube da lambança.

Esta história é apenas mais um retrato do futebol brasileiro. Nossos clubes não têm pessoas qualificadas trabalhando na grande maioria dos seus setores. Se não existem pessoas competentes gerenciando o marketing do clube, algo extremamente rentável, quanto mais historiadores qualificados cuidando da preservação da memória dessas instituições. São todos sócios, e amigos dos sócios, seus parentes, pessoas que estão ali por estarem envolvidas com a política do clube há longos anos. Não há respeito pela nossa história. Os torcedores também têm sua parcela de culpa. Basta lembrar que uma parte de torcida uniformizada do Palmeiras já quebrou a sala de troféus do time em meio à crise do clube nos anos 1980. E isso não é uma exclusividade do Palmeiras ou de seus torcedores.

O “material dispensado” faz parte da história do clube, do futebol brasileiro, elemento dos mais importantes da própria cultura do país. Cultura vista como “o conjunto de modos de ser, viver, pensar e falar de uma dada formação social”[3], ou ainda como “todo conhecimento que uma sociedade tem de si mesma, sobre outras sociedades, sobre o meio material em que vive e sobre sua própria existência”.[4] Não só as cadeiras, como o próprio estádio em si, assim como outros estádios brasileiros, que em nome da modernização perdem suas características originais e se homogeneízam sob o conceito de “arenas multiuso”, são expressões materiais de um dos aspectos mais importantes da cultura brasileira. E o patrimônio, a história ali concretizada foi deixada para um sucateiro. “Seu” Acácio fez seu trabalho de maneira honesta e competente e deve estar, neste momento, celebrando a incompetência alheia, capaz de torná-lo um homem 300 mil reais mais rico.

Foto Guilherme Tosetto para IG:

Esta é a situação da preservação da memória do nosso futebol. Salvo iniciativas como a do projeto de revitalização do Centro de Memória do C.R. Vasco da Gama, pouco se faz pela preservação do acervo da nossa memória ligada ao futebol. Qual é o clube, ou federação, ou confederação que tem seus documentos preservados e à disposição de pesquisadores? Qual é o clube do Brasil que tenha um lindo museu capaz de poder ser considerado uma das maiores atrações turísticas do país, do seu estado, da sua cidade, ou até mesmo do seu bairro? Será que somos mesmo o país do futebol, na concepção máxima dessa expressão? Perder as belas cadeiras verdes onde se sentaram “amendoinzeiros”[5] históricos para um sucateiro? Até eu, que sou historiador e não tenho conhecimento nenhum em marketing, sei que tais cadeiras poderiam ser vendidas mediante uma boa estratégia por pelo menos dez vezes esse preço. Esse estádio todo, demolido, poderia ter virado não sei quantas mil pedrinhas vendidas, essas sim a 100 reais, em chaveirinhos, plaquinhas e sei lá mais quantas ações diferentes. Se nem com as cadeiras fizeram isso, imaginem com o resto. Iniciativas como a do Maracanã, de vender pedaços do antigo estádio, são tímidas. Além disso, o Maracanã não pertence a nenhum clube e esta é uma iniciativa do Estado do Rio de Janeiro.

Pedra do Maracanã que será vendida a torcedores.

 

[1] Segundo reportagem do IG: http://esporte.ig.com.br/futebol/2010/11/19/com+reforma+do+palestra+italia+cadeiras+da+turma+do+amendoim+viram+item+de+colecionador+10179058.html

[2] Os interessados podem enviar email para cadeiradopalestra@ig.com.br

[3] SANTOS, J.L. dos. O que é cultura. São Paulo, Brasiliense, 1999.

[4] BOSI, A. Dialética da colonização. São Paulo, Cia. das Letras, 1993.

[5] O termo “Turma do amendoim” foi criado pelo treinador do Palmeiras Luis Felipe Scolari, em 1999, referindo-se aos irritantes torcedores do setor das cadeiras numeradas do estádio Palestra Itália localizados atrás do banco de reservas.

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