ESPORTE: SURPREENDENTE? HUMANO DEMASIADAMENTE HUMANO

Por Victor Andrade de Melo

 I.

Inspirado pelo meu amigo Rafa, resolvi escrever esse post com algumas pílulas que coletei nos últimos dias.

 Aliás, não deixem de ler o post do Rafa que está aí logo abaixo desse. É urgente e necessário!

 II.

 Dezembro de 2010. Pelo campeonato nacional da 1ª divisão, se enfrentavam o Al-Faisaly e o Al-Wahdat, um dos mais tradicionais e acirrados clássicos do futebol jordaniano. A segurança policial redobrada já denunciava o clima tenso. As precauções foram em vão: já no final da partida, desencadeou-se um conflito entre os torcedores e a polícia, ocasionando 250 feridos; cujas imagens percorreram o planeta.

 Tais confrontos são antigos, já tendo inclusive chamado a atenção da diplomacia norte-americana, como demonstram informações recentemente divulgadas pelo WikiLeaks.

O que chama a atenção são as motivações políticas. A torcida do Al-Faisaly é formada por jordanianos de origem beduína, maioria no país. O clube, de fato, é também um dos mais vitoriosos da história futebolística local, celeiro de muitos jogadores da seleção nacional.

Símbolo do Al-Faisaly

 

Já os torcedores do Al-Wahdat são majoritariamente palestinos, a minoria no país, grande parte familiares de refugiados da Guerra dos Seis Dias; no passado foram inclusive perseguidos pelo exército local, sendo muitos inclusive assassinados.

Símbolo do Al-Wahdat

 

Nos dias de hoje, a Jordânia, no tabuleiro geopolítico internacional, procura se apresentar como exemplo de estabilidade política, de local onde convivem harmoniosamente palestinos e não-palestinos, o que lhes daria a condição de mediar os conflitos com Israel (trata-se do único país árabe que reconhece essa nação). O rei Abdullah II é inclusive casado com uma palestina de hábitos ocidentais, Rainha Raina.

Nos Estádios de futebol, todavia, as fraturas dessas representações vêm à tona. Os gritos de guerra dos ultranacionalistas do Al-Faisaly ecoam com frequência, não poucas vezes, de forma mais ou menos explícita, mais ou menos metafórica, pregando a destruição. A rainha é atacada, cantos sugerem que o rei deve se divorciar. Para um diplomata norte-americano, governo e polícia jordanianos inclusive não se empenharam em apurar os conflitos, o que denunciava sua simpatia à causa.

Surpreendente? Claro que não. Por todo o planeta, em muitas distintas ocasiões, com múltiplas finalidades, os espaços esportivos têm servido como palco para manifestações políticas diversas, inclusive as de natureza identitária.

 III.

 Com a vitória sobre o Internacional de Porto Alegre e a classificação para final do recente Mundial de Clubes da FIFA, o Muzembe, da República Democrática do Congo, se tornou uma surpresa, ainda que tenha perdido a final para a Inter de Milão (pelo menos assim diziam os jornais pelo mundo)

Surpreendente? Só para quem não acompanha o futebol africano, por vezes até por preconceito ou estereótipo, e não sabe que já há alguns anos esse time vem se destacando no continente. Grande parte de seu sucesso vem daquilo que todos já conhecem: dinheiro e organização. O clube é hoje um dos mais ricos da África, financiado pelo dinheiro do minério e do diamante da região. O seu dono é Moise Katumbi, dono de mineradora e homem mais rico do Congo, um dos países mais pobres do mundo. Sua estratégia: comprar os jogadores que a Europa ainda não levou.

IV.

Esportes radicais e esportes na natureza (na expressão de meu querido Clebão) estão na crista da onda (com trocadilho). O surfe é um dos mais midiáticos esportes, ponta de lança entre essas modalidades.

Surpreendente? Quem diria que já em 1962 houve na televisão brasileira recém-nascida um programa chamado “Esportes Exóticos” (como lembra Arnaldo Branco em matéria para a Monet, na época era perigoso o uso do termo radical).

Deficiências técnicas e estéticas, estranhamento do público, falta de popularidade das modalidades: o programa não durou muito tempo, mas antecipou em anos o interesse que só ia se conformar a partir da década de 1980.

V.

Esporte: surpreendente?

Absolutamente, ainda mais se procurarmos melhor entendê-lo no tempo e no espaço, evitando a tentação de ver originalidade em tudo. A força de ser tão fascinante vem mesmo de sua condição humana, demasiadamente humana (brincando com o filósofo), dramatizando (afinal, não se trata o esporte de uma arte de performance?) de forma multifacetada e complexa o melhor e o pior dos seres humanos e dos grupos sociais.

VI.

Que em 2011 sigamos nos surpreendendo com o esporte, sem abandonar um certo distanciamento prudente, tampouco um encantamento irresistível e necessário.

Bom ano vindouro é o desejo da equipe desse Blog e do Sport! Aguardamos em 2011 sua companhia!

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