Las Ibericas Fútbol club

Boa segunda-feira, caros leitores…

Pra variar vou mandar mais um filme que envolve futebol, mas um de origem espanhola. Como já disse, meu trabalho de pesquisa é lidar com esse tipo de filme, no Brasil e na Espanha, entre 1964 e 1975. Vamos pois a essa quase inocente e divertida comédia.

Las Iberica F. C. é uma película de 1971,  de Pedro Masó,   produtor e diretor espanhol. Masó já faleceu, mas deixou uma filmografia volumosa:  atuou como produtor em 45 filmes ; em 20 trabalhou como diretor.  Las Ibericas é sua estréia na condução de uma batuta cinematrográfica. Trata-se, como já falamos, de uma comédia. Uma empresária da moda lança um time de futebol feminino cujo principal atrativo inicial é o uniforme generosamente curto e gracioso, assim como o grupo de “delanteras” ,que abre a narrativa. 

Segue-se uma sucessão de picardias relacionadas à beleza das moças, de suas pernas etc.  O massagista, por exemplo, que antes de entrar em campo queria acertar as condições do contrato, depois que começa o serviço não quer parar de jeito nenhum… e aceita qualquer proposta trabalhista… Há uma moça negra, levada para o time e que é apresentada como uma parente de Pelé!!!  Nem as ibéricas acreditam e, de parente, ela passa somente a uma brasileira, com origem no Rio de Janeiro.  E por aí vai.

Há ainda o caso de uma das boleiras que, conforme passa a jogar e marcar gols, começa a se sentir estranha  e  principia a fumar charutos, beber conhaque e a se barbear…  Um amigo a manda para um psiquiatra. Este, ao se deparar com aquele mulherão com inclinações estranhas,  passa a querer curá-la a todo custo (a personagem é vivida pela atriz Rosana Yanni; pra mim a bola cheia do time). O médico, em sua dificuldade, questiona um retrato de Freud, perguntando se o doutor austríaco consegueria resolver aquela parada…

Bom, e o que essas  e outras coisas (que não vamos ter espaço pra comentar), podem nos contar, além de nos divertir, o que já não é pouco. O início da década de 70, na Espanha franquista, foi um período de enorme crescimento econômcico. Vai durar até 1973, exatamente como aqui. A abertura para os demais países europeus, depois de um longo período de semi-isolamento, já havia se iniciado desde fins da década de 50. A linha abertamente fascista que compunha o regime, estava enfraquecida.  Não obstante, desde antes de Franco e reforçado por seu regime, a Espanha era uma sociedade conservadora.  Não deu pra avaliar , ainda, a repercussão dessa fita, mas algumas coisas parecem claras, desde já:  há um traço de ousadia no roteiro e execução do filme, uma ousadia temperada e minimizada pela comicidade e por estratégias de “negociação”. Senão, vejamos (e concluamos).

As moças que jogam parecem fazer o que querem. O marido de “Luísa” e o namorado de “Piluca”, a princípio são obstáculos, mas facilmente superáveis.  O namorado de “Julia”, mais liberal, aparentemente não se importa que a garota jogue bola, mas teme que o futebol “não seja adequado às mulheres”.  Chega a essa conclusão após assistir a uma aula, na faculdade, em que um cadetrático defende a hilária tese de que esse esporte, para mulheres, pode ocasionar uma “hipertorfia cardíaca que pertube a função da maternidade”. Depois disso o mancebo acaba imaginando seu futuro filho nascendo com a cabeça na forma de uma bola !   O treinador das atletas, por sua vez, pensa que tudo pode regir com estrondosos apitaços;  a única coisa que consegue é ser sacaneado pelas meninas, por conta da gana que demonstra quando bota o apito na boca.   

Vendo assim, parece que as mulheres realmente estão no comando, mas aí vem a “negociação”, necessária para que a ousadia se torne palatável.  Luísa, cujo parceiro conservador (e desleixado quanto a suas responsabilidades matrimoniais) flerta com o chefe do marido, mas, no final,  nada acontece;  Piluca, que  vive às turras com o namorado “macho” que, inclusive, lhe bate de vez em quando, mas que ela adora, também acaba se entendendo com o mesmo;  o namorado de Julia, que teme ter um filho com cara de bola, acaba vendo que não tem motivos para tanto (sua namorada, logo na primeira cena, já o tinha tranquilizado: “Querido, se não quiser que eu jogue, eu não jogo”).  Eles terminam se casando.  Alás, todas elas, até “Chelo”, a gostosa que estava pensando em mudar de time/sexo.  É curada pelo tal psicanalista, mas não com a ajuda de Freud, e sim de um belo amasso. Casam-se.  Esse é o desfecho da transgressão (representada pela entrada de mulheres num “jogo de homens”):  acabam todas no altar, num happy end prá lá de tradicional. 

O desafio teve que se reconciliar com a tradição e nada mais tradicional que um fim de filme com as mulheres de branco, casando-se e assumindo suas funções de esposas e mães. A diversão valeu, houve experimentação, mas no final ninguém quebrou nenhuma regra mais forte. Provavelmente ainda era muito cedo.

Abraços,

Luiz C. Sant’ana

http://www.clan-sudamerica.net/invision/index.php?showtopic=24640&hl=las+ibericas

Consultado em 17 de janeiro 2011.

Datos Película:
Director: Pedro MasóActores: Claudia Gravy, Rossana Yanni, Ingrid Garbo y La Contrahecha

Idioma: Español

País: España

Género: Comedia

Tiempo: 84 minutos

Grupo: 24h

 1971

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