Percursos do percurso

Cleber Dias
cag.dias@bol.com.br

A prática conhecida como parkour tem experimentado cada vez mais visibilidade pública. Vez por outra a modalidade faz aparições na grande imprensa. Reportagens exibem praticantes tentando percorrer um trajeto urbano através da superação de todo tipo de obstáculos: desde muros até bancos, passando pelos corrimões, estátuas, postes, alambrados e até prédios – porque não?

A história do parkour está ligada ao nome do francês David Belle. De uma família de militares, David encontrou grande inspiração nos métodos de treinamento do exército e dos bombeiros (especialmente a atividade conhecida como Parcours Du Combattant, idealizado por Georges Hébert em finais do século XIX e freqüentemente utilizado pelas duas instituições). Motivado, David passou a se reunir com amigos para realizar atividades de preparação física. Nessas ocasiões, combinavam-se exercícios militares com elementos esportivos, especialmente da ginástica, do atletismo e do montanhismo. No início, a idéia era simular situações em que os praticantes se imaginassem salvando vítimas de um prédio em chamas ou fugindo em perseguição. Para isso, apenas o próprio corpo deveria servir como recurso para superação dos obstáculos, da maneira mais rápida e eficiente possível.

Com a progressiva popularização da prática, outros significados foram sendo agregados. Atualmente, inclusive, existe uma divergência entre os praticantes a respeito do sentido histórico geral do parkour. De um lado, quem acredita ter se operado uma dissidência no seu processo de evolução, dando origem a modalidades diferentes, como o freerunning. De outro, os que crêem que tais diferenças não são mais que peculiaridades de tradução do francês para o inglês, onde esses nomes, no final, representariam a mesma prática e a mesma “essência”.

Geralmente, para os que enxergam uma eventual dissidência, o parkour seria uma prática mais original, verdadeira, autêntica, orientada por ideais de eficiência, utilidade e objetividade. Não vêm ao caso saber a utilidade de saltar entre telhados ou pendurar-se em parapeitos. Deixemos isso de lado. Nesse caso, interessa apenas destacar que o parkour estaria elevado, segundo essa perspectiva, a um estatuto de aprimoramento espiritual, que encontra no virtuosismo de David Belle quase um guru. Ao mesmo tempo, alega-se que as concepções e estilos do freerunning, marcado por exibições acrobáticas, reduziriam essa prática a um espetáculo superficial, distorcendo inteiramente os “verdadeiros” e “autênticos” sentidos do parkour.

Nessa celeuma, multiplicam-se as versões para a história do surgimento do freerunning. Admite-se que a expressão teria sido criada (ou pelo menos disseminada) por Sebastien Foucan, ex-bombeiro de Paris, praticante de artes marciais, admirador de Bruce Lee e antigo integrante do grupo de David Belle. Foucan estaria interessado em aproveitar as potenciais oportunidades econômicas do parkour, além de se tornar ele próprio a figura principal de uma nova modalidade. Em 2003, consolidou-se a idéia do freerunning por ocasião da produção de um documentário inglês sobre a prática do parkour em Londres (Jump London).

Logo, a expressão freerunning seria tomada por alguns adeptos como uma tentativa de adequar o parkour às exigências de comercialização de um mercado global. Em outras palavras, freerunning passaria a ser visto como uma mistura espalhafatosa de movimentos acrobáticos e circenses, com a única intenção de impressionar e servir aos interesses da publicidade. Desprezado como uma prática sem filosofia e sem história, o freerunning estaria no pólo oposto do sentido supostamente transcendental que apenas a prática do “verdadeiro” parkour poderia propiciar.

O curioso é que as exibições espetaculares do parkour são um dos principais elementos na popularização dessa prática, inclusive no que diz respeito aos seus ideais de elevação espiritual e filosofia de vida. Incríveis demonstrações de David Belle em vídeos na internet ou em produções do cinema, como o que ele protagoniza um filme publicitário do canal BBC (!) ou no filme B13 13 Distrito (em que ele interpreta o personagem Leito), são uma das reconhecidas fontes de disseminação do parkour. Depois disso, até James Bond, o imortal agente secreto britânico, deu mostras de ter se interessado pela “arte do deslocamento”, como também é conhecido o parkour. Em 007 e Cassino Royale, Bond valeu-se das técnicas do parkour para perseguir um criminoso, que por acaso, ou nem tanto, é interpretado por Sebastien Foucan.

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