O piloto, o governador e o repressor

Por Rafael Fortes

Há alguns anos tive uma ideia mais ou menos óbvia. Sempre que possível, quando vou viajar, tento ler, antes e durante (e, com frequência, depois) a viagem, uma obra relacionada ao lugar visitado. Vale ficção e não ficção. Vale livro acadêmico. A relação pode estar na trama, no título, no(a) autor(a). Não tem muita regra.

Assim, li “Estado e Autoritarismo no Paraguai Contemporâneo” quando fui à bacaníssima Assunção e à medonha Ciudad Del Este; “Rio Maria: Canto da terra” na última ida ao Pará; “As veias abertas da América Latina“, do uruguaio Eduardo Galeano, quando fui a Montevidéu e Colônia; “Cordilheira“, numa das idas a Buenos Aires. E por aí vai.

Bom, quem me conhece sabe que, se o princípio é esse, volta e meia vou me deparar com algo sobre a Argentina e/ou Buenos Aires. Este ano fucei as caixas de papelão – restos da última mudança – até achar “El palacio y la calle“, de Miguel Bonasso, que comprei na primeira vez em que estive na terra de Evita e Perón, em 2005.

Jornalístico, narra basicamente duas semanas entre dezembro de 2001 e janeiro de 2002, quando a Argentina teve cinco presidentes diferentes, sendo dois deles – Fernando De La Rúa e Adolfo Rodríguez Saá – derrubados pelo povo nas ruas. Uma história interessante, que tenta costurar os fios entre a irrupção espontânea de protestos em diversas grandes cidades e as manobras e conspirações de bastidores levadas a cabo pelos caciques políticos – incluindo uma série de protestos encomendados e manifestações encenadas especialmente para a televisão (os meios de comunicação corporativos, como sempre, estiveram envolvidos até o talo nas tramas e, via de regra, a serviço da direita).

Bom, a essa altura você pode estar se perguntando: vem cá, onde esse cara quer chegar, com esse texto com frases enormes e sem uma palavra sobre esporte? Um dos aspectos impressionantes do livro é a fúria com que certas manifestações foram reprimidas pela polícia. Repressão que, obviamente, contou não apenas com a anuência dos ocupantes do poder, mas foi ordenada por eles. Eis um trecho, às páginas 160 e 161:

El 19 de deciembre a las seis de la tarde, [o professor de filosofia e militante Pocho Lepratti] se asomó al techo de la escuela, para gritarle a la policía que no disparase sus armas porque estaban los pibes en el comedor y podían herirlos. Los agentes venían reprimiendo violentamente a pesar de que no había ningún saqueo a menos de doscientos metros de distancia. Tres policias bajaran de dos autos. Uno apuntó a Pocho con su Itaka y lo mató de um postazo en la garganta.

Con Lepratti, el número de muertos en la provincia de Santa Fe durante los días 19 y 20, llegó a nueve. De los cuales, siete cayeron en Rosario y dos en la capital de la provincia.

El dato dista de ser casual: según un estudio de la Universidad Nacional del Litoral, durante los años 1998, 1999 y 2000, la provincia de Santa Fe registró la mayor tasa nacional de victimas de la violencia policial. Durante la primera gestión de Reutemann como gobernador, el teniente coronel retirado Rodolfo Riegé fue subsecretario de Seguridad. Durante la dictadura militar, Riegé fue asesor del genocida Agustín Feced, jefe de la Unidad Regional II (Rosario y Gran Rosario) y, finalmente, jefe de Policía de Rosario. En la segunda gobernación de Reutemann, la estratégica subsecretaría de Seguridad pasó a manos de Enrique Álvarez, que ingresó en la SIDE pocos dias antes del golpe militar de 1976 y no sólo se quedó, sino que hizo carrera, en dictadura y en democracia, tanto en la estructura nacional de la central de inteligencia como en la delegación santafesina. Lo que le permitiría conocer vida y milagros de sus comprovincianos más destacados y compartir las tareas de enlace de la SIDE local con los más oscuros, como Walter Salvador Pagano, un asesino conocido en los campos de concentración de Funes, La Calamita y la escuela industrial Magnasco como Sergio II o Sergio Paz. Hay amistades y funciones que perduran: según una denuncia presentada en abril de 2002 por un grupo de diputados nacionales del ARI e Izquierda Unida, ‘este hombre (Walter Salvador Pagano) ha sido visto en movilizaciones y actos públicos en la ciudad de Rosario, donde agrede y amenaza a participantes de los mismos’.

Álvarez no es solamente un represor, sino um cuadro importante de los servicios vinculado al círculo áulico de Reutemann. Mientras trabajaba como espía con los militares estudiaba ciencias políticas en la Universidad John Kennedy, donde se graduó. En 1994 fue asesor del gobernador y convencional constituyente Carlos Reutemann. Es curioso que estas cruentas estadísticas y estas malas compañías no hayan siquiera mellado los atributos de austero republicano y hombre tolerante y democrático con que las encuestas y algunos diplomáticos norteamericanos suelen adornar al ex piloto de Fórmula 1.

Na Argentina – ao contrário do Brasil -, os últimos presidentes (Néstor Kirchner e Cristina F. Kirchner) tiveram coragem e hombridade para usar sua maioria no Congresso para derrubar a lei de anistia e tomar iniciativas para investigar e julgar os crimes cometidos durante a última ditadura. Em decorrência disso, segundo esta notícia do diário Página 12, em 2009 um dos nomes acima (Walter Pagano) respondia a processo e outro (Rodolfo Riegé) estava sendo investigado.

Termino com uma pergunta: até que ponto o fato de ter sido piloto vitorioso de F1 ajudou a construção da imagem de Reutemann fora do mundo esportivo? Difícil responder de forma objetiva, mas é uma questão interessante para pensar. Outra questão é o quanto o fato de ser um ídolo no país contribuiu para sua carreira política, conquistando eleições para distintos cargos. Como se pode perceber, há um vasto campo a explorar, discutir e pesquisar nas relações entre esporte e política.

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