História dos muques masculinos

Cleber Dias
cag.dias@bol.com.br

Em 1977, George Butler e Robert Fiore lançaram de maneira independente o documentário Pumping Iron, que explorava a rotina de fisiculturistas profissionais, exibindo um universo que até ali era pouco conhecido de um público mais amplo. O filme acompanha um atleta que perseguia o até então inédito hexacampeonato do mais prestigiado torneio de fisiculturismo do mundo: o Mr. Olympia. Seu nome é Arnold Schwarzenegger, que o próprio filme mostraria encerrando sua carreira no esporte, para logo em seguida – nós sabemos – dedicar-se a uma bem sucedida carreira no cinema, que se iniciou com o filme Conan, o Bárbaro, de 1982; seguido dois anos depois pela sua sequência, Conan, o Destruidor; além do Exterminador do futuro.

No filme, Schwarzenegger registra depoimentos bastante interessantes, senão instigantes sobre os sentidos da prática do fisiculturismo. “A melhor sensação que existe numa academia é o esforço do músculo. Digamos que você exercita os bíceps. Os músculos se enchem de sangue. E você sente essa sensação. Os músculos ficam enormes, como se a pele fosse arrebentar de imediato. Ficam muito grandes, como se alguém os estivessem inflando com ar. Inflam-se e você sente-se diferente. É fantástico. Para mim é tão satisfatório como um orgasmo, como ter relações com uma mulher e ejacular. É como tocar os céus com as próprias mãos. Tenho essa sensação de orgasmo na academia e na minha casa também. Tenho essa sensação nos bastidores quando me exercito e quando poso diante de 5.000 pessoas. Tenho orgasmos todo o dia”.

De maneira mais remota, a história das atividades físicas remonta ao século XVI, quando tratadistas registravam que exercícios corporais seriam positivos e desejáveis. Este seria um dos impulsos para tornar possível a prática cotidiana de atividades físicas. Naquela época, no entanto, tratava-se ainda de uma idéia mal formulada e pouco consensual. Com o tempo, no entanto, ela iria se irradiar e ganhar vulto. Entre os fins do século XVIII e princípios do século XIX, já se anotariam publicações como o Tratado de Educação Física – Moral dos Meninos, de Joaquim Jerônimo Serpa, datada de 1828. Trata-se de um tipo de acontecimento importante, pois sinaliza o nascimento de uma nova concepção de uso do corpo, que já admitia a positividade de exercícios físicos.

Tanto os métodos, quanto as concepções envolvidas na atual prática da musculação tem um peculiar desenvolvimento histórico.

Daí em diante, vários eventos se articulam para dar início ao que poderíamos chamar de “primórdios do treinamento físico com pesos”. Exibições dos chamados strongmen (homens fortes) eram situações populares em partes da Europa de princípios do século XIX. A criação de métodos de ginástica por essa época é outro elemento que concorre nesse sentido.

Anos depois, alguns dos preceitos desses métodos seriam utilizados na sistematização de treinamentos com pesos. A partir do quartel final do século XIX, figuras como Eugene Samdow, entre outros, começariam a preconizar treinamentos físicos através do levantamento de grandes pesos. Samdow, como outros da época, também estava empenhado em sistematizar o número de repetições ideais para cada exercício. Dessa maneira, Samdow se notabilizaria por apresentações de força e de exibições dos seus músculos. Em 1896, ele inaugurou um ginásio de exercícios em Londres, onde até o rei Jorge V foi aluno. Criou equipamentos de treino, escreveu um livro e lançou uma revista sobre o assunto, além de ter organizado, em 1901, a primeira competição (não mais apresentação) de exibição de músculos. Tudo isso faz de Eugene Samdow um nome geralmente reconhecido como fundador do fisiculturismo.

O primeiro torneio organizado por Eugene Samdow oferecia prêmio em dinheiro e uma estátua para o vencedor.

No Brasil, de acordo com o Dicionário do nosso blogueiro Victor Melo, desde 1850 registravam-se aulas de ginástica oferecidas em salas como as de Bernardo Bidegorry, na Travessa do Paço, no Rio de Janeiro, cujo objetivo era o tratamento de fraquezas e deformidades. Na primeira década do século XX, lojas como a Casa Edison, também no Rio, comercializavam “aparelhos de força usados na Europa e nos Estados Unidos, inclusive Sandows” (MELO, Victor. Dicionário do esporte no Brasil: do século XIX ao início do século XX. Campinas, SP: Autores Associados, 2007, p. 78).

Por volta das décadas de 1930 e 1940, nota-se a ampliação e consolidação de toda uma rede de instituições ligadas a esse tipo de cultura do corpo. Esse processo ia desde a multiplicação de revistas ou empresas de equipamentos e suplementação alimentar, até o aumento do número de competições de exibição muscular. Os irmãos canadenses Joe e Ben Weider foram os que provavelmente melhor exploraram comercialmente tudo isso. Fundaram uma Federação Internacional de Fisiculturismo (International Federation of Bodybuilders), seguida pela realização de um torneio que receberia o nome de Mr. Universo. É a época em que recursos para exercícios ao ar livre foram instalados na Califórnia, até uma hoje uma Meca para os aficionados em musculação, especialmente depois que um homem chamado Joe Gold, em 1965, inaugurou uma academia que logo se tornaria um templo para muitos fisiculturistas: a Gold Gym. Nesse mesmo ano de 1965, foi criado o torneio do Mr. Olympia, uma espécie de Copa do Mundo do fisiculturismo, marcando o início da chamada “era de ouro” do fisiculturismo.

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