Tabelinha brasileira: futebol e política

Por João Malaia

Uma das discussões mais em voga atualmente na imprensa esportiva brasileira é a que versa sobre a validação ou não de torneios de futebol de âmbito nacional serem homologados como campeonato brasileiro de futebol.  Aqui neste blog a questão já foi exposta mais de uma vez. Para o torcedor, pouco importa se a Confederação Brasileira de Futebol homologou ou não um título nacional.

Em 1987, a Copa União foi um dos torneios mais espetaculares que já aconteceram no futebol brasileiro. A média de 20.877 pagantes por jogo foi uma das maiores da história dos campeonatos nacionais. Desde então, nenhum campeonato brasileiro teve uma média de público tão alta. Os dezesseis maiores clubes do país se enfrentaram em uma emocionante contenda que teve o Flamengo como campeão. No entanto, o torneio aconteceu à revelia da CBF, que organizou outro campeonato com equipes menores e teve o Sport-PE e  Guarani chegando à final e empatando na disputa de pênaltis por 11 a 11. A CBF obrigou os finalistas da Copa União, Flamengo e Inter-RS, a participarem de um quadrangular com Sport e Guarani para definir o campeão brasileiro e os dois representantes na Libertadores.  O Rubro-Negro e o Inter-RS se recusaram a participar e a equipe pernambucana venceu o Guarani, sendo declarada campeã brasileira.

Qual torcedor, afora os pernambucanos apaixonados pelo Sport, não sabe que o Flamengo foi o “verdadeiro campeão brasileiro” de 1987? Mesmo assim, essa polêmica se arrastou por esses anos todos e agora, por uma jogada política de Ricardo Teixeira, o Flamengo foi declarado campeão nacional daquele ano. Algum flamenguista precisou dessa “canetada” do presidente da CBF para saber que seu time foi o campeão? Algum flamenguista saiu às ruas para comemorar a tal “canetada”, quase 24 anos após uma das mais espetaculares conquistas de seu time? Provavelmente, não.

Camisa alusiva aos seis títulos do Flamengo, vendida desde o final de 2009, muito antes da homologação do título de 1987 pela CBF.

Dentro desse contexto, a homologação dos títulos nacionais anteriores à criação oficial do “campeonato brasileiro de futebol”, em 1971, também gerou polêmicas. Torneios de âmbito nacional, porém com outros nomes (Taça Roberto Gomes de Pedrosa e Taça Brasil) também foram homologados pelo “doutor” Teixeira. Os principais beneficiados foram Palmeiras e Santos, que passaram a ser os maiores campeões brasileiros, com oito títulos cada um. Por acaso algum santista, ou palmeirense (afora os presidentes das referidas agremiações) saiu às ruas para comemorar mais uma “canetada” do manda-chuva do futebol brasileiro? Não acredito.

Presidentes de Santos, Luis Álvaro Teixeira, e Palmeiras, Salvador Hugo Palaia, com as “novas” taças na mão, no início de 2011.

Não vivi no tempo dessas conquistas, mas pelo pouco que pesquisei desse período, pude perceber que os campeões desses torneios eram tratados como “campeões do Brasil”.

Em 1966, após vencer o Santos de Pelé pela final da Taça Brasil, em pleno Pacaembu, o Cruzeiro, campeão mineiro “ganhou o título de campeão brasileiro de clubes”. (Folha de São Paulo, 8 de dezembro de 1966, p.1.).

Foto do time do Cruzeiro na capa do jornal Folha de São Paulo, de 8 de dezembro de 1966.

No ano seguinte, após dois jogos contra o Náutico, com uma vitória para cada lado, o mesmo periódico decretou: “O Palmeiras sagrou-se campeão do Brasil ao derrotar hoje à noite o Náutico de Recife na 3ª partida da fase final da IX Taça Brasil”. (Folha de São Paulo, 30 de dezembro de 1967, p.14). Outro jornal paulista, A Gazeta Esportiva, estampou em suas páginas:

Toda essa discussão serve, na verdade, para outra reflexão e talvez novidade para alguns. O primeiro campeonato nacional de futebol organizado pela antiga Confederação Brasileira de Desportos, atual CBF, não foi a Taça Brasil, nem o “Robertão” e nem o Campeonato Brasileiro, inaugurado em 1971. Muitos anos antes, a CBD organizava campeonatos nacionais de futebol, porém não entre clubes, mas entre seleções estaduais. Assim como todos os outros torneios posteriores, esses torneios serviam para interesses políticos e para tentar fortalecer a imagem de um Brasil unido em meio a fortes rivalidades regionais, principalmente nos anos iniciais durante a chamada Primeira República. Portanto, os primeiros a serem declarados campeões brasileiros de futebol não foram os grandes clubes do Brasil e sim as seleções estaduais.

Tudo começou em 1922, ano em que o Brasil comemorava o Centenário da Independência em meio a um turbulento contexto político. Como parte dos festejos do Centenário, o país sediou uma competição poliesportiva sul-americana e dentre os muitos esportes, o torneio de futebol foi o que mais chamou à atenção. Lembremos de apenas dois episódios de 1922: o assassinato dos revoltosos do Forte de Copacabana em plena Avenida Atlântica e as tumultuadas eleições disputadas entre o paulista Artur Bernardes e o líder da oposição, Nilo Peçanha, político nascido em Niterói e com forte proeminência no Distrito Federal, encabeçando uma corrente de estados descontentes com os mandos e desmandos de São Paulo e Minas Gerais, chamada “Reação Republicana”.

A seleção brasileira, inclusive a campeã sul-americana de 1919, em torneio também disputado no Brasil, costumava contar apenas com elementos cariocas e paulistas. No entanto, o racha das oligarquias fazia com que as autoridades, tanto do governo, quanto dos esportes, pensassem em uma maneira de unir o país através do futebol, particularmente através da formação de uma seleção com elementos fora do Eixo-Rio São Paulo. Pelo menos esse foi o discurso. Devido às dimensões continentais do país e ao seu precário sistema de transportes, seria impossível imaginar um torneio que congregasse as distantes regiões. No entanto, um projeto nacional de futebol urgia e a solução encontrada foi fazer um torneio de seleções estaduais, dividindo as seleções por regiões e com o campeão de cada região fazendo as finais em São Paulo e no Rio de Janeiro.

As federações estaduais foram escolhidas a dedo pela CBD e os convidados a participar do torneio representavam não só os estados de maior desenvolvimento esportivo do país, como aqueles com maiores problemas ao governo Epitácio Pessoa e ao futuro presidente Artur Bernardes. O país foi dividido em três zonas e as seleções jogariam entre si em cada uma delas.

Na Zona Norte, Bahia e Pernambuco, dois dos estados líderes na Reação Republicana, juntavam-se ao Pará, tradicional opositor do governo central desde os tempos do Império.

Na Zona Centro (?), outro líder da oposição, o Rio Grande do Sul, dividia o grupo com o Paraná, estado envolvido na polêmica divisão territorial com sua vizinha Santa Catarina e na violenta Guerra do Contestado, anos antes. Os campeões desses dois grupos viriam ao Rio de Janeiro e a São Paulo para disputar as fases finais com os dois primeiros colocados do grupo denominado Zona Sul, formado por São Paulo e Minas Gerais, os líderes do governo, e Rio de Janeiro e Distrito Federal, outros dois pólos da Reação.[1]

Após a desistência do Pará e de Pernambuco, a forte seleção baiana classificou-se, juntando-se ao Rio Grande do Sul, que havia batido a seleção paranaense, nas finais contra São Paulo. Os paulistas haviam vencido o confronto contra os mineiros por 13 a 0, e os cariocas venceram os fluminenses por 2 a 0. O jogo dos cariocas contra os baianos revestiu-se de grande expectativa, principalmente por parte dos representantes da Zona Norte. Funcionários do jornal Diário da Bahia afixavam, durante a partida, as notícias que recebiam por telefone do Rio de Janeiro em frente à sede do jornal, descrevendo o desenrolar do jogo. Ao final, com o empate por 2 a 2, “a multidão em delírio percorreu as principais ruas, ovacionando os jogadores bahianos, tendo seguido até o palácio, para cumprimentar o governador Dr. J. J. Seabra”,[2] político preterido por Artur Bernardes para compor a chapa da situação nas eleições presidenciais. Por ter ficado de fora, Seabra encabeçava a oposição e foi o candidato a vice do derrotado Nilo Peçanha. Apesar do jogo ser não envolveros paulistas, era uma questão de prestígio.

Página da revista paulista A Cigarra, 15 de agosto de 1922, p. 6.

Os baianos perderam para os paulistas e ganharam dos gaúchos por 1 a 0. Já os cariocas venceram os gaúchos por  2 a 0 e foram para as finais contra os paulistas. Dois jogos, duas vitórias paulistas, uma por 4 a 1 em São Paulo, no estádio do Palestra Itália, e outra por 2 a 1, no estádio do Fluminense. Apesar da CBD afirmar que aquele não era um campeonato nacional e que este só ocorreria no ano seguite, São Paulo foi celebrado como o primeiro campeão nacional de futebol. Apesar do torneio, da propagação da formação de uma seleção verdadeiramente nacional e dos resultados obtidos pela seleção baiana, mais uma vez só paulistas e cariocas formaram a seleção.

Folha da Noite, 14 de agosto de 1922, p. 4.

O futebol foi usado pela CBD, órgão plenamente envolvido com o governo na execução dos Jogos Sul-Americanos de 1922, e pelo governo para subterfúgios políticos, para um jogo diplomático entre os estados. Para se ter uma idéia o governo montou uma “Comissão Sportiva do Centenário”, presidida por um coronel do Exército, Estellita Lins, para organizar os jogos junto à CBD. Os jogos faziam parte do programa oficial dos festejos do Centenário, juntamente com a Exposição Internacional, inaugurada a sete de setembro de 1922. Os jogos foram disputados dentro do Fluminense, que ganhou uma bela reforma ampliando a capacidade de seu campo para 22 mil espectadores, em um estádio que já havia sido levantado com ajuda do governo para os Jogos de 1919. Os jogadores campeões da seleção brasileira de futebol receberam um gordo prêmio em dinheiro do governo, em projeto aprovado em Congresso Nacional. Detalhe: a CBD proibia que jogadores recebessem qualquer quantia em dinheiro para praticar esportes.

Caricaturista Belmonte ironiza as exigências dos jogadores à Rapública. Revista A Cigarra, 15 de outubro de 1922

No ano seguinte aconteceu o primeiro campeonato brasileiro de futebol, organizado pela CBD, não mais com o caráter de selecionar jogadores para a seleção.

Talvez sejam essas algumas das raízes de uma relação tão perniciosa entre futebol e política. Seria o fim da picada se agora os paulistas se unissem por detrás do orgulhoso símbolo bandeirante e pressionassem o “doutor” Ricardo Teixeira a homologar os títulos da seleção do estado exigindo que a Federação Paulista de Futebol recebesse as miniaturas das taças de campeão brasileiro, como as ostentadas na foto acima por Salvador Hugo Palaia e Luiz Álvaro de Oliveira. Mas não duvide que se isso rendesse dividendos políticos ao manda-chuva do futebol brasileiro, em pouco tempo, lá estariam as 12 taçinhas no museu da FPF relativas aos anos de 1922, 1923, 1926, 1929, 1933, 1934, 1936, 1941, 1942, 1952, 1954 e 1956, último título antes da Taça Brasil começar em 1959.


[1] Para conhecer um pouco mais da Reação Republicana, recomendo o excelente artigo de Marieta de Moraes Ferreira, com o título “A Reação Republicana e a Crise dos Anos 20”, publicada na revista Estudos Históricos, publicação do CPDOC/FGV-RJ, vol. 6, n. 11, 1993, disponível em: http://virtualbib.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/1953/1092

[2] “Na Bahia, uma grande multidão felicitou o Sr. Presidente do Estado por motivo do empate bahianos x cariocas”. O Imparcial, 31 de julho de 1922, p. 1.

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