Esporte dá samba

Por Valéria Guimarães

Estimados leitores, a minha estréia neste blog não poderia ter sido em ocasião melhor: é carnaval, é verão, a cidade está cheia de turistas (falarei deles em outros posts), chegamos ao final da Taça Guanabara bem do jeito que boa parte dos cariocas queria, e estamos na Semana em que são comemoradas as conquistas da mulher em nossa sociedade, dentro e fora de casa. Nesse clima, começo meu primeiro post agradecendo o presentão de escrever na semana mais animada do ano. Convoco toda a mulherada e os marmanjos – que se vestem de mulher ou não no carnaval – para cair na folia literária e, como não poderia deixar de ser, falar da mistura de duas das paixões nacionais: esporte e carnaval.

Eles tem muito em comum: envolvem diversão, paixão, competitividade, são extremamente populares e irresistíveis. Nasceram um para o outro e, em muitos casos, um do outro. Bem antes das escolas de samba, os clubes recreativos e desportivos já se relacionavam com o carnaval, promovendo requintados bailes de salão. “Vert, Blanc & Rouge”, “Baile do Almirante”, “Baile do Diabo” e “Baile do Vermelho e Preto” são instituições tradicionais do carnaval carioca, conhecidas internacionalmente. Os tempos mudaram, os bailes foram se popularizando, ganharam versões infantis e continuam sendo promovidos pelas agremiações esportivas.

A cara do futebol e do carnaval: craque com a bola e com o samba no pé, o bamba Ronaldinho Gaúcho, que desfila por três escolas de samba e põe o seu próprio bloco na rua (“Samba, amor e Paixão”), é coroado o rei do Baile do Vermelho e Preto 2011.

O Independente FC, time amador da Zona Oeste, deu origem à Mocidade Independente de Padre Miguel, em 1955, e a Mangueira adotou o verde e o rosa (versão do grená ao alcance do tricolor Agenor de Oliveira, o Cartola), em homenagem ao clube das Laranjeiras. O GRES Nação Rubro-Negra, mal teve tempo de fazer o urubu voar também na avenida e encerrou suas atividades após o fiasco da estréia no grupo D, em 1997, quando foi rebaixada pelo seu 11º lugar no certame. As escolas surgidas de clubes de futebol são uma tendência bastante atual no carnaval paulistano, que conta com a Gaviões da Fiel (Corinthians), a Mancha Verde (Palmeiras), a Dragões da Real (São Paulo), a Camisa 12 (Corinthians), a Torcida Jovem (Santos) e a TUP (Palmeiras), todas bastante jovens e batizadas com os mesmos nomes das respectivas torcidas organizadas. Falou-se até, em 2006, na criação de um campeonato à parte, com a formação de um “Grupo Especial das Escolas de Samba Desportivas”, o que não foi adiante. A agressividade de alguns membros de torcidas organizadas paulistanas foi reproduzida também na avenida e chegou-se a cogitar o banimento definitivo das agora agremiações carnavalescas desportivas. Talvez a incidência de tantas escolas de samba desportivas explique a predileção dos “manos” pelos enredos ligados ao esporte, tema que está em evidência também entre as escolas não desportivas, como a Vai-Vai, que em 2010 festejou os seus 80 anos com o enredo “80 anos das Copas do Mundo”.

Dos estádios para o Anhembi, a Gaviões da Fiel é um dos mais expressivos traços de união entre a bola e o samba.

Nos enredos das escolas de samba que desfilam no carnaval carioca, habilmente manejado pelo marketing como “o maior espetáculo da Terra”, e que já era chamado de “Oitava Maravilha do Mundo” em pleno ano de 1934, conforme atestam os jornais da época, curiosamente, o esporte não é tão popular. Vasculhando os alfarrábios do carnaval, encontramos poucas referências ao esporte como tema principal das escolas de samba cariocas. Na maior parte dos casos, o futebol é citado como um dos elementos importantes da cultura carioca, com as tradicionais alas onde os componentes se vestem com a camisa estilizada dos clubes ou da seleção brasileira, de bandeira em punho. Como não poderia deixar de ser, é o futebol a modalidade esportiva mais representada no carnaval, mas não a mais bem sucedida. O melhor resultado do esporte nas passarelas – e aqui não interessam a hierarquia e a estrutura dos diferentes grupos – foi obtido com o primeiro lugar de “Bernard do vôlei, uma jornada de sucesso”, da Unidos de Lucas, em 2003, então no Grupo C. No rastro da ECO 92, “Pepê, esporte, ecologia e carnaval”, da Mocidade Unida de Jacarepaguá, conquistou o terceiro lugar e o direito de acesso ao Grupo 1 no ano seguinte; e a Balanço de Lucas, em 1993, saiu do Grupo de Acesso (o último) com o pé quente “Bebeto, a emoção do gol”, que lhe rendeu o quarto lugar e o direito de desfilar no Grupo 3 naquele que seria o ano da Copa e do tetracampeonato do Brasil.

Para o leitor não se perder: a organização do carnaval guarda semelhanças com a organização do futebol e regulamentos e nomes dos grupos são revistos com freqüência, ora sendo representados por letras, ora por números e ora por letras e números, assim como o Grupo de Acesso deixou de ser o último e agora é aquele imediatamente após o Grupo Especial, que, por sua vez, já foi Grupo 1 e Grupo 1-A. Ah, sim, antes que alguém me repreenda: o inesquecível “O Mundo é uma bola”, da Beija-Flor de Nilópolis, que contou a história da Copa do Mundo no ano do mundial do México (1986), consagrou o futebol como enredo carnavalesco e fez os deuses chorarem de emoção resultando numa enxurrada na hora do desfile. Ninguém entendeu o segundo lugar da escola… A Unidos de Lucas, no mesmo ano, também escolheu falar do maior evento esportivo do mundo e ficou em 7º lugar no Grupo 1-B, com o enredo “No ano da Copa, bota no meio”.

A história dos enredos das escolas de samba está diretamente ligada à história oficial, encarregada de perpetuar e mitificar a memória de heróis e instituições que configuraram a nacionalidade brasileira, habilmente manejada na escrita dos livros didáticos da rede escolar e no conteúdo exibido nos cinemas (àquela altura muito populares) através dos cinejornais, principalmente durante os regimes ditatoriais de Vargas e dos militares. Essas foram por muito tempo as principais fontes de informação dos autores dos enredos e dos compositores. A fórmula variava pouco: heróis nacionais, militares ou civis, “gênios” das artes brasileiras, destacados cientistas, governantes da nação e a própria “brasilidade” eram os temas recorrentes. A partir da década de 50, o negro cada vez mais vai se tornando o tema preferido dos enredos, ainda ao lado dos vultos e efemérides oficiais afinados à propaganda oficial.

Os primeiros enredos que traziam o esporte como tema principal foram levados para a avenida na década de 1970. Seria lógico pensarmos que o uso político do futebol pela ditadura militar, a conquista do tricampeonato mundial em 1970 e o alinhamento de muitas escolas de samba ao regime produziriam enredos referentes ao desenvolvimento do Brasil, embalado pela seleção canarinho. Em vez disso, a estréia dos esportes como enredos na avenida acontece em 1974, quando a Paraíso do Tuiuti contou a história das “Olimpíadas, festa de um povo”, no Grupo 2, ficando em 12º lugar no certame. A Arrastão de Cascadura, por sua vez, foi pioneira na homenagem a um clube de futebol, no mesmo ano. Com o enredo “Flamengo, glória de um povo”, obteve a 8ª colocação no Grupo 3.

O Flamengo ainda seria enredo em 1990, pela Difícil é o Nome, que levou para a avenida “Tua glória é lutar, Flamengo, Flamengo”, ficando em terceiro lugar no Grupo 3. Em 1995, ano do centenário do clube, “o mais querido do Brasil” desfilou no Sambódromo junto com a Estácio de Sá, que obteve a decepcionante sétima colocação com “Uma vez Flamengo”, alvo de chacota das torcidas adversárias que, mal sabiam, mais tarde também veriam chegar a sua vez com o rebaixamento da Unidos da Tijuca, em 1998, que obteve o penúltimo lugar no Grupo Especial (12º) com o enredo “De Gama a Vasco, a epopéia da Tijuca”, e o interminável “Nas asas da realização, entre glórias e tradições, a Rocinha faz a festa dos 100 anos de um clube campeão… Sou tricolor de coração” não passou do 10º lugar do grupo A, em 2003. O América, por sua vez, foi homenageado pela Unidos da Ponte, em 2004, no então grupo B, que ficou em quinto lugar com o “Hei de torcer, torcer, torcer… América 100 anos de paixão”. Os alvinegros, por pouco, não festejaram o acesso da Unidos de Vila Isabel ao Grupo Especial em 2002: “O Glorioso Nilton Santos… sua bola, sua vida, nossa Vila” perdeu o campeonato do Grupo A por um décimo. Bateu na trave…

Outras personalidades do esporte homenageadas na passarela do samba foram: Pelé, inúmeras vezes citado no carnaval carioca e tema principal de enredos das escolas paulistanas; Ronaldo, Fenômeno, além de estrela do camarote da Brahma há vários carnavais, queimou calorias em 2010 no desfile da Gaviões da Fiel em homenagem ao centenário do clube (quinto lugar na classificação final), ao lado de vários colegas de elenco e ex-jogadores do clube. Em 2003, deu bolo na Tradição, quando foi ele próprio o enredo, com “Brasil é penta: R é 9, o fenômeno iluminado”, por não ter sido liberado pelo Real Madrid (a escola por pouco escapou do rebaixamento, ficando em 13º lugar). Ayrton Senna, numa homenagem póstuma da Tradição, foi cantado em 1995: quem não se lembra do “Acelera aí, que eu quero ver, na Fórmula 1, o lema é vencer”? O enredo falava da velocidade sobre rodas, que também foi levado para a avenida pela Gaviões da Fiel em 2009, lembrando mais uma vez de Senna no carnaval; e Rildo Menezes, lateral do Botafogo, do Santos e da seleção brasileira nos tempos de Pelé, foi homenageado no Grupo E pela Unidos do Uraiti, em 2005.

O Fenômeno em dois tempos no carnaval: no início da carreira, desfilando misturado aos passistas numa ala da Beija-Flor...

... e na Gaviões da Fiel, em 2010, quando foi considerado “a cereja do bolo do desfile”.

O fanático tricolor Nelson Rodrigues, com o seu Sobrenatural de Almeida, o Maracanã, o radialismo esportivo, o engajamento nas campanhas pelo direito do Rio de Janeiro sediar os megaeventos esportivos (Rio 2004, Pan 2007 e Rio 2016) e até o surfe e o vôlei de alto nível como referências de Saquarema também foram carnavalizados.

As músicas das escolas de samba e as dos estádios de futebol transitam pelos dois universos. Exemplos de arrepiar são os “ecumênicos” “Peguei um Ita no Norte” (“Explode coração/ na maior felicidade/ é lindo o meu Mengão/ Vascão/ Fluzão/ Fogão/ contagiando e sacudindo essa cidade”), que o Salgueiro nos presenteou em 1993, e “O Campeão”, na voz consagrada de Neguinho da Beija-Flor, no “esquenta” da escola e no coro das torcidas (“Domingo/eu vou ao Maracanã…”), além é claro, das eternas marchinhas carnavalescas, animadas pelas charangas desde a década de 1940, onde a torcida adversária costuma ser o alvo em muitas paródias: “Se a canoa não virar, olê olê, olá…”, “Mamãe eu quero…”, “Mulata bossa nova…” e por aí vai.

Como é de bom tom, em blogs se escreve pouco, mas o meu bom leitor folião, amante de esportes e de carnaval, que teve paciência e chegou ao final do texto em pleno período momesco, certamente me perdoará pelos excessos de empolgação na estréia. Como carnaval é transgressão, me permitam o exagero. E olha que ficou faltando falar da transformação do carnaval e do futebol em negócios, deixando de serem vistos como objetos de alienação das massas, da preparação física dos corpos para o carnaval, fazendo dos destaques verdadeiros atletas, dos projetos esportivos das escolas de samba, das comemorações dos gols com “sambadinhas” que contagiaram até Rubens Barrichello nos pódios da Fórmula 1, das celebridades do esporte que freqüentam os camarotes, os ensaios técnicos, as quadras ou desfilam nas escolas e nos blocos carnavalescos (prato cheio para Júnior, Zico, Roberto, Romário, Edmundo, Pet, Maradona, Robinho, Adriano, Ronaldinho Gaúcho, Diego e Daniele Hipólito, Daiane dos Santos, Guga e tantos outros), e, finalmente não foi possível falar sobre quem do esporte diz no pé na avenida e quem é perna de pau no samba, nem das fantasias de carnaval e das máscaras inspiradas nos atletas…  com quantos Ronaldinhos Gaúchos você vai se esbarrar por aí?

 Boa folia!

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