No tempo que Chiquinho jogava no Andarahy…

“No tempo que Dondon jogava no Andaraí,
nossa vida era mais simples de viver…”
 
Por Nei Santos Junior

      A canção de Nei Lopes, interpretada por Zeca Pagodinho e posteriormente por Dudu Nobre, resgatava em 2003 uma agremiação de suma importância para a popularização do futebol: Andarahy Athletico Club.

      O personagem da canção, DonDon, ganhava destaque no Brasil inteiro através da novela Celebridade, exibida pela Rede Globo em 2003/2004, cujo núcleo de personagens ambientava no bairro do Andaraí, zona norte da cidade do Rio de Janeiro. Depois da trama, Dondon tornou-se alvo da curiosidade, sendo frequentemente reverenciado como o “grande craque” do clube suburbano.

      Zagueiro carismático, Dondon atuou na equipe alviverde na década de 1930, não era nenhum grande full-back, mas suas atuações eram convincentes. No entanto, o que poucos sabem é que o verdadeiro craque do Andarahy A. C., apareceu bem antes, seu nome? Chiquinho!

      Chiquinho jogou no Andarahy A. C. nas primeiras décadas do século XX, habilidoso e goleador, logo chamaria a atenção por suas jogadas geniais e pelos resultados obtidos nos jogos do Andarahy. Contudo, vale lembrar que “no tempo que Chiquinho jogava no Andarahy”, o futebol ainda aspirava a fidalguia projetada pelos sportsmen, ou seja, as grandes jogadas mostradas em campo não eram devidamente valorizadas, dando espaço à desconfiança representada pela pigmentação da pele.

      Para se ter ideia, mesmo com grandes atuações os sportsmen responsáveis pelas colunas esportivas da época não admitiam que jogadores oriundos dos bairros pobres representassem a cidade.  Essa desconfiança se configurava na convocação deste jogador para o selecionado carioca em maio de 1917.

Não somos dos que fazem questão de que o quadro representativo do Rio seja formado de elementos claros como a gema d’ovos estrelados, mas é claro como água que um jogador somente deve ser escolhido para figurar num scratch quando é capaz de acarretar com a responsabilidade do nome de jogadores.[1]
 

             Com traços negros claramente marcados, Chiquinho não parecia ser um bom nome para representar o selecionado nacional. Embora o cronista esconda seus próprios preconceitos raciais, atribuindo implicância com o jogador do Andarahy à suposta falta de educação esportiva deste, acaba por trazer à luz abertamente a posição daqueles que tinham nos traços étnicos um critério inequívoco de exclusão.[2] Nesse sentido, não se tratava apenas na definição de um time da cidade, e sim a imagem da equipe que seria o atestado vivo do avanço esportivo da nação. A simples presença de negros em um selecionado nacional era, assim, para a imprensa, motivo de chacota, o que rendia corriqueiras piadas sobre esses jogadores.

– Quá, seu Xiquinho, nunca vi genti p’ra  módi jugá tanto. O tá Du centrifó Préres mi fez ficá taliqua um homi tontu, acim uma simiança di inguilez atrapaiado p’ra módi falá a falação dus arabis.
– Assuncê tem mesmo a razão. Os atacantes e os frunbéquis são mais pió que os alemães no campo dus Riva.[3]

      A fictícia conversa entre os jogadores Bráulio e Chiquinho, ambos do Andarahy, refletia intensamente o pensamento da imprensa esportiva da época.[4] Jogadores oriundos das camadas baixas da cidade não estariam à altura de uma prática que necessitava de educação e requinte. As duas citações explicitam que na opinião desses cronistas, o futebol era um esporte que só pode ser praticado por pessoas da mesma educação e cultivo, caso contrário, a prática torna-se um suplício, um sacrifício, mas nunca uma diversão.[5]

      No entanto, as exibições desses jogadores oriundos dos subúrbios do Rio de Janeiro promoviam um alargamento simbólico nos sentidos do jogo, e cada vez mais Chiquinhos iriam aparecendo nos campos da Liga Metropolitana, dando um toque de diversidade que expressaria um mito brasileiro incessantemente discutido: a formação do futebol arte.

Por isso… No tempo que Chiquinho jogava no Andarahy…


[1] Correio da Manhã, 17 de maio de 1917.

[2] Ver PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Footballmania: Uma História social no Futebol do Rio de Janeiro: 1902-1938. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2000.

[3] O Imparcial, 26 de Agosto de 1919. p. 08.

[4] Ver MALAIA, J.M.Revolução Vascaína: a profissionalização do futebol e inserção sócio-econômica de negros e portugueses na cidade do Rio de Janeiro (1915-1934).2010.489f. Tese (Doutorado em História Econômica), Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.

[5] Sports, 06 de Agosto de 1915.

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