A Diplomacia do Críquete, ou apenas mais um jogo?

George Orwell, na ocasião de uma turnê do Dínamo Moscou pela Inglaterra logo após a Segunda Guerra Mundial, em dezembro de 1945, escreveu que o esporte profissional (e a visita do Dínamo) era causa certa de mal estar diplomático,  e que se tal visita tivesse algum efeito nas relações anglo-soviéticas, seria apenas de fazê-las piorarem. Ele prosseguia dizendo que no nível internacional, o esporte seria mais próximo à guerra do que à diplomacia. Isso não seria reflexo das ações dos atletas em si, mas do comportamento dos torcedores e, ainda mais, das próprias nações por trás deles, as quais, criticava Orwell, “realmente acreditam […] que correr, pular ou chutar uma bola são provas da virtude nacional”. Argumentava ele assim que o “esporte sério” teria como características “ódio, ciúme, ostentação, desprezo de todas as regras e prazer sádico em testemunhar a violência”, e concluia dizendo que este seria “guerra menos os tiros” (Veja o artigo de Orwell completo aqui)

Me lembrei desta passagem durante essa semana na ocasião do confronto entre Índia e Paquistão pelas semifinais do campeonato mundial de críquete,  no último dia 30. Os dois países possuem uma conflituosa relação histórica, com três guerras travadas após a repartição do subcontinente em 1947. Ambos são ex-colônias inglesas e no processo de independência, época em que o críquete, levado pelos ingleses, já se encontrava entre seus esportes mais populares, a região foi dividida com base na religião majoritária da população local. Separaram-se assim a Índia, de maioria hindu, e o Paquistão, de maioria muçulmana.  A disputa pela Caxemira, uma região montanhosa no norte, de maioria muçulmana mas sob controle majoritário da Índia, foi a causa das três guerras mencionadas acima. Ela é também alvo de reivindicações de grupos separatistas islâmicos, autores de diversos ataques terroristas. O último ataque, ocorrido em novembro de 2008, em Mumbai, paralisou as negociações de paz e estremeceu a diplomacia dos dois países, uma vez que o governo indiano liga os grupos separatistas ao governo paquistanês.

A Copa do Mundo de críquete, realizada neste ano em Bangladesh, Índia e Sri Lanka, é um dos principais torneios internacionais esportivos do mundo, e detém grande importância simbólica para os fãs do esporte, muito popular no Reino Unido e em grande parte de suas antigas colônias. A semifinal entre Índia e Paquistão, realizada na cidade de Mohali, no norte da Índia, foi o primeiro grande confronto entre as duas nações após o incidente de Mumbai. O primeiro-ministro indiano, Manmohan Sing, aproveitou a situação para convidar o premiê paquistanês, Yusuf Raza Gilani, para assistir ao jogo ao seu lado na tribuna de honra do estádio e no campo, os chefes de governo cumprimentaram um a um os jogadores das seleções rivais. O evento aponta para uma reaproximação diplomática dos países no que já está sendo referido como a “diplomacia do críquete”. O jogo chamou mais a atenção do que a final em si, jogada no sábado, dia 02.

No entanto, como George Orwell destacou, tais “jogos diplomáticos” não são uma via de mão única. Apesar da utilização do confronto como um meio de aproximação política, o evento também foi responsável pela produção de imagens e outros veículos de sentimentos antagônicos entre representantes das duas nações. A força simbólica do críquete na Índia no Paquistão, comparável à do futebol no Brasil, resultou na produção de manifestações de nacionalismo exacerbado. A mobilização gerada pelo jogo é evidente, como na reportagem da CNN, com um título que poderia ser traduzido como “Índia vs. Paquistão: O dia em que 1 bilhão de pessoas faltaram o trabalho”, ou no vídeo em que torcedores indianos aparecem celebrando a vitória nas ruas do subúrbio de Londres. [1]

Devemos evitar ver o jogo como um grande marco na pacificação do subcontinente, como alardeou a imprensa internacional, ou como uma nova guerra, desta vez simbólica, entre as duas nações. Como o grande evento de massas que é, mobilizou tanto elementos de união, possibilitando tanto a aproximação política, como a repulsão, com demonstrações nacionalistas e a exaltação de rivalidade. Do mesmo modo, não devemos cair no discurso que busca esvaziar o evento de um significado político, dizendo que para os jogadores é apenas mais um jogo, como outro qualquer. Em primeiro lugar, devemos nos lembrar que o esporte vai muito além do que acontece dentro de campo, da quadra, do ringue, ou de onde é que seja disputado. Em segundo lugar, depois de tudo isso, alguém ainda pode afirmar que é esse foi “apenas mais um jogo”?

Em tempo: A Índia venceu o Sri Lanka na final, em Mumbai, no dia 02 de abril, e se tornou o primeiro país asiático a ser bicampeão mundial de críquete (venceu a copa do mundo pela primeira vez em 1983). Para os que não estão familiarizados com o jogo de críquete (como eu), fecho com um vídeo dos momentos finais da final e a comemoração do título.

NOTAS:

[1] Southall, o bairro do vídeo, tem grande concentração de imigrantes e descendentes do sudeste asiático.

Anúncios

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: