Futurismo: um movimento esportivo

por Victor Andrade de Melo

1909 é considerado o ano de fundação do Futurismo: Filippo Marinetti, um dos nomes-chave do movimento, publicou, no jornal francês Le Figaro, o primeiro (de muitos) manifesto com uma série de provocações e propostas para a arte. Já nessa ocasião, afirmara: “Nós tencionamos exaltar a ação agressiva, uma insônia febril, o passo do atleta, o salto mortal, o soco e a bofetada”. A figura do esportista e imagens comuns ao esporte são utilizadas para estabelecer um contraponto à imobilidade que, segundo o autor, caracterizaria a arte naquele instante.

Essa ideia é mais à frente reforçada: “Nós afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma nova beleza: a beleza da velocidade. Um carro de corrida cujo capô é adornado de grossos tubos, qual serpentes de hálito explosivo (…) é mais belo que a Vitória de Samotrácia”. Uma prática esportiva, o automobilismo, é apresentada como esteticamente superior (ou pelo menos mais adequada a uma nova sensibilidade) a um monumento símbolo da tradição artística.

Automóvel + Velocidade + Luz/ Giácomo Balla/ 1913

 Não surpreende a referência ao automobilismo, que se tornara uma febre na Europa das primeiras décadas do século XX. Dividindo com o ciclismo a preferência esportiva popular em muitos países, este esporte era relacionado às ideias de aventura, superação, progresso e rapidez. Esteticamente, ia ao encontro do interesse de artistas que combatiam a ideia de valorização da tradição, celebrando com empenho alguns dos sentidos correntes na construção do imaginário da modernidade: a máquina, a velocidade, o dinamismo, a agressividade, a violência.

Por seu caráter de comparação e por demonstrar que certas dimensões já eram consideradas por alguns futuristas mesmo antes do manifesto, destacamos a gravura “Automóvel e a caça da raposa” (1904), de Umberto Boccioni.

Na obra, os cavalos, símbolos de poder e da nova excitabilidade urbana no século XIX, tão representados no âmbito do Impressionismo, têm que sair da estrada para dar passagem a velozes carros. Diferencia-se claramente as roupas dos cavaleiros que praticam a tradicional caça às raposas (com seus cães que fogem assustados com a aproximação do automóvel) daquelas usadas pelos personagens que conduzem os veículos. As expressões são contrastantes: o olhar irônico dos “modernos”, a preocupação estampada na face dos que seguem a tradição.

As opções estéticas reforçam esses sentidos. O uso das linhas de força diagonais ajuda a enfatizar a idéia de movimento dos carros, criando um contraste com o imobilismo dos cavalos. A utilização de uma técnica de reprodução como a gravura, que avançara muito nas últimas décadas do século XIX, aproxima a obra de um pôster, já na ocasião comumente utilizado para a difusão de produtos da modernidade. Perspectivas semelhantes são trabalhadas em outras 7 obras, não surpreendentemente hoje pertencentes ao Automóvel Clube da Itália.

A prática esportiva foi uma temática constante na obra de muitos futuristas: foram representados com constância o automobilismo, o ciclismo, o motociclismo, o atletismo, o futebol, entre outros.

Várias são as dimensões que favorecem o diálogo entre esporte e Futurismo. Uma delas é o fato de o espetáculo esportivo se organizar de forma diferenciada da restrita tradição acadêmica; era “o novo”, uma manifestação plenamente integrada à cultura de massas que recém se estruturava nos anos iniciais do século XX. Se os futuristas contestavam as bibliotecas, galerias e museus, encontravam em outros espaços, como estádios e quadras, seus locus de celebração de uma nova arte. Adenda-se a isso o aspecto visual da prática esportiva: dinâmico, veloz, tumultuado, ótimo para ser representado a partir das proposições do grupo.

Dinamismo de um Jogador de Futebol/Umberto Boccioni/1913

Aproxima-os também o fascínio do Futurismo pela organização espetacular dessa diversão moderna, sua possibilidade de envolver multidões em torno de uma prática social, algo que por razões diferenciadas também tinha chamado a atenção de outros artistas, como Bertold Brecht.

Outra importante dimensão a ser considerada é a ideia de que os artistas deveriam se assumir enquanto soldados e trabalhadores, o que os aproximavam dos esportistas, eles também encarados como combatentes e operários de uma nova celebração moderna: o esporte entendido como um simulacro da guerra, uma forma de violência controlada, algo eivado de agressividade, além de uma ode ao nacionalismo e patriotismo.

Ciclista/Gerardo Dottori/1914

O esportista era o novo herói da modernidade, enquanto não vinha o conflito bélico tão propalado, esperado e requisitado pelos futuristas no período que antecede à 1ª Grande Guerra. Era o misto de homem e máquina que poderia ajudar a construir a ideia da necessidade de progresso.

Por compartilharem sensibilidades, a construção de sentidos e significados culturais e a celebração de determinadas imagens em comum, o entendimento das relações entre esporte e Futurismo nos permite lançar mais um olhar sobre o processo de construção e consolidação do ideário e do imaginário da modernidade.

Voltaremos ao tema em um post futuro.

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