Sonhos de gol, sonhos de…

Gravado em 2004 e 2005, Goal Dreams (2006) narra a saga para a formação de uma seleção palestina para disputar uma partida preliminar das Eliminatórias da Copa de 2006.

Do ponto de vista narrativo, o filme não é nada demais. Mas, cá do meu canto, achei-o rico: conteúdo, imagens, bela (e triste; e melancólica) história que conta. O espectador se depara com uma lista impressionante – em quantidade e qualidade – de problemas enfrentados pelos palestinos.

A iniciativa de reunir uma seleção nacional é fruto do sonho e de muita força de vontade de dirigentes, empresários (não empresários de jogadores; trata-se de donos de empresas que atuam como mecenas e bancam os custos da empreitada), jogadores e um técnico austríaco que se revela personagem interessante durante a trama, à medida que os absurdos da ocupação israelense atrapalham seu trabalho e descortinam um universo novo e inacreditável para o europeu.

Goal Dreams acrescenta items à lista de  ilegalidades, crimes e violações de leis internacionais cometidos por consecutivos governos de Israel. Assistindo à película, percebe-se que parte do processo de negação da condição de ser humano imposto pelo colonizador aos dominados inclui, vejam só, não ter uma uma seleção nacional para torcer.

Enquanto sua equipe nacional e seus clubes disputam Eliminatórias da Copa e demais competições na Europa, contando com cumplicidade e apoio da UEFA (à qual passou a pertencer em 1994) e da FIFA, Israel viola sistematicamente leis internacionais, mantendo a ocupação ilegal, criminosa e imoral (a partir de leis e parâmetros estabelecidos por organizações internacionais, a começar pela ONU) sobre a Palestina. Como fosse pouco, dificulta, de todas as formas possíveis, a formação de uma seleção e a prática do futebol palestinos.

Dentre os numerosos problemas causados pela ocupação, alguns são retratados no filme:

a) os campos de refugiados – apátridas, na verdade – miseráveis no Líbano, quase 60 anos após a Nakba de 1948.

b) a diáspora pelo mundo (Líbano, Chile, EUA, Egito, Inglaterra etc.).

A diáspora palestina (com exceção de Faixa de Gaza, Cisjordânia, Líbano, Síria e Jordânia). Fonte: http://mondediplo.com/local/cache-vignettes/L580xH343/arton2071-6f79e.jpg

c) os conflitos de identidade de filhos, netos, bisnetos nascidos ou criados no exterior (caso típico do jogador que vive nos Estados Unidos).

d) a dependência do Egito para os habitantes da Faixa de Gaza.

Intervenção artística no Muro da Vergonha (Cisjordânia ocupada).

e) a humilhação da submissão a Israel, materializada em práticas como o Muro da Vergonha (condenado pela Corte Internacional de Justiça de Haia, Holanda); os postos de controle (os quais, de acordo com agências de ajuda,”limitam o acesso de palestinos a escolas e assistência médica – em alguns casos, desde a Intifada de 2000“); e os cercos à Faixa de Gaza (incluindo o realizado no verão brasileiro de 2008/2009).

f) a importância do futebol (com destaque para o Deportivo Palestino, time da primeira divisão chilena), e das peladas disputada pela molecada na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e em becos dos campos de refugiados pela região (Líbano, Síria, Jordânia etc.).

g) a necessidade de mecenas (e os problemas que esta dependência traz), em função da fragilidade financeira e institucional.

h) a violência: implícita ou explícita; física; psicológica; e simbólica inerente à vida sob ocupação (ou no exílio, para fugir da ocupação).

i) a posição ambígua da FIFA – aparentemente progressista ao reconhecer a Associação Palestina de Futebol, em 1988, ajudando a dar legitimidade a uma nação sem Estado. Mas, na prática, recusando-se a aceitar como “motivo de força maior” o pleito palestino de adiamento de uma partida decisiva devido à impossibilidade (causada pela ocupação israelense) de formar e treinar uma seleção. A desfaçatez do dirigente da Fifa entrevistado no filme é impressionante. Ali está um burocrata do big business como outro qualquer: não admite que uma medida estatal possa atrapalhar o lucro e o andamento dos negócios.

*  *  *

Na cópia que consegui (graças a uma conhecida sul-coreana que trabalha na indústria cinematográfica californiana), fazem falta legendas em inglês – mesmo para acompanhar algumas das falas no idioma.

Ficha técnica

Goal Dreams

USA (EUA), 2006, 86′

Produzido e dirigido por Maya Sanbar e Jeffrey Saunders

http://www.goaldreams.com

http://www.arabfilm.com

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