Mente sã em um corpo são – Por que não?

por Vivian Fonseca

A película húngara Sangue nas Águas (2006), debatida na última sessão do Cineclube Sport, foi a inspiração inicial que dá origem hoje a esse post. A produção da diretora Krisztina Goda, aborda a revolução ocorrida em Budapeste em 1956 contra a dominação soviética, tendo como um de seus panos de fundo o time nacional de pólo aquático e sua ida para as Olimpíadas de Melbourne do mesmo ano. Uma das questões levantadas pelo filme e amplamente debatida no encontro de abril do Cineclube foi como o esporte e seus resultados são ressignificados e utilizados em bandeiras políticas. No caso retratado, a vitória húngara na semifinal das Olimpíadas sobre o time soviético representava a possibilidade de superioridade, mesmo que no campo esportivo, de uma nação que era violentamente humilhada e obrigada a fazer parte da URSS. A personagem principal Karcsi, capitão do time húngaro, se engaja na Revolução e, com a ilusão de que ela teria terminado e os russos teriam regressado definitivamente para casa, volta para a equipe com a responsabilidade de representar, pela primeira vez, a Hungria livre – mostrando para o mundo, a partir de vitórias no esporte, a potencialidade de seu povo. Apesar de seu engajamento político, Karcsi é muitas vezes desacreditado pela sua condição de atleta que, no senso comum e não apenas na película, é visto como o modelo de alienação, à medida que dedica seu tempo a trabalhar músculos o que, nessa concepção, o impossibilitaria de elaborar reflexões sofisticadas e ter ações engajadas politicamente.

            Inspirada por essas questões fiquei a pensar sobre meu objeto de pesquisa: capoeira e capoeiristas. Por mais que muitos questionem a ideia da capoeira como esporte e, portanto, de seus praticantes como atletas, não se pode negar que se trata de uma atividade física institucionalizada e que, muitos grupos, destacam a veia esportiva de suas vertentes. Para além de debates sobre a definição da prática, meus capoeiras, como diversos estudos sobre outras modalidades também apontam, colocam em xeque essa visão do atleta ou, de maneira mais geral, da pessoa que tem no corpo seu grau maior de expressão, como alienado e descolado de discussões socialmente relevantes. Cada vez mais organizados e articulados, os capoeiristas têm demandado respostas do governo para seus problemas, mobilizando, ainda, direitos garantidos pela Constituição brasileira.

Como um dos frutos dessa estruturação política, além do registro da capoeira como patrimônio cultural imaterial brasileiro, pode-se citar a pressão para a realização dos Encontros Pró-Capoeira do Programa Nacional de Salvaguarda e Incentivo à Capoeira, organizados pelo Ministério da Cultura, IPHAN e Fundação Cultural Palmares. Nessas reuniões, os mestres apresentaram e organizaram, em conjunto com gestores públicos, propostas para a formulação de uma política pública para o setor. Outro exemplo é a articulação política resultante da oposição que setores da capoeira baiana têm travado com a organização do evento acima. Dela resultou o Manifesto da Bahia e o I Seminário Baiano de Proposições de Políticas Públicas para a Capoeira, ocorrido no final de 2010. Exemplos de engajamento político de capoeiras ao longo da história brasileira não faltam e mostram que, mais do que puramente estimuladores de músculos, atletas e praticantes profissionais de atividades físicas refletem sim sobre questões políticas de relevância nacional. Mais uma vez, é preciso convidar os pseudointelectuais de plantão a repensarem suas categorias de análise do mundo.

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