Futebol na província dos Goyazes

Cleber Dias

cag.dias@bol.com.br

O desenvolvimento histórico do esporte ao redor do mundo geralmente está associado a cidades portuárias. Ao longo de quase todo o século XIX, o porto foi o local de entrada para práticas esportivas em diversos países. Era li era o lugar que permitia um fluxo intenso de pessoas e mercadorias, mas também das inúmeras práticas que os acompanhavam, incluindo o próprio esporte. Mas como foi esse o processo no “interior”, isto é, nas cidades que não tinham acesso ao mar? No Brasil, por exemplo, como se irradiaram práticas de esporte pelo sertão?

O caso de Goiás seja talvez ilustrativo sob este aspecto. Em que pese às distâncias e as relativas dificuldades de comunicação com os centros de decisão política do país, Goiás sempre experimentou certa agitação na vida urbana de algumas das suas cidades, bem como intercâmbios e trocas comerciais consideráveis, especialmente com São Paulo e Minas Gerais. É nesse contexto que chegam, se irradiam e também se transformam as práticas esportivas.

O futebol, por exemplo, começa a ser praticado em Goiás provavelmente nos primeiros anos do século XX, através do incentivo de estudantes goianos que haviam realizado parte de sua formação em outras cidades – como era comum entre a elite local. De volta à terra natal, esses jovens traziam consigo novos hábitos e costumes aprendidos no período em que estiveram fora. Assim, na antiga capital do estado, a cidade de Vila Boa (atual Goiás Velho, ou Cidade de Goiás), figuras como Walter Sócrates do Nascimento e Brasil Caiado, entre outros, promoviam por volta dos anos de 1907 e 1908 “matches” de “football” entre os colegas do Liceu de Goiás. Sintomaticamente, Walter Sócrates do Nascimento, nascido em 1892, era engenheiro, com passagem por bancos escolares da cidade de São Paulo, onde se tornou torcedor aficionado do tricolor paulista, possuidor, inclusive, de cadeira cativa no estádio do Morumbi. Já Brasil Caiado era membro da tradicional família de políticos locais. Depois dessa fase de futebol com os amigos do Liceu, chegou a ser governador de Goiás e senador da República Velha.

Nos anos seguintes, com a re-configuração de forças políticas e a subseqüente ascensão de novos grupos ao poder, nomeadamente os grupos do Sudoeste Goiano (agenciados, sobretudo, por Pedro Ludovico Teixeira, que durante o Estado Novo se tornaria interventor em Goiás), ganha corpo a antiga idéia de transferir a capital do estado; idéia bastante favorecida pelo contexto político nacional, envolto na chamada “Marcha para o Oeste”. Em Goiás, a medida seria apresentada como parte de um conjunto de iniciativas indispensáveis para modernizar a região. Em 1933 foi lançada a pedra fundamental do que pouco mais tarde viria a ser Goiânia – nova capital do Estado de Goiás, cujo principal articulista fora, justamente, Pedro Ludovico.

Mais uma vez, junto com pessoas e instituições, idéias e suas práticas. Em 1937, fundava-se na nova capital o Atlético Clube Goianiense, em larga medida animado por moradores da antiga cidade de Campinas (atualmente incorporada como um bairro de Goiânia). À época da transferência, todavia, havia ainda uma oposição e até uma rivalidade entre esses antigos moradores de Campinas e os novos de Goiânia. De certo modo, os esportes, e o futebol em particular, seriam veículos e suportes privilegiados para essas identidades.

Do outro lado, em 1938, seria fundado o Goiânia Esporte Clube, popularmente conhecido como Galo Carijó. Sua fundação estaria ligada ao chamado grupo dos “mudancionistas”, isto é, daqueles que ofereciam apoio à mudança da capital, aspirando símbolos modernos e modernizantes, tal como o esporte poderia ser. Com explícito apoio dos políticos locais, do onipresente Pedro Ludovico inclusive, o Goiânia Esporte Clube venceria 14 campeonatos goianos (dos quais 12 entre 1945 e 1960). O primeiro estádio da nova capital, Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira, chegou a ser considerado de mando do clube.

Apesar do favorecimento e do favoritismo (provavelmente favoritismo por causa do favorecimento, como gostam de dizer seus fiéis detratores), o time do Goiânia, assim mesmo, enfrentaria resistências, especialmente da equipe do Atlético Goianiense. Até 1960, apenas as duas equipes se alternaram na conquista do título estadual, em que pese o predomínio do Goiânia. Não por caso, as partidas entre as duas equipes logo ganhariam o nome de “Clássico Rei”.

No entanto, a criação de novas equipes, assim como as transformações políticas e sociais na região, daria início a uma nova fase. É a época em que a rivalidade entre o Goiânia e o Atlético daria lugar ao chamado “Clássico das Multidões”, protagonizado, dessa vez, pelas equipes do Vila Nova e do Goiás. Mas essas já são as de um próximo capítulo…

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