Origens da Copa América

Estamos acompanhando neste mês de julho o mais tradicional torneio continental disputado entre seleções americanas. A atual Copa América surge como Campeonato sul-americano no ano de 1916 em meio a primeira Guerra Mundial e como parte das comemorações da formalização da Independência argentina estabelecida no Congresso de Tucumán em julho de 1816. Na realidade o processo de emancipação do antigo vice-reino espanhol do Rio do Prata iniciou-se na Revolução de maio de 1810 mas somente se consolida definitivamente segundo o historiador Félix Luna dez anos depois, na Batalha de Cepeda.
Todavia durante as comemorações do centenário do Congresso de Tucumám, a data da independência é oficializada e os dirigentes argentinos decidem realizar também entre as celebrações um torneio de futebol em Buenos Aires convidando as seleções do Uruguai, Brasil e Chile.
O torneio foi disputado pelas quatro seleções entre os dias 02 e 17 de julho de 1916, com as equipes se enfrentando entre si. A delegação brasileira teria se deslocado de trem em uma viagem de 4 dias e cinco noites. Segundo fontes oficiais como o livro “Seleção Brasileira – 90 anos” e Brasil x Argentina – “Histórias do maior clássico do futebol mundial”, o jurista Ruy Barbosa se recusou a ceder espaço para os jogadores ,chamando-os inclusive de malandros, no navio “Júpiter” em que partia com membros do judiciário para Buenos Aires, mesmo com a tentativa de mediação do então Ministro das Relações Exteriores Lauro Muller, figura importante na política esportiva nas primeiras décadas do século passado.
O próprio ministro é que no mês anterior conseguiu solucionar um impasse institucional que ameaçava a participação brasileira ,pois até então duas ligas lutavam para comandar o futebol nacional, a FBF paulista (Federação Brasileira de Futebol) e a FBS (Federação Brasileira de Sports) do Rio de Janeiro. Ambas foram extintas e foi criada em 21 de junho de 1916 a antiga CBD (Confederação Brasileira de Desportos) que representou oficialmente o futebol brasileiro na competição e se juntou na criação da Confederação sul-americana de Futebol ou Conmebol no dia 09 de julho, que constituiu-se na primeira federação continental de futebol no mundo.
A primeira partida do torneio foi disputada entre uruguaios e chilenos, terminando com uma goleada de 4 x 0 para os “celestes” com dois gols do atacante Pendibene de origem italiana, e dois do negro Isabelino Gradin. Nesta partida se registrou uma “queixa” de caráter racial por parte dos dirigentes chilenos contra a seleção uruguaia que havia utilizado dois “africanos” na sua equipe.
Além de Gradin que seria o principal jogador e artilheiro do torneio, o negro Juan Delgado também integrava a equipe uruguaia. O caso foi resolvido diplomaticamente, mas o espanto para muitos dirigentes de atletas negros defenderem a seleção de um país sinaliza a existência de uma tensão racial no esporte neste período.

ISABELINO GRADÍN - ARTILHEIRO DO SUL-AMERICANO 1916

Antes de enfrentar a Argentina no dia 10 de julho, o Brasil apenas empata com os chilenos, que haviam sido derrotados pelos donos da casa por 6×1. Apesar do favoritismo argentino a partida termina empatada em 1 x1, e foi considerado um bom resultado para os brasileiros.
Dentre os jogadores brasileiros podemos destacar a presença do mitológico Friedenreich, Alencar, Orlando, Demóstenes e o atleta inglês Sidney Pullen que apesar da nacionalidade britânica defendeu a seleção nacional, cujo uniforme utilizado tinha listras verticais verde e amarela com shorts brancos.
Na partida contra o Uruguai realizada no dia 12, a seleção brasileira começa vencendo por 1 x0 com gol de Friedenreich, mas acaba ficando sem o zagueiro Orlando que após choque com o atacante Pendibiene no início da partida sai lesionado. Na competição os jogadores só poderiam ser substituídos com a anuência dos dois capitães. Como Pacheco não aceitou, os brasileiros disputaram quase a partida inteira com um atleta a menos e sofreram a virada com gols de Gradin e Tognola.
Com esse resultado os uruguaios passaram a ter a vantagem do empate contra os argentinos, cuja a rivalidade já era intensa e as disputas tanto entre os selecionados nacionais quanto entre clubes freqüentes.
A partida que começou a ser disputada no dia 16 teve de ser suspensa com apenas cinco minutos, pois o campo do Gimnasia y Esgrima estava com superlotação, invasões de campo e incêndios nas instalações.
A final do primeiro Campeonato sul-americano acabou se realizando no campo do Racing Club no dia seguinte e com um empate sem gols o Uruguai tornou-se o primeiro campeão do continente. O mito da garra “charrúa” e da camiseta celeste, oriundos da aclamada “equipe de 1912”, quando os uruguaios disputaram 4 jogos com os argentinos vencendo 3 e empatando apenas 1 começava a se propagar pelos rincões sul-americanos antes de conquistar o mundo com as vitórias nos Jogos Olímpicos de 1924 e 1928 e do primeiro Campeonato Mundial realizado no próprio Uruguai.

Referências
CARRIL, Juan A. Capelán. Nueve décadas de gloria. Estampas S.R.L Realizaciones: Montevidéu, 1990.
LUNA, Félix. Breve Historia de los argentinos. Booket: Buenos Aires, 2004.
NAPOLEÃO, Antonio Carlos e ASSAF, Roberto. Mauad: Rio de Janeiro, 2004.
SANTOS, Newton César de Oliveira. Brasil x Argentina: Histórias do maior clássico mundial (1908-2008). Scortecci:São Paulo, 2009.

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