Guerra no gelo

por Maurício Drumond

No último número de nossa revista, Recorde: Revista de História do Esporte, tive a oportunidade de traduzir o artigo de John Soares, “Guerra fria, gelo quente: hóquei no gelo internacional, 1947-1980”. O interessante artigo aborda as relações diplomáticas travadas através do hóquei no gelo, especialmente entra a União Soviética e seus maiores rivais no gelo, o Canadá (não pretendo fazer aqui uma resenha ou um resumo do artigo. Para os que se interessarem no assunto, o artigo traduzido para o português está disponível na revista no link acima).

Já abordei em outros posts nesse blog como outros esportes que não o nosso futebol podem funcionar como elementos de identidade nacional. Assim como o futebol internacional e o críquete, o hóquei no gelo também pode se enquadrar como elemento de identificação nacional. No Canadá, por exemplo, o hóquei é o esporte nacional par excellence. Há aproximadamente um mês, a derrota do Vancouver Canucks para o Boston Bruins na série final da Stanley Cup (campeonato da National Hockey League – NHL – liga disputada por times americanos e canadenses) deu início a uma onda de violência nas ruas de Vancouver que levou o hóquei canadense para as páginas dos jornais de todo o mundo.

No período da Guerra Fria, os principais jogadores canadenses e americanos não podiam competir nas olimpíadas e nos campeonatos mundiais organizados pela Federação Internacional de Hóquei no Gelo (IIHF) [http://www.iihf.com/] uma vez que esses eram profissionais da NHL e os Jogos Olímpicos eram restritos a amadores. Assim, a principal seleção de hóquei no gelo nesse período era a da União Soviética. De 1954 (ano de entrada da URSS na IIHF) a 1991 (último ano da URSS), os soviéticos conquistaram 22 dos 35 campeonatos mundiais disputados (os anos de 1980, 1984 e 1988 não tiveram campeões oficiais), contando ainda com 7 segundos-lugares e 5 terceiros, não obtendo medalha apenas em 1962, quando os soviéticos boicotaram o torneio mundial realizado em Colorado Springs, nos Estados Unidos [1].

O saldo canadense na mesma competição não condizia com sua suposta superioridade internacional sobre o gelo. Nos mesmos 35 campeonatos mundiais disputados, a seleção canadense obteve apenas 4 títulos, ficando 6 vezes em segundo-lugar e 8 vezes em terceiro. Seu desempenho não era melhor do que o dos tchecoslovacos e suecos, também com quatro títulos cada.

Nos Jogos Olímpicos de Inverno o mesmo quadro se repete. Nas 9 Olimpíadas disputadas pela URSS (de 1956 a 1988), a seleção de hóquei vermelha conquistou 7 medalhas de ouro, ficando as outras duas com os Estados Unidos. Já os canadenses, que haviam conquistado 7 das 8 medalhas disputadas até 1956, só voltaram a conquistar o ouro em 1998, ano em que os jogadores da NHL passaram a poder participar dos jogos.

A explicação para tais resultados era baseada no fato de que o Canadá era representado apenas por jogadores amadores, sendo seus principais jogadores proibidos de participar por serem profissionais. Os jogadores soviéticos, por sua vez, mantinham seu estatuto de amadores, visto que sua condição de profissionais era mascarada por serem membros das forças armadas. Assim, na teoria, não recebiam salário por serem atletas, mas por serem oficiais. Esse artifício era conhecido por todos e não era segredo que o emprego de tais atletas no exército era apenas uma fachada para manter o estatuto do amadorismo e possibilitar a participação desses atletas nas principais competições internacionais e difundir um “ideal” esportivo soviético. No entanto, questionar oficialmente esse estatuto significaria comprar uma grande briga com a União Soviética e correr o risco de não ter mais a participação do gigante vermelho ou de seus aliados. Assim, imagino que as vitórias soviéticas eram frequentemente vistas com um certo descaso no Canadá, uma vez que os soviéticos não enfrentavam os principais astros canadenses (não tenho fontes a respeito disso especificamente, mas me parece que essa era a visão dos canadenses a respeito das conquistas soviéticas em campeonatos amadores, a partir das fontes que pude acessar).

Com a aproximação diplomática da détente nos anos 1970, o esporte funcionaria como uma arena de contato entre os países dos dois blocos e o hóquei não seria exceção. Duas competições são emblemáticas nesse sentido, a Summit Series, confronto entre uma seleção profissional canadense e a seleção soviética e as Super Series, confrontos entre equipes soviéticas (ou a própria seleção soviética) e equipes da NHL realizadas entre 1976 e 1990.

Os confrontos internacionais

Pensada como uma competição que visava aumentar o contato entre países rivais em um período de aproximação diplomática, a Summit Series foi um conjunto de oito jogos entre a seleção canadense e a seleção soviética. Os quatro primeiros jogos foram realizados entre 2 e 8 de setembro de 1972, no Canadá, e os últimos 4 jogos foram realizados em Moscou, entre 22 e 28 de setembro do mesmo ano. Pela primeira vez os soviéticos, diversas vezes campeões olímpicos e mundiais, enfrentariam uma seleção com os maiores jogadores profissionais canadenses, as maiores estrelas da NHL e considerados por muitos como os melhores do mundo.

O confronto que os canadenses imaginavam que seria um passeio dos profissionais da NHL acabou por se transformar em um pesadelo ao final do quarto e último jogo em terras canadenses. A vitória soviética no jogo 4 abria um placar geral de duas vitórias para os soviéticos contra uma vitória canadense e um empate. E os próximos quatro jogos seriam disputados em solo soviético. Após perder o quinto jogo, os canadenses viriam a vencer os três últimos jogos em Moscou e virariam a contagem final para quatro vitórias canadenses contra três soviéticas e um empate, conquistando assim a série.

Mais do que o embate de duas potências do hóquei, a Summit Series foi o primeiro enfrentamento entre dois modos de se jogar o hóquei no gelo. O estilo de jogo soviético, visto por comentadores do período como mais habilidoso, sofreu com o jogo mais físico, para não dizer violento, dos jogadores canadenses. Um dos principais jogadores canadenses era Bobby Clarke, sorrindo na foto abaixo.

Bobby Clarke e seu sorriso de jogador de hóquei no gelo.

A violência com que os jogadores canadenses jogavam era, em parte, resultado de seu estilo de jogo e, em parte, pura agressão. O golpe de Bobby Clarke em um jogador tchecoslovaco em um jogo amistoso no retorno da final da Summit Series em Moscou, no vídeo abaixo, é um exemplo do “estilo” canadense.

Outros momentos poderiam ser aqui demonstrados, como a pancada do mesmo Bobby Clarke no tornozelo do astro soviético Valeri Kharlamov a pedido do assistente técnico canadense no sexto jogo da série. Coincidência ou não, após a pancada em Kharlamov (que ficou de fora do jogo seguinte e pouco jogou na última partida) os canadenses venceram os três últimos jogos e levaram o título da série.

No vídeo abaixo (infelizmente disponível apenas em inglês) o assistente técnico diz à reportagem: “Eu chamei Bobby junto ao banco e disse ‘Bobby, esse cara está acabando com a gente’. Bobby deu uma pancadinha no tornozelo dele deu uma acalmada nele”. Depois Bobby Clarke diz: “Eu meio que fui atrás dele e dei uma pancada no tornozelo dele. (…) Foi algo feito no calor da batalha”. O resultado da “pancadinha” foi um tornozelo quebrado para o jogador soviético e um taco quebrado para o canadense.

O mesmo embate de “estilos” se deu nas Super Series, quando equipes soviéticas foram aos Estados Unidos jogar contra equipes da NHL (formadas majoritariamente por jogadores canadenses). As Super Series não eram campeonatos em si, mas confrontos “amistosos” entre as principais equipes dos dois campeonatos. A violência mais uma vez se fez presente, em especial durante série de 1976, quando o CSKA, o principal time soviético, enfrentou o Philadelphia Flyers, conhecido como o “Broad Street Bullies” (Os valentões de Broad Street), equipe do supra citado Bobby Clarke. Os soviéticos perderam o jogo por 4 a 1, mas o que mais marcou a partida foi uma nova entrada sobre o mesmo Valeri Kharlamov, dessa vez um acotovelada aplicada por Ed Van Impe que deixou o soviético estendido no gelo por cerca de um minuto. O juiz alegou que a jogada oi legal e o técnico soviético ensaiou retirar a equipe do jogo como protesto, voltando ao gelo pouco depois.

Essa diferença no estilo de jogo levou à publicação da seguinte charge no jornal russo Pravda após o jogo do CSKA contra o Flyers.

Charge Soviética

Charge do jornal soviético Pravda

Foram organizados 10 encontros da Super Series, nos anos de 1976, 77, 78, 79, 80, 83, 86, 89, 90 e 91. Assim o hóquei no gelo, um jogo violento por excelência, passava a ser um meio de contato entre os principais oponentes na Guerra Fria. Um jogo onde os atletas rivais poderiam se bater à vontade e colocar em disputa simbólica a força de suas nações. Nada mais apropriado. Bem, talvez o boxe. Mas esse ficará para outro post.

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NOTAS:

[1]. Resultados dos campeonatos mundiais disponíveis em <http://www.iihf.com/iihf-home/history/all-medallists/men.html>. Acesso em 15 jul. 2011. Para maiores informações ver SOARES, John. Guerra fria, gelo quente: hóquei no gelo internacional, 1947-1980. Recorde: Revista de História do Esporte, v. 4, n. 1, 2011.

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