Futurismo: um movimento esportivo II – “Demonstração Intervencionista”

Por Victor Andrade de Melo

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Em post anterior, já discutimos como, no âmbito do futurismo, importante e ruidoso movimento artístico que esteve ativo nas décadas iniciais do século XX, o esporte não só foi um tema constante em muitas obras como também estava presente na sua dinâmica interna, citado em muitos manifestos como exemplo de fenômeno cultural que se afastava da tão combatida ideia de tradição, uma expressão dos novos tempos que tanto fascinavam os artistas envolvidos com o grupo.

No post de hoje vou brevemente discutir uma obra que considero sintetizar a relação com o esporte estabelecida no âmbito do Futurismo: “Demonstração Intervencionista”, de Carlo Carrá (1914, têmpera e colagem sobre cartão, 38,5 x 30 cm, acervo de Peggy Guggenheim Collection/Veneza).

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Esse artista, em seu manifesto “A pintura de sons, barulhos e cheiros” (1913), já sugerira que o esporte deveria ser predominantemente representado em vermelho. Carrá segue o próprio conselho em “O Cavaleiro Vermelho” (1913, têmpera e tinta sobre papel, 26 x 36 cm, acervo de Civico Museo D’Arte Contemporanea/Milão) e poucas não foram as vezes, na obra de outros futuristas, em que a cor foi utilizada para representar elementos da prática esportiva.

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Curioso é também, do mesmo artista, “Nadadoras” (1910, óleo sobre tela, 105 x 156 cm, acervo de Carnegie Museum of Art/Pittsburgh), um dos primeiros quadros futuristas. A obra era uma clara referência ao poeta futurista Libero Altomare, que fazia uma relação entre a natação e os estados da mente.

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Mais do que referências literais em obras, é interessante destacar o sentido de excitabilidade proposto por Carrá, expressando sua compreensão sobre a presença da prática na sociedade de seu tempo.

Ainda que já estivesse se afastando das propostas de Marinetti, o que se tornaria mais claro nos anos seguintes, notadamente depois de seu encontro com De Chirico, no ano de 1914, Carrá deixa-se contagiar pelas noções de patriotismo, no cenário tenso da véspera da 1ª Grande Guerra. Esse sentido impregna “Demonstração Intervencionista”: “Fiel à sua ideia anterior de pintar ruídos, a ‘abstração plástica do tumulto civil’, como ele mesmo definiu essa peça, celebra a Itália, seus aviadores, os ruídos da guerra, Marinetti e outros heróis do movimento moderno” (Humphreys, 2000, p.67).

“Demonstração Intervencionista” foi publicada na revista Lacerba, órgão de difusão do Futurismo, com o título de “Festa Patriótica”. Tratava-se de um claro diálogo com as propostas de Picasso na segunda fase do Cubismo, já adequado às características específicas do movimento futurista. Desaparece a figura e emerge a representação abstrata do tumulto e do caos urbano. O quadro é composto por palavras que fazem referência às novas dimensões da modernidade, apresentadas na forma de caleidoscópio, uma analogia ao turbilhão de novidades que assolava a sociedade.

Nesse contexto, a palavra “sports”, colocada ao centro, como destaque, nos relembra tanto o papel que tal manifestação ocupava no contexto social (sua adequação aos “novos tempos”) quanto sua ligação com as propostas do grupo.

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Enfim, trata-se de mais um indício de que houve um profundo diálogo entre o esporte e o Futurismo Italiano.

Consideremos que esse movimento, de diferentes formas e com diversas recepções, serviu de inspiração para artistas de outros países. De certa maneira, percebe-se essa influência no Dadaísmo e em certos momentos da trajetória de Marcel Duchamp e Robert Delaunay. Mas é certamente na Rússia e na Inglaterra que tal relação fica mais clara. Nesses casos, seria possível identificar algum grau de relacionamento com o esporte?

Esse é um assunto para outro post.

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