Retorno às origens?

Vivian Fonseca

A expansão da capoeira no exterior se inicia nos anos 1970 – é o momento do capoeirista aventureiro, no momento em que pouco (ou nada) se conhecia de capoeira em diversas partes do mundo. Desse período para cá, a capoeira “deu a volta ao mundo” e hoje, segundo levantamento do Ministério da Cultura, está presente em mais de 150 países.

De maneira mais organizada e sistemática, a capoeira definitivamente virou queridinha de descolados ao redor do mundo e, talvez não seja demais arriscar, dificilmente alguém não saberia reconhecer um capoeirista nos grandes centros urbanos mundiais. Se nos anos 1970 e 1980 a capoeira se difundiu pela Europa e EUA, os anos 1990 conheceram novos destinos de viagens para mestres e professores interessados em se estabelecer no exterior: Israel, Japão e, também, países africanos. E é justamente sobre a viagem da capoeira para a África que se trata esse post.

O estabelecimento de centros de treinamento, grupos, professores e mestres brasileiros de capoeira em países africanos é visto, de maneira geral, como um ‘retorno às origens’. Ir à África seria a possibilidade de beber diretamente nas tradições que formaram a capoeira e, portanto, essencial para a maioria dos capoeiristas comprometidos com ‘a verdadeira capoeira’.  Se esse ‘retorno’ à África ou, ainda, a vinculação com elementos vistos como africanos são entendidos por muitos brasileiros como uma chancela de qualidade e autenticidade da capoeira, talvez não seja essa a chave de leitura realizada por nativos em solo africano. Pesquisando em sítios e blogs de grupos de capoeira que mantém filiais em países africanos, me deparei com uma situação bem interessante.

Em Maputo, capital de Moçambique, os capoeiristas têm um jeito muito particular de se definirem: oficiais x clandestinos. Um leitor desavisado poderia supor que oficiais seriam grupos registrados em entidades formais de cultura ou esporte, por exemplo. No entanto, segundo os relatos com os quais travei contato, oficiais seriam os grupos mais estruturados e, pasmem, mantém relações diretas com grupos e mestres de capoeira brasileiros. Por outro lado, os clandestinos seriam os grupos sem essa referência clara com algum grupo ou mestre de capoeira brasileira.

Enquanto capoeiristas brasileiros valorizam essa herança e essa ligação com elementos africanos, por outro lado, os próprios africanos reconhecem e identificam uma capoeira autêntica a partir de sua vinculação com elementos culturais brasileiros.

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