Copa e Olimpíada: tocamos as obras, violamos direitos, vamos em frente

Por Rafael Fortes

No finzinho de 2010, escrevi uma análise (com traços de prognóstico) sobre a organização dos megaeventos esportivos no Brasil, no que diz respeito aos interesses da maioria da população e aos cofres públicos. De lá para cá, para tragédia do país onde nasci e, em particular, da cidade onde vivo (Rio de Janeiro), os acontecimentos indicam que eu estava certo.

Estou longe de ser o único com esta avaliação, inclusive entre os que estudam esporte. Em entrevista publicada no jornal Brasil de Fato, Gilmar Mascarenhas de Jesus, professor de Geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), apresenta dados e interpretações bastante críticos a respeito da forma como os megaeventos esportivos vêm sendo preparados no Brasil. Além disso, descortina os interesses e projetos de cidade aos quais os megaeventos estão associados e subordinados.

Movimentos sociais, ONGs, moradores atingidos pelas obras e (poucos) mandatos legislativos e políticos vêm, com imensas dificuldades, lutando para garantir direitos, conter o rodo e divulgar os acontecimentos. Um exemplo é vídeo abaixo, feito com o objetivo político de mobilização a favor da instalação da CPI das Remoções na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Trata-se de compilação de vídeos relativos às remoções que vem acontecendo na cidade (veja também a segunda parte). Na fala do morador (a partir de 4’49”), repare que a casa atrás dele está pintada com números e as iniciais SMH, que provavelmente correspondem a Secretaria Municipal de Habitação. A fala de Raquel Rolnik, professora da USP e relatora da ONU para o direito à moradia, é tão clara quanto estarrecedora.

A legitimação política, ideológica, econômica e prática para a realização da maioria destas obras é preparar a cidade para a realização da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. A quantidade e qualidade das ilegalidades, arbitrariedades e crimes cometidos pelo poder público (executivos municipais, estaduais e federal, mas não só) impressiona.

Vale a pena conferir também um relato em inglês dos acontecimentos e da produção de quatro curtas, bem como os próprios vídeos (os quais formam a base dos dois vídeos-coletânea citados acima). Num deles, um morador que teve sua casa destruída afirma se sentir “um otário”, pois comemorou a escolha do Brasil para sede da Copa de 2014, mas agora percebe as consequências nefastas da decisão.

Percebe-se claramente a lógica de rolo compressor – ou rodo, como defini em outro espaço – que orienta as ações. O depoimento de um morador da Vila Recreio 2, num dos vídeos citados, deixa clara a falta de informação e de acesso aos projetos das obras. Ao final deste vídeo, a mesma Rolnik explica que prejudicar os pobres faz parte desta mesma lógica.

Esta lógica não é coisa nossa. Recentemente, funcionou também na África do Sul (Copa do Mundo de 2010) e Grécia (Olimpíada de 2004). Há numerosas análises sobre as consequências da última Copa. Uma delas foi feita recentemente por um professor sul-africano em evento promovido pelo IPPUR, da UFRJ, e relatada no boletim Olhar Virtual:

Ao final de sua apresentação, o convidado concluiu que a melhor maneira de organizar um mega evento como a Copa do Mundo é incluindo a população, para evitar revoltas sociais e ajudar no desenvolvimento do país (…)

Ou seja, justamente o contrário do que ocorre no Brasil.

Vivemos em uma democracia formal desde 1979, 1985, 1988 ou 1989 – dependendo do marco escolhido. Contudo, a população e a sociedade organizada ficam fora da discussão e da tomada de decisões, contrariando leis e qualquer parâmetro de bom senso, ética, decência e razoabilidade. Decisões e realizações (sobre obras, projetos, liberação e uso de recursos públicos etc.) são feitas de forma secreta, sem participação da população. Temos, no governo e no poder, partidos integrados por centenas, talvez milhares de perseguidos pelo regime de exceção instaurado em 1964. Tragicamente, a organização dos megaeventos, ao menos em certos traços, lembra a época do “Ninguém mais segura este país”.

*  *  *

Por indicação do colega de blogue Coriolano, li esta inacreditável entrevista de Ricardo Teixeira, presidente da CBF, à revista Piauí. Outro escriba deste espaço, Victor Melo, leu recentemente Jogo Sujo, do jornalista britânico Andrew Jennings, e disse que, a julgar pelo relato, a situação é duzentas vezes mais cabeluda do que imaginamos. A obra é apresentada pela editora brasileira como “o livro que a Fifa tentou proibir”.

Capa do livro que Ricardo Teixeira conseguiu proibir.

No caso brasileiro, talvez, em breve, consiga. Afinal, há um precedente: CBF – Nike, escrito pelos então deputados federais Aldo Rebelo (PCdoB/SP) e Silvio Torres (PSDB/SP) e editado em 2001 pela Casa Amarela, foi recolhido e permanece, até hoje, proibido. (É possível encontrá-lo em sebos, inclusive virtuais. Mas a proibição jogou o preço lá em cima.) Eles foram, respectivamente, presidente e relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) CBF/NIKE, que investigou a relação da confederação com a fornecedora de material esportivo – e acabou em pizza, “sem votação do Relatório” final.

Segundo o excelente texto de Daniela Pinheiro, Teixeira declarou: “Meu amor, já falaram tudo de mim: que eu trouxe contrabando em avião da Seleção, a CPI da Nike e a do Futebol, que tem sacanagem na Copa de 2014. É tudo coisa da mesma patota, UOL, Folha, Lance, ESPN, que fica repetindo as mesmas merdas.” A lista é precisa: concentra os veículos que, dentro da mídia corporativa, fazem uma cobertura crítica – ora mais, ora menos; uns mais, outros menos – em relação ao esporte, à maneira como estão sendo organizados os megaeventos esportivos e à condução das entidades que mandam no esporte brasileiro, como a CBF.

De acordo com o relato, Teixeira compara a CBF a entidades privadas como o banco Bradesco, afirmando que as pessoas não têm nada a ver com a contabilidade da entidade. Em outro trecho, lembra que, ao gravar entrevistas ocm dirigentes da entidade sobre a preparação para a Copa do Mundo, os jornalistas da TV Globo nada perguntaram sobre as numerosas denúncias de corrupção.

Lá no início, falei que as obras eram uma tragédia não apenas para a maioria da população, mas também para os cofres públicos. Exemplo disso é a matéria “Gasto olímpico grego ilustra a perda de controle das finanças“, de Vitor Paolozzi, publicada no jornal Valor Econômico. Além de entrevistar um professor da London School of Economics cujo sobrenome, curiosa e apropriadamente, é Economides, aponta vários erros e absurdos cometidos. Um dos problemas principais, no caso grego, foi o suborno de autoridades por parte de empresas interessadas em ganhar licitações e fornecer produtos e serviços para os jogos e para as obras a eles relacionadas.

Difícil imaginar que esteja acontecendo e vá acontecer algo semelhante no Brasil, não?

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