Socialismo esportivo

Cleber Dias

cag.dias@bol.com.br

Cartaz de propaganda da Spartakiada de Verão, realizada em Moscou, em agosto de 1928.

A ideologia socialista manteve uma relação histórica ambivalente com o esporte. De um lado, a conhecida crítica sobre as práticas esportivas, acusadas de reproduzirem os valores burgueses e funcionarem como elemento de alienação do proletariado. De outro lado, menos implacável, uma postura que pretende instrumentalizá-lo para difusão de ideais revolucionários.

A história do esporte na União Soviética ilustra bem a oscilação entre esses pólos. Após a Revolução de Outubro, a política bolchevique foi pouco a pouco definindo uma orientação que pretendia afastar o esporte burguês, buscando, em contrapartida, práticas alternativas, mais condizentes com os valores e interesses das classes trabalhadoras, conforme acreditavam os líderes do Partido. Os bolcheviques criticavam o individualismo e a competição do esporte burguês, apontados por eles como um dos vícios responsáveis pela decadência da sociedade. A fim de tentar superá-los, o regime dissolveu clubes esportivos e afastou o país das federações e competições internacionais. Nessa época, a Internacional Desportiva Vermelha e a Spartakiada, espécie de Olimpíadas Proletárias, substituíram instituições e eventos mais convencionais no universo esportivo soviético.

Selos postais com temas esportivos exibiam a nova postura do governo soviético diante dos “esportes burgueses”.

Pelos idos da década de 1930, no entanto, diversas transformações na política soviética, incluindo certa decepção com o movimento esportivo comunista, animaram uma mudança de rumos. Dali em diante, os soviéticos passaram a usar o esporte como instrumento de mobilização de trabalhadores, bem como suporte para exibição da superioridade do seu sistema político. O esporte também passava a ser visto como veículo para integração de minorias étnicas da Grande Rússia, além de estratégia contra o alcoolismo, a criminalidade e a mobilização contra o governo. Ao longo da década de 1940, a União Soviética re-estabeleceu relações com várias federações internacionais, incluindo a de futebol, halterofilismo, ginástica, boxe, basquete e vôlei. Em 1951, criou-se o Comitê Olímpico Soviético, que estreou no ano seguinte, nas Olimpíadas de Helsinque, Finlândia, com destaque para a equipe feminina de ginástica, que dali em diante arrebataria consecutivamente a medalha de ouro nas próximas oito edições dos Jogos.

No Estádio Strahov, em Praga, construído para esse fim no período entre guerras, grandes exibições de ginástica proletária durante a Spartakiada tentavam encenar a agilidade e disciplina comunista.

Mas qual seria, afinal, a pertinência ou impertinência da prática esportiva para os ideais socialistas? Haveria, de fato, incompatibilidade entre uma coisa e outra? Os principais teóricos da doutrina nunca se ocuparam seriamente com a questão. Apenas os próprios hábitos de alguns deles fornecem fugidios indícios a esse respeito. Sabe-se, por exemplo, que Frederic Engels era entusiasmado praticante de equitação. Engels teria inclusive tentado ensinar a arte da montaria a seu fiel camarada, Karl Marx, mas este, decididamente sedentário, não teria passado da primeira aula. A cota de exercícios de Marx resumia-se, quando muito, a leves passeios a pé aos domingos com a família. Na juventude, a inaptidão de Marx para os esportes chegou a fazê-lo ser ferido perto do olho durante um duelo de espadas – prática comum na Alemanha da época.

A pintura de Emma, cuja autenticidade é questionada por especialistas, exibiria uma partida de xadrez entre Lênin e Hitler, em Viena, em 1909.

Já Vladimir Ulianov, ou Volodia, para os íntimos, que entrou para a história política mundial com o seu codinome, Lênin, tinha um repertório de atividades mais diversificado. Quando exilado em Paris, por volta de 1910, utilizava-se da bicicleta com bastante freqüência. Na Sibéria, outro dos seus muitos lugares de exílio, costumava caminhar com Krupskaia pelas margens dos rios. No inverno, quando as águas congelavam, o casal patinava sobre o gelo como modo de aquecer os corpos e ocupar o tempo livre – que era muito na Sibéria. Lênin às vezes também caçava, apesar da pouca habilidade, conforme dizem vários relatos. Como gostava de testar sua força contra obstáculos de todo tipo, Lênin também costumava fazer longas e solitárias caminhadas à noite. Na juventude, nadava em lagoas da propriedade de sua família, às vezes duas vezes ao dia. Nessa época, também se exercitava ao ar livre numa barra horizontal. Durante os meses em que estivera preso, consta que Lênin fazia cinqüenta flexões todas as noites antes de dormir. Além disso, manteve ao longo de toda vida a paixão pelo xadrez. É famosa a polêmica gravura pintada por Emma, professora de arte de Hitler, retratando, supostamente, o futuro chefe do Terceiro Reich numa partida contra Lênin, em Viena, em 1909. Sob o comando de Lênin, o governo socialista soviético investiu seriamente na promoção e formação de enxadristas, cujo resultado foi o amplo domínio russo sobre o jogo desde então.

Chineses e Americanos encontram-se para partida de pingue-pongue (1971). Ao longo de quase todo o século XX, o esporte foi veículo de mediação política, tanto para os países socialistas, quanto para os capitalistas

Outros líderes socialistas também manifestaram grande ânimo pelos esportes. Mao-Tse-Tung, por exemplo, que caminhava e nadava regularmente, fez publicar logo após a Revolução Chinesa (1949) um artigo de sua autoria abordando a importância do esporte para a nação. Nesse espírito, não é de surpreender que Mao tenha decidido formalizar o início da chamada “Revolução Cultural”, em 1966, com a promoção de um evento esportivo: uma travessia do lago Yagntze. Nessa época, o primeiro-ministro Zhou Enlai, com total apoio de Mao, notabilizou-se pela capacidade de utilizar o esporte como instrumento diplomático, promovendo partidas de xadrez com os russos e até organizando uma partida de pingue-pongue contra a equipe norte-americana, no episódio que marcou o estabelecimento de relações entre os dois países, depois de anos de isolamento

Capa de revista norte-americana, exibia charge de uma partida entre Richard Nixon e Mao-Tse-Tung, perguntando-se sobre os propósitos do "pingue-diplomático"

Do outro lado do mundo, na América Latina, o governo socialista cubano sempre rejeitou o argumento marxista de que o esporte competitivo é uma prática burguesa, elitista e responsável pela promoção de ideais individualistas. Desde o início, os líderes da Revolução Cubana acreditavam que era o contexto, e não uma eventual “essência” do esporte o que determinava seus efeitos sobre a população. Não por acaso, assim que assumiram o controle político em Havana, engajaram-se prontamente em promover sistematicamente a prática de esportes entre os cubanos. Para eles, campeões esportivos internacionais treinados em escolas destinadas especificamente a esse fim, refletiam apenas o desenvolvimento que o novo sistema político permitia aos seus cidadãos. Fidel Castro chegou a dizer que as três principais realizações da Revolução eram a educação, o tratamento médico e os esportes.

El Comandante, como bom argentino, era apreciador do futebol (especialmente quando jogado por brasileiros...). Na foto, um dos protagonistas da Revolução que daria grande ênfase política à promoção da prática esportiva, aparece ao lado do time do Madureira, do subúrbio do Rio de Janeiro.

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