A palavra na sombra da bola

Por Edônio Alves

Nos meus estudos sobre a relação do futebol com a literatura, pude perceber, através das pesquisas que fiz com o gênero do conto, as diferentes formas de abordagem do tema deste jogo que os ficcionistas brasileiros empreendem para transformá-lo em narrativa literária. Por conta disso, mapeei essas modelizações formais do tema do futebol em nossa literatura em categorias de leitura para melhor inserir o assunto no universo dos nossos leitores.

Numa dessas classificações de leitura do gênero, eu incluí uma série de narrativas sobre a rubrica que denominei de “Contos de demanda intrínseca”, que são aqueles textos que encerram um tipo de investimento ficcional em que se tenta debater, analisar, demonstrar ou meramente flagrar a condição humana, no seu todo ou em algum aspecto dela, por meio de suas narrativas, a partir da função que o homem exerce dentro do próprio campo temático do texto, neste caso, o campo[1] do futebol.

Nesses sentido, apresento, aqui, mais uma leitura de uma boa narrativa literária sobre o futebol. Trata-se do conto, A sombra, do escritor cearense, Caio Porfírio Carneiro. Vamos a ela:

Narrativa de demanda intrínseca, como já antecipei, esse conto de Caio Porfírio Carneiro põe em cena aquele conflito clássico (bíblico até!) em que a força do mais forte procura se impor à humildade do mais fraco.

E aqui os reveses da condição humana adentra as quatro linhas para costurar mais uma vez, através dos finos tecidos da palavra, a imbricação do jogo da vida com o jogo da bola. Afinal, o personagem principal da narrativa é mais que um jogador de futebol, é um homem que intenta a todo custo escapar da opressão insidiosa de um oponente vigorosamente mais forte e que, dada a sua limitação técnica no campo de jogo, procura se impor não por meio da força do argumento, o que equivaleria à sua melhor técnica e habilidade, mas, sim, pelo argumento da força: o vigor físico em si em conjunto com as artimanhas e malandragens para esconder da arbitragem as suas deslealdades e desrespeitos às regras do jogo. A violência, enfim; assim no campo, assim como na vida.

E se o futebol, como advoga o poeta Ferreira Gullar, não é a vida mesma e, sim, uma idealização desta: “Melhor dizendo, um modo de lutar e derrotar o adversário, sem liquidá-lo fisicamente e dentro de normas pré-estabelecidas” [2][3], esta narrativa parece ter sido criada para desdizer o poeta não na sua concepção ideal do futebol, mas sim, e em última instância, na potencialidade que ele tem também, enquanto um jogo que é – ademais como na vida, aliás – de trazer para o seu campo prático as imperfeições e mazelas da existência humana tais como a sordidez, a injustiça, a inveja, enfim, o lixo humano, demasiado humano, produzido no campo das relações sociais.

De posse de uma técnica narrativa simples e, no entanto, bastante eficaz, em que uma terceira pessoa do singular é utilizada para expressar uma visão do narrador em uníssono com a visão do personagem principal do conto, um meia-armador habilidoso que passa um jogo inteiro pensando numa forma de se livrar definitivamente de uma sombra (o adversário brutamontes que o acompanha milímetro a milímetro dentro do campo e quer anulá-lo mesmo com a violência), Caio Porfírio Carneiro arquiteta a história de sua vingança (a do personagem, claro) em que a abertura já diz tudo.

Haveria de pegá-lo, de tal jeito que o afastasse de vários jogos. Ou o quebrasse definitivamente. O revide frontal seria impossível. Não teria físico para tanto. Disciplinadíssimo. Atropelara-se naquela montanha de músculos. Justificava-se, humilde e cheio de ódios. Fizera ver ao juiz as inúmeras faltas sofridas. De nada serviria a solidariedade do capitão do time, dos companheiros. Cartão amarelo. O jequitibá lá no chão, contorcendo-se de dor nenhuma, cena pura”.

A partir deste ponto, portanto, toda a história segue variando ora a terceira pessoa ora um discurso indireto livre que melhor expresse os pensamentos silenciosos do jogador que trama a superação de sua condição de opressão diante do adversário desleal:

Aquilo vinha de longe, desde que passara a titular e subira como foguete no conceito da torcida e dos adversários. Bola no seu pé era fila de jogadores estonteados e pânico nos zagueiros.

“(…) Contra aquele adversário, porém, nunca. Um suplício. Dois metros, nenhum futebol, colado. Recuava, deslocava-se para o centro, seguia as instruções do técnico, a gritar-lhe, mãos afuniladas na boca:

­            -­ Vá para a direita!

            Inútil.”

O texto segue por dentro dos pensamentos, consciência e hesitações do personagem que se debate entre a necessidade de produzir uma boa performance que leve o seu time à vitória – neste jogo e também no campeonato inteiro – e a urgência de se livrar do obstáculo que justamente vem impedindo, no caso,  esse seu projeto de vida. E, para um caso clássico, uma solução clássica por parte do narrador, o que se não dá a sua história foros de originalidade, ao menos chama a cumplicidade do leitor para uma saída formal confortavelmente conservadora:

“(…) Olhou-o rápido e até cumprimentou-o. Recebeu em resposta, um sorriso e o mesmo piscar de olho, de alto dos dois metros. Na base, os tendões, fios sobre as chuteiras enormes. Pegaria o direito. Estraçalharia.”

Não é necessário lembrar aqui a força simbólica dos tendões nas histórias clássicas em que se pretende mostrar que onde reside a força é que justamente pode também morar a maior fraqueza. Aquiles que o diga, junto com Homero. O desfecho desse caso, deixe-se o leitor procurar. Ressalvando-se, entretanto, que aqui, nessa narrativa curta sobre futebol, também se intenta demonstrar, através da figuração típica da representação literária, o quanto as regras de convívio (sejam éticas, técnicas, morais ou políticas) são insuficientes para pautar a ação humana quando a questão em foco for a vivência da plenitude da existência, o que inevitavelmente inclui o efeito das desigualdades, injustiças, crueldades e violências, no corriqueiro enfrentamento homem a homem da vida.

Mas, a propósito, levemos em consideração – porque absolutamente pertinentes para este caso do conto de Caio Porfírio Carneiro – as reflexões do poeta Ferreira Gullar sobre a vida e sobre o futebol:

De todos os modos, essa marcação homem a homem, na vida, é impraticável, já que não se passa numa área delimitada, às vistas da torcida e transmitido pela televisão. Além do mais, na vida a desigualdade é maior, uma vez que, além de o juiz estar ausente, quem pode mais manda mais e até mesmo anula as normas do convívio social. Sim, porque a vida também tem regras, tem leis, só que mais difíceis de aplicar do que numa disputa esportiva.

Em suma, o futebol nos permite viver numa disputa justa, uma vez que o número de contendores é o mesmo de cada lado e as regras valem para todos. Se um time é melhor que outro, isso se deve às qualidades dos jogadores e do treinador. Aqui também, como na vida, quem pode mais manda mais, isto é, contrata mais e melhor, o que nos levará, fatalmente, a concluir que a igualdade total, que não existe na vida, tampouco no futebol se consegue alcançar. Mas, nele, se chega muito mais perto e, às vezes mesmo, se alcança, pois há partidas entre times igualmente bons, cujo resultado é impossível prever.”

Como o final de um conto, talvez, diria o autor dessa história de futebol.


[1] A expressão aqui deve ser entendida também na acepção em que é utilizada pela conceituação de campo social, feita pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu. Cf. BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. p. 59-74.  

[2] Ver artigo do poeta Ferreira Gullar sobre o tema, publicado na Folha de São Paulo: edição de domingo, 15 de março de 2009.

 Para ler o conto na íntegra, consultar:

Histórias de futebol, organizada por Maria Viana e Adilson Miguel, com ilustrações de Rubem Filho, editada pela Editora Scipione, de São Paulo, em 2006.

 

 

 

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