Entre brincadeiras e trabalho: a equipe infantil do Bangu A. C.

Por Nei Santos Junior

          Aguardando o famoso dia 12 de outubro, “dia comercial das crianças”, resolvi escrever algo que relacionasse os seguintes temas: futebol suburbano x dia das crianças. Inicialmente articular esses dois objetos me pareceu uma tarefa frustrada, mas depois de vasculhar algumas fontes… Pude encontrar algo que pudesse despertar a curiosidade de alguns.

          Ainda na primeira década do século XX, o entusiasmo causado pelo esporte no Rio de Janeiro e sua difusão pelos subúrbios da capital[1] não permitiriam mais caracterizá-lo como uma prática restrita a grupos de esportistas da Zona Sul. O futebol rapidamente ganhava proporções diferentes da imagem de distinção social implementada pelos sportsmen, tornando-se cada vez mais patente a participação de negros e trabalhadores, que, assim, promoviam um alargamento simbólico nos sentidos do jogo.

          Os admiradores do futebol, agrupados em centros esportivos formados nos subúrbios ou em seus locais de trabalho, não eram os únicos a sentirem essa grande paixão pelo jogo, as “peladas” entre os meninos suburbanos, se torvavam frequentes nos arrabaldes da cidade, resultando em ainda em 1911 uma equipe infantil no Bangu Athletic Club.

          Naquele momento a população do bairro contava com um pouco mais de sete mil habitantes que direcionavam suas atividades em torno da fábrica, o que transformava o futebol em uma das principais opções de lazer dos moradores da região, principalmente entre os jovens.

          Os administradores da Fábrica Bangu perceberam que o futebol estimulava entre os jovens da região, um sentido de pertencer à comunidade da empresa, e inúmeros festivais esportivos foram criados. Entre eles, destaca-se o torneio de futebol realizado no dia 24 de junho de 1911, vencido pelos alunos do Professor Timótheo.

           A equipe vencedora era formada pelos irmãos Antônio e Áureo Corrêa, Ernani Reis, Osvaldo Corrêa (Coquinho), José Monteiro (Bodóque), Chumbado, Tio Pedro, Pata, Franklim Frango d’agua (filho do Professor Timótheo), Pepe Alvarez, Pedro Menezes e Waldemar. Destes, os cinco primeiros vestiram posteriormente a camisa do Bangu A.C., resultado do desenvolvimento do gosto pelo esporte na região.

           A equipe principal matinha o ciclo de novos jogadores. Esses, além de cativar um espaço no time, faturavam um emprego na fábrica, alimentando a figura do operário-jogador: o trabalhador que se destacava menos por tarefas laborais e mais por suas habilidades esportivas. Isso justificava uma série de privilégios: dispensa da exigência de frequência no trabalho em horários de treino e jogos, além de colocação em um posto mais leve[2]

Ata_21 de junho de 1911.

          Diante deste entusiasmo, incentivado pela inserção de uma nova prática que começava a se disseminar pelos vários cantos do país e pelas diversas camadas sociais, o trabalho iniciado pelo professor Timótheo ganharia destaque entre os moradores, e novos talentos surgiam nos arrabaldes de Bangu. 

(Segunda parte) Ata_21 de junho de 1911

 [1] Esse fato se dá com a criação de clubes formados por rapazes de classe média, como também por empregados de fábricas e moradores de bairros populares como: The Bangu Athletic Club (1904), Andarahy Athletico Club (1909), Sport Club Mangueira (1906), Cascadura F. C (1906), Club Atlético Méier (1906), Brasil Atletic Club (1906), Esperança Atletic Club (1907). Correio da Manhã, 2 de agosto de 1906; Correio da Manhã, 22 de maio de 1907; Gazeta de Notícias, 15 de abril de 1907; O Paiz, 19 de outubro de 1906; e O Paiz, 10 de junho de 1906.

[2] RODRIGUES FILHO, M. O Negro no futebol brasileiro. 4ª edição. Rio de Janeiro: Mauad , 2003.

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