O Rugby e o Haka

por Maurício Drumond

Em minhas contribuições a esse blog, venho destacando como outros esportes que não o futebol também podem assumir o caráter de símbolos nacionais. No Brasil, o futebol ocupa um lugar tão importante em nossa cultura e nossa identidade nacional, que por vezes podemos não notar que essa característica não é inerente a esse jogo em particular, mas é uma característica historicamente construída que pode estar ligada aos mais variados esportes. Já abordei aqui o caso do críquete , do hóquei no gelo e até mesmo do chamado “International Rules Football” , um jogo híbrido entre o futebol gaélico e o futebol australiano, criado para estabelecer um confronto internacional entre esses dois esportes que, profundamente ligados à identidade nacional de seus países, não tinha possibilidades de confrontos internacionais que pudesses “colocar à prova” suas seleções. Nessas postagens, procuro demonstrar que o esporte, e não alguma modalidade em particular, é um importante mediador de identidades e um grande produtor de símbolos. O sucesso no esporte por muitas vezes ultrapassa as fronteiras desportivas e se torna a vitória de um povo, de uma nação,  ou de forma mais geral, nas palavras de Benedict Anderson, de uma comunidade imaginada.

Neste novo post decidi olhar para a Copa do Mundo de rugby, a competição esportiva mundial de maior audiência depois da Copa do Mundo de futebol e das Olimpíadas, realizada entre os dias 9 de setembro e 23 de outubro deste ano, na Nova Zelândia. Hesitei um pouco ao abordar o rugby neste blog, uma vez que a relação deste esporte com a questão de identificação nacional já foi abordada em diversos trabalhos, acadêmicos ou não, especialmente a partir do filme Invictus   (Clint Eastwood, 2009), que lida com a mesma competição em 1995  – como exemplo pode-se apontar as resenhas publicadas em Recorde: Revista de História do Esporte e na revista Esporte e Sociedade.

No entanto, o recente desfecho da maior competição de rugbi, com a equipe da Nova Zelândia consquistando o bicampeonato em casa, trouxe o esporte novamente à tona. Realizada de quatro em quatro anos, a Copa do Mundo de rugby é a maior competição internacional da modalidade – o rugby conta também com outras quatro competições internacionais, divididos entre os hemisférios norte e sul: a copa “Seis Nações” (Six Nations), entre Inglaterra, Escócia, País de Gales, Irlanda, França e Itália e a “Copa Heineken”, entre 24 equipes desses seis países, no hemisfério norte; a “Três Nações” (Tri Nations), entre Nova Zelândia, Austrália e África do Sul e o “Super 15” (Super Rugby), entre 15 equipes desses três países, no hemisfério sul.

A primeira edição da Copa do Mundo de rugby foi realizada em 1987, na Austrália e na Nova Zelândia. Na ocasião, os “All Blacks”, nome pelo qual é conhecida a seleção neozelandesa, conquistou o título em uma final contra a França. Nesta sétima edição da Copa do Mundo, a mesma final do torneio inaugural se repetiu, com a Nova Zelândia conquistando novamente o título, dessa vez com um placar mais apertado, 8-7 (contra os 29-9 de 1987). Com essa conquista, a Nova Zelândia se equiparou à Austrália e à África do Sul, com dois títulos cada, tendo a Inglaterra conquistado o troféu William Webb Ellis (nome do supostos criador do Rugby) uma vez, em 2003.

Troféu William Webb Ellis

A vitória no mundial de rugby trouxe os All Black mais uma vez para os olhares da mídia e, com eles, aparece seu maior ícone identitário, o haka. O haka é uma tradicional dança cerimonial maori (povo nativo da Nova Zelandia). Existem centenas de haka (a palavra não recebe o s no plural), sendo alguns executados com mulheres, por crianças, haka de guerra, com armas, sem armas, enfim, uma infinidade de variações e tipos, dependendo da situação. A divulgação do haka pela equipe de rugby neozelandesa levou à associação do mesmo com um tipo específico de haka, mas como se deu essa ligação?

Em 1889-1890, uma equipe de rugby neozelandesa (quase toda formada por jogadores maori), excursionando pela Grã Bretanha apresentou um haka antes de cada jogo, como demonstração da diversidade cultural que o então império britânico englobava. A princípio executariam a dança em vestimentas típicas maori, mas logo abandonaram esse pormenor. Em 1905 a seleção neozelandesa conhecida como “os originais” (a primeira a excursionar a Grã Bretanha como uma seleção oficial, recebendo o apelido de “All Blacks”) teria executado o haka “ka mate” em alguns jogos, incluindo a abertura contra a Escócia e contra a Irlanda. A partir de então, esse haka em particular se tornou um símbolo do rugby neozelandês e passou a ser executado não apenas pela seleção, mas também por equipes em jogos internacionais.

Apesar de sua aparência hostil e desafiadora, o haka “ka mate”, se traduzido, revela-se não tão assustador. Segundo contam as tradições, ele teria sido criado por um líder maori após ter escapado da morte, auxiliado por um líder de outra tribo. Uma tradução livre do haka (feita a partir da tradução para o inglês disponível no vídeo “Ka mate explained”) seria: “Vou morrer? Vou morrer? Vou viver? Vou viver? Esse homem cabeludo acima de mim me ajudará a ver a luz do sol novamente? Um passo fora do buraco, o segundo, o terceiro, o quarto. Eu vi o sol brilhar novamente.”

Em 2005 o haka “Kapo o Pango” foi criado especialmente para os All Blacks. Versando sobre os guerreiros de camisa negra e a pena prateada, o haka foi alvo de grande debate devido a seu gesto final, em que o polegar atravessa o pescoço, de modo muito similar ao sinal de degola. “Kapo o Pango” chegou a ser proibido pela International Rugby Board (IRB, a federação internacional do esporte) durante alguns meses. Mas a explicação oficial, de que o gesto teria um significado diferente junto à cultura maori, expressando a energização dos órgãos vitais e o sopro da vida, acabou prevalecendo e o gesto foi aprovado, sendo este haka utilizado em jogos especiais, como na final do campeonato mundial.

Apesar de estar profundamente ligado à equipe neozelandesa, em mais uma evidente tradição inventada ligada ao esporte, o haka não é exclusividade dos All Blacks. Outras equipes polinésias também executam um haka antes de seus jogos, chegando até a haver um duelo de haka em algumas ocasiões, como entre Nova Zelândia e Samoa, no vídeo abaixo.

O haka neozelandês é então uma figura fácil na publicidade, estrelando comerciais da adidas (patrocinadora dos All Blacks) ou mesmo com um flash mob para a divulgação de um canal de TV maori que transmitiria os jogos da copa do mundo.

Rugby, o jogo nacional neozelandês, tem assim uma ligação especial com as supostas raízes do país. O rugby seria visto como um jogo que desde cedo fora adotado pelos maori, uma vez que seria um palco preferencial para a demonstração de sua força, agilidade e destreza. Aí estaria a chave para se entender a superioridade neozelandesa no esporte. E o haka seria uma demonstração pública da ligação desta seleção com suas raízes locais, ao mesmo tempo em que levaria a cultura maori ao resto do mundo, se tornando embaixadores da mesma. E, é claro, é uma das principais demonstrações de identidade do país, sendo executado também em outros esportes, como o hóquei no gelo, sem ter, no entanto, o mesmo impacto.

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