Eça de Queirós e o esporte

Por Victor Melo

Eça de Queirós é um gigante, um dos maiores autores não só da língua portuguesa, como da literatura universal. Tenho tido o prazer de me debruçar sobre sua obra para discutir suas representações de esporte. O post de hoje é dedicado a apresentar um pouco da presença da prática em uma de suas obras mais notáveis: Os Maias.

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Os Maias, lançado em 1888, é a história trágica de três gerações de uma família da elite portuguesa, cuja fortuna vinha da posse de terras e de heranças, tendo como pano de fundo um retrato cáustico do país. Ainda mais do que os anteriores e igualmente celebrados O Crime do Padre Amaro (publicado pela primeira vez em 1875) e O Primo Basílio (lançado em 1878), a obra procura expressar as contradições da sociedade portuguesa, inclusive no tocante à construção de um projeto modernidade.

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Capa da primeira edição de Os Maias

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            Algumas práticas esportivas aparecem ocasionalmente em Os Maias, e é mesmo o turfe o mais enfocado.  Praticamente todo o capítulo X gira em torno de corridas de cavalos realizadas em Lisboa. Eça o tempo todo aborda a dificuldade de realização da atividade. No tão esperado dia do evento, o Hipódromo de Belém estava em festa, mas sua ornamentação não era das mais belas, tampouco era digna de destaque a organização. O prado é assim descrito pelo narrador:

o hipódromo elevava-se suavemente em colina, parecendo, depois da poeirada quente da calçada e das cruas reverberações da cal, mais fresco, mais vasto, com a sua relva já um pouco crestada pelo sol de junho, e uma ou outra papoula vermelhejando aqui e além (…). No centro, como perdido no largo espaço verde, negrejava, no brilho do sol, um magote apertado de gente, com algumas carruagens pelo meio (…). Para além, dos dois lados da tribuna real forrada de um baetão vermelho de mesa de repartição, erguiam-se as duas tribunas publicas, com o feitio de traves mal pregadas, como palanques de arraial. A da esquerda vazia, por pintar, mostrava à luz as fendas do tabuado. Na da direita, besuntada por fora de azul claro, havia uma fila de senhoras (…); e o resto das bancadas permanecia deserto e desconsolado, de um tom alvadio de madeira, que abafava as cores alegres dos raros vestidos de verão.

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Corridas no hipódromo de Belém - último quartel do séc. XIX - Jockey-Club. In Diario Ilustrado, Lisboa, nº1352 (1 Out. 1876), p. 1. Disponível em: http://purl.pt/93/1/iconografia/os_maias/j3001_2_1876_n1352_fic.html.

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Eça trabalha a ideia de que uma expressão das limitações sociais e culturais que cercavam os personagens, Lisboa e Portugal como um todo é o próprio fato de que a tentativa de organizar um evento esportivo mostrara-se falha, caricatural.

A saída, contudo, pelo autor apontada na trama, não é se render à emulação do que era considerado “civilizado”, mas sim investir no genuíno. As palavras de Afonso da Maia são categóricas:

– O verdadeiro patriotismo talvez, disse ele – seria, em lugar de corridas, fazer uma boa tourada (…) Pois é verdade, tenho esse fraco português, prefiro toiros. Cada raça possui o seu sport próprio, e o nosso é o toiro: o toiro com muito sol, ar de dia santo, água fresca, e foguetes…

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Praça de Touros do Campo Pequeno, uma das mais importantes de Portugal. Disponível em: http://datasnahistoria.blogspot.com

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Na obra, uma expressão dessa posição é a do marquês de Souzelas, apoiando enfaticamente as observações de Afonso:

Aquilo é que era falar! Aquilo é que era dar a filosofia do toiro! Está claro que a tourada era uma grande educação física! E havia ainda imbecis que falavam em acabar com os toiros! Oh, estúpidos, acabais então com a coragem portuguesa!… Nós não temos os jogos de destreza das outras nações, exclamava ele, bracejando pela sala e esquecido dos seus males. Não temos o cricket, nem o foot-ball, nem o running, como os ingleses; não temos a ginástica como ela se faz em França; não temos o serviço militar obrigatório que é o que torna o alemão sólido… Não temos nada capaz de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos só a tourada… Tirem a tourada, e não ficam senão badamecos derreados da espinha, a melarem-se pelo Chiado!

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José Casimiro, um dos maiores toureiros portugueses. Fonte: Occidente, Lisboa, ano XXXVI, n. 1234, 10 de abril de 1913.

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Em Os Maias o embate simbólico entre as touradas e o turfe explicita um choque de visões acerca dos projetos para o país e dos parâmetros de modernidade a serem adotados. Eça apresenta a sua visão sobre um possível modo português de experenciar o esporte. A louvação das touradas pode ser interpretada como uma crítica a uma ideia linear e monolítica de civilização moderna, típica do capitalismo burguês; como uma forma de recarnavalizar a sociedade frente ao que era imposto pela construção discursiva do ideário e imaginário da modernidade.

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