Capoeira…Olímpica?

por Vivian Fonseca

 

Em tempo de mega-eventos esportivos, a palavra olímpico virou habitué em matérias jornalísticas, conversas informais e pesquisas acadêmicas. Diante desse afã olímpico, é possível falar em capoeira olímpica?

Não é de hoje que podemos observar as aproximações (ou no mínimo tentativas de) da capoeira com a categoria esporte.  Essa relação já se via presente desde os anos 1920 e 30, quando foi publicada por Aníbal Burlamaqui uma primeira proposta de regulamentação da capoeira nos moldes esportivos e diversos intelectuais e setores militares tentaram qualificar a capoeira como ‘esporte nacional por excelência’. No entanto, foi ao longo das décadas de 1960 e 70, que essa ação se intensificou. Nesse momento procurou-se dar ênfase ao tipo de Capoeira-Esporte, buscando enquadrá-la nos preceitos de uma modalidade pugilística e percebendo o capoeirista como atleta.

Nesse sentido, a capoeira foi oficialmente reconhecida como esporte em 1972 e, nesse mesmo ano, foi proposto um Regulamento Técnico para ela. A ideia de Capoeira-Esporte se propunha a ter repercussão nacional, mas, à medida que Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia colocavam-se como os principais eixos da capoeiragem no Brasil, é nesses locais que assistimos às principais movimentações contrárias e favoráveis a essa (nova) visão de capoeira. Enquanto alguns grupos posicionavam-se contra essa regulamentação, diversos capoeiristas e grupos filiaram-se à Confederação Brasileira de Pugilismo, aderindo a esse novo projeto. Nesse período tiveram início diversos modelos de competição de capoeira, tão presentes nos dias atuais, principalmente, nas Escolas de Capoeira Contemporânea. Já nos anos 1990, essas questões levaram a conflitos com os Conselhos Federal e Regionais de Educação Física. Estes alegavam que a capoeira, entendida como esporte, só poderia ser ministrada por professores licenciados em Educação Física e credenciados pelos Conselhos. O que se evidenciou, na maioria das vezes, entre os praticantes, é um movimento de resistência a essa imposição. Por outro lado, em um primeiro momento, alguns grupos e entidades estabeleceram convênio com o sistema CONFEF/ CREF. Essa é uma questão que criou um novo terreno de tensões, uma vez que dentro da capoeira não há uma visão homogênea, e cada grupo tem interesses próprios. As instâncias jurídicas responsáveis têm dado ganho de causa aos capoeiristas, observando que a capoeira é uma prática com história e códigos formadores específicos, não se adequando à definição estrita de esporte e/ ou atividade física. Apesar da visão da capoeira como cultura encontrar mais adeptos e visibilidade, alguns setores da capoeira continuam apostando na Capoeira-Esporte e, nesse sentido, buscando reconhecimento olímpico para ela.

Esse esforço vem de parte das Federações de Capoeira espalhadas pelo Brasil e, também, no exterior, ainda que em menor número.  Como uma dessas ações, pode-se citar a Rede Capoeira Olímpica, formada em 2008, que congrega 34 instituições brasileiras, como a Confederação Internacional de Capoeira, diversas Federações estaduais, Ligas, Grupos e Associações de Capoeira espalhadas pelo Brasil segundo estimativa divulgada pela própria Rede em outubro de 2011. Outra ação recente nesse sentido foi o pedido e reconhecimento da Federação Internacional de Capoeira (FICA) pela General Association of International Sports Federations (GAISF) em 2010, na qualidade de Observadora – um dos níveis de reconhecimento do Comitê Olímpico Internacional (COI). Se a capoeira seguirá a trilha de esporte olímpico, só o futuro nos dirá. Mas, por agora, fica a certeza de que a capoeira é uma manifestação plural e, como tal, abriga em seu campo diversos projetos (em disputa) para ela. Um deles, como podemos perceber, é a Capoeira-Esporte.

Anúncios

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: