O remo em Salvador

Por Coriolano P. da Rocha Junior

Embora Salvador seja uma cidade litorânea, o desenvolvimento do remo na cidade não foi “natural”, foi sim uma construção cultural. Em seu início o remo simbolizava novos hábitos e comportamentos, uma maneira diferente de olhar e lidar com o corpo, uma verdadeira forma de ser ou ao menos parecer moderno. Na prática do remo, o homem se expõe ao contato com a natureza, enfrenta desafios e busca a superação de seus limites. Além disso, em seus primeiros momentos, o remo incorporava novos significados de vivência no urbano, de convivência com pessoas, de relação com a velocidade, com tecnologias e, ainda, de aventuras, ações de vigor e de exposição do corpo. Muito por conta desses fatores, o remo era o esporte de maior apelo no início do século, atraindo um público diversificado e de variados estratos da população.

Em Salvador foram quatro os clubes que fizeram acontecer as regatas: Esporte Clube Vitória (1899); Clube de Natação e Regatas São Salvador (1902); Clube de Regatas Itapagipe (1902) e Sport Club Santa Cruz (1904), tornando-as uma atividade de importância e valor para a cidade, com suas provas sempre acontecendo na Enseada dos Tainheiros, garantindo a esse espaço um lugar na memória sentimental baiana.

O desenvolvimento do remo também contribuiu para o aprofundamento da estruturação do esporte como um todo. Foi a partir do remo que a organização esportiva em Salvador foi mais bem delineada, se percebendo a preocupação não apenas com o esporte, mas também com a cidade e sua constituição e, ainda, com a convivência social, ou seja, o remo foi uma prática esportiva que teve implicação com a própria dimensão de “recriação” da cidade.

Era comum acontecer na cidade duas grandes regatas, uma a cada semestre, sempre sob a organização de um clube ou da Federação de Regatas. O remo e suas provas sempre foram notícia nos jornais baianos, suas competições eram sempre mostradas como uma autêntica demonstração de civilidade e de seus moradores, ora com vivas, ora com críticas ao seu desprestígio.

Os jornais locais anunciavam as regatas desde a sua organização, mostrando quais seriam seus páreos, os clubes que participariam de cada um e, ainda, comentavam os cuidados gerais na organização do evento, para que tudo corresse bem e que todo o público pudesse dele aproveitar da melhor maneira. Para tanto, além da prática esportiva em si, as regatas também envolviam a participação de bandas e sinfônicas, que tinham a tarefa de entreter o público. Cada clube colocava a disposição de seus sócios e convidados um barco que tinha o papel de levar essas pessoas enseada adentro, para que de lá assistissem as regatas com maior conforto. Além disso, as areias e calçadas eram tomadas por quem queria assistir a competição ou somente desfilar pelas ruas.

Em Salvador, ao mesmo tempo em que observamos os jornais estampando matérias alusivas ao remo e as suas regatas, verificamos também matérias que apontam críticas referentes à sua estrutura, a exemplo do que traz o jornal A Tarde[1] “mais uma vez recomendamos aos que forem por mar assistir a regata de domingo vindouro, não ancorarem suas embarcações no meio da raia, nem cortarem-na na hora do pareo”.

O mesmo jornal A Tarde[2] trazia na edição de 19 de dezembro de 1912 uma interessante matéria. Nela, o jornal questionava e lamentava a não participação dos baianos no Campeonato Brasil de remo, realizado no Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que criticava dirigentes esportivos e políticos baianos pelo fato. Na sequencia, ressaltava que se tivesse havido participação baiana, teria o Brasil visto o valor de seus jovens.

Com tudo isso, podemos considerar que o remo teve grande potência como prática esportiva. Clubes e entidades reguladoras foram fundados, as regatas se transformaram em eventos significativos e de valor muito maior que o esportivo, tornando-se mesmo um marco das novas relações sociais. Todavia, em Salvador, essa prática decaiu em importância, significado e atração popular, fato que segue até hoje.


[1] Jornal A Tarde, 24 de outubro de 1912.

[2] Jornal A Tarde, 19 de dezembro de 1912.

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