“Os Trombadinhas” (1979)

 

Ana M. Nascimento e Silva, na personagem de   “Arlete:        “- Você é o Pelé?

Edson Arantes do Nascimento, no personagem de “Pelé”:       –  Não, eu sou o Jô Soares,  sua piranha!”

 

Este diálogo, na parte final de “Os Trombadinhas”, consta de uma lista no you tube, intitulada “As 10 maiores pérolas do cinema nacional”… merecidamente  (http://www.youtube.com/watch?v=bmg026ejP7k&feature=player_detailpage).  E não é o único atrativo desse filme de 1979, dirigido pelo insuspeito Anselmo Duarte. Trata-se, inclusive, de seu último longa metragem. A bem da verdade, muitos acham que não se trata de um desfecho de ouro na brilhante carreira do ator/diretor que, nada mais nada menos, é o ganhador do maior prêmio já recebido por um filme nacional, a Palma de Ouro de Cannes, pelo Pagador de Promessas, de 1962. Opinião por opinião, lá vai a minha: é imperdível!

Não se trata de um ‘puta’ filme… longe disso. Mas 32 anos depois, essa fita ganha traços de registro histórico, elementos de saudosismo e um charme cômico impagável. Para além da antológica sequencia acima resumida, outras tantas merecem destaque na galeria de passagens memoráveis do nosso cinema. E a história?  Pueril e às raias do non sense.

Um empresário, vivido por Paulo Goulart, encontra-se num carro que atropela um jovem meliante em fuga, um trombadinha. A partir daí o empreendedor assume a causa desses meninos. Após diálogos inverossímeis com um juiz e policiais, resolve escalar Pelé para ajuda-lo na tarefa; mas como assessor da policia!!  Edson Arantes, interpretando Pelé, passa a acompanhar “Bira”, personagem do ator Paulo Vilaça, o qual vira seu ‘parceiro’ de rondas e perseguições. Já na primeira carreira atrás de um suspeito, Pelé se vê frustrado pela agilidade do pequeno assaltante. Pelé não jogava mais, tinha acabado de voltar do Cosmos (o que é mostrado no início da produção), portanto, admite que já “não está em forma”. Nesse momento há um corte para uma sequencia na qual ele volta a treinar… para poder dar conta de alcançar os ágeis trombadinhas!

É isso, o filme é um “policial”, no qual o rei do futebol coloca todo o gênio que desenvolveu nas quatro linhas a serviço da polícia, em nome da causa da salvação das criancinhas. É um filme com tese social. O problema, como defende o rei, não são as crianças, mas os verdadeiros criminosos, adultos, que as exploram. Dentre essas figuras surge um intermediário do varejo, o seu “Manteiga” (Sergio Hingst), e um grande empresário, Renato (Francisco Di Franco). Ambos acabam mal, por conta da ação detetivesca e heroica do craque. Seu manteiga é uma espécie de versão paulista do velho Fagin, o líder do bando de delinquentes juvenis da história de Oliver Twist, escrita por Dickens, ao fim da primeira metade do XIX.

            Há, como mencionamos, indeléveis traços de época. Todos, quase literalmente, usam calças boca larga; referir-se a Pelé como “negão”, a um de seus pupilos negros de “zulu’, a um outro de “crioulinho’ ainda não era politicamente incorreto. A menção velada, mas inequívoca ao comércio de cocaína é verbalizada de forma, hoje, ridiculamente cifrada. Renato, o vilão mor convida um empresário ganancioso e inacreditavelmente ingênuo a “diversificar” seus negócios:

“- Bota pó nessa jogada que você vai logo ter mais capital! (…)

Talco, pó de arroz…”

Esse era um negócio mais sério, só para os bandidos “barra pesada”. A película inclui ainda sequencias de perseguição em carros e hilárias cenas de briga. Nestas, Pelé faz um misto de lutador de Kung fu e Homem de seis milhões de dólares (a referência a essa série da década de 1970 parece clara demais; desde as sequencias de saltos e “dribles” em câmera lenta   – o maior recurso técnico de então para ilustrar as habilidades biônicas do personagem Steve Austin-,   ao modelito usado por Pelé, um conjunto bege, que é a cara do guarda roupas do ciborgue americano).

Pelé, o empresariado consciente, a polícia (devidamente reforçada pelo detive/jogador), fazem sua parte. Mas é preciso mais. Apesar da boa vontade desse escrete do bem, o problema persistiria, como é explicitado na última tomada.  Haveria muitas explicações para essa permanência, mas fico com aquela que remete à densidade intelectual dos perpetradores do escuso negócio de exploração de menores, ilustrada nesse diálogo:

Gibi (bandido concorrente de Manteiga):   “ – [Arlete] tinha um encontro comigo e nem deu sinal [já estava presa].   O manteiga deve ter armado uma arapuca pra ela!

Bandido 2:   – C´est la vie,  c’est la vie, mon chéri!.

Gibi: – Para com essa merda de inglês!

Bandido 2: – Não é inglês, seu burro! É alemão!”.

 

Se não der vontade de ver o filme depois disso, me demito-me desse blog,  entende?

Grande abraço; bom natal e fim de ano para todos!

 

Fontes:

http://www.meucinemabrasileiro.com/filmes/trombadinhas/trombadinhas.asp

http://seriesedesenhos.com/br2/br2/index.php?option=com_content&view=article&id=2533&Itemid=68

http://terrivialidades.wordpress.com/2011/06/20/os-trombadinhas-1979-um-manifesto-ideologico-sobre-a-delinquencia-juvenil-na-sociedade-contemporanea-e-o-pele-policial/

http://www.revistazingu.net/2011/10/os-trombadinhas-2

Consultadas  em 04 12 2011.

Anúncios

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: