Futebol e literatura: O templo dos encontros

 

Por Edônio Alves

Para o brasileiro que ama futebol, esses dois meses que formam o interstício que vai de uma temporada a outra, no calendário das disputas da bola pelo País afora, são como que um período tedioso em que a alegria de ir aos estádios é substituída pela ansiedade de que tudo comece novamente. Ou seja: que a bola role de novo e que o time de cada um de nós possa, no novo ano que se inicia, recuperar o tempo perdido e fazer uma campanha digna do título nacional ou da conquista da tão desejada taça mundial.

         Este é um período, por assim dizer, em que começamos a sentir saudade do clima dos estádios; da alegria de encontrar os amigos para vermos juntos as atuações do time do coração; da festa que é, para o brasileiro, o campo de futebol às quartas-feiras e domingos do Brasil.

         A literatura, arte através da qual analiso a também arte do futebol, tem o condão de pautar várias questões que dizem respeito ao homem-torcedor; aquela pessoa que tem no futebol um grande motivo existencial.      Sendo assim, trago a seguir – para os seguidores deste nosso blog esportivo – uma pequena análise de um conto que versa sobre o lugar desses encontros em que a magia do jogo da bola aos pés nos encanta e vivifica.  Boa Leitura.

 ***

 Estádio

 Autor: Antonio Barreto

Através de uma mímese direta, sustentada basicamente por diálogos (o que naturaliza e presentifica a situação evocada), vozes e sons ambientes de várias espécies, este conto narra o ambiente e o clima de um dia de jogo importante num estádio de futebol, num domingo qualquer do Brasil.

A partida é entre o Clube Atlético Mineiro, o Galo das Minas Gerais, e o Flamengo do Rio de Janeiro, e o que faz justificar seu título, Estádio, e a sua proposta narrativa, são as diferentes situações justapostas pelo narrador, que se coloca como uma câmera de TV, ou melhor, um microfone de áudio que, a partir da sua movimentação pelo espaço físico dentro e ao redor do Estádio, tudo colhe e espalha, compondo a típica paisagem humana que se forma nos domingos de futebol pelo Brasil afora.

O pano de fundo da narrativa é contar a história de um pai que leva o filho a um jogo de futebol junto com as possíveis implicações que esta experiência, a princípio lúdica, pode trazer para a vida de um cidadão comum desta nação do futebol. Todavia, o que se quer mesmo (e talvez aqui esteja condensada toda a cota de criação do seu autor, o escritor Antonio Barreto, neste seu intento ficcional sobre o tema) é montar, a partir desse pequeno plot narrativo, um extenso painel do mundo dos estádios de futebol em dias de jogos.

Para tanto, a narrativa começa em terceira pessoa apenas no parágrafo inicial e descamba em seguida para a mímese direta, mais apta, conforme a estratégia do autor, a formar na mente do leitor as imagens evocativas do objeto em descrição.

“Pai e filho. Mar de gente querendo entrar. Mar de cambistas. Mar de autoridades. Mar de bandeiras e torcidas organizadas. Mar de pivetes. Mar de camelôs. Mar de guardadores. Mar de assaltantes. Mar de polícia. Mar de meninos e mulheres. Mar de churrasquinho, cachaça e cerveja. Mar de esperanças. A frase pichada na parede da bilheteria: Futebol é o ópio do povo. E o alto-falante: Atenção, senhor Jéferson Macário Ribeiro de Araújo, seus documentos foram encontrados. Favor comparecer urgentemente ao saguão principal, na seção de achados e perdidos…”.

Pronto! A partir deste ponto, o leitor acompanha numa síntese condensada de imagens e sons, um sem número de situações prototípicas da condição, eventual, provisória – ou mais estável, definidora do seu lugar no mundo social – do homem dos estádios, aquele que no dizer de Ivan Ângelo, “não está sozinho, não é um, é parte, pertence a uma irmandade, é cavaleiro de uma ordem que tem cores, brasão e bandeira”.[1]

“Quer que olhe o carro, doutor?”

Este diálogo-síntese (diálogo porque pressupõe um interlocutor que a este pedido responde, mesmo que com o silêncio) dá o mote para o desfecho da pequena história – no meio de tantas outras sugeridas pelo interior do texto – do pai que leva o filho para o jogo de futebol no estádio.

“Olha lá! O time tá inteirinho, ta completinho! Um dia cê me leva pra ser mascote, pai, que nem aqueles meninos lá? Aquilo é tudo filho da gente granfina, filho, diretores do time, sabe como? Não é pra gente pobre que nem nós não, né pai? Isso aí, filho. Cê fechou bem a porta da Brasília? Fechei pai, já falei.

O desfecho dessa história num país como o Brasil é, talvez, bastante previsível, embora não o seja o encaminhamento dado para ela pelo narrador deste conto razoável sobre futebol escrito por Antonio Barreto. Talvez mais do que o desfecho em si importe mais a condição do micro-universo social representado pelo estádio de futebol que brota da do seu entrecho, da articulação das muitas outras histórias paralelas que o autor faz desfilar a partir desta outra, e de mais outras, e de mais outras…até o ponto final.

“Por que você disse pra soltar o homem, pai? Olhei nos olhos deles, filho. Não é bandido não, eu conheço. Conhece como, pai? Um dia te conto filho. Eu também já fui… Vamos voltar pro jogo, vamos? E a Brasília, pai? Depois a gente resolve isso… E a volta a pé pra casa, pai? Volta, mas se quiser, pode subir nas minhas costas. Posso? Pode. Posso gritar, pai? Pode filho: Paiêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêê”.

 A OBRA:

Para ler o conto, Estádio, na íntegra, ver: Contos Brasileiros de Futebol, organizada por Cyro de Mattos, e publicada pela Editora LGE de Brasília, em 2005.

O AUTOR:

Antonio de Pádua Barreto Carvalho nasceu em Passos (MG) em 13 de junho de 1954. Reside em Belo Horizonte desde 1973. Morou também em algumas cidades do Oriente Médio, onde trabalhou como projetista de Engenharia Civil, na construção de estradas, pontes e ferrovias. Tem vários prêmios nacionais e internacionais de literatura, para obras inéditas e publicadas, nos gêneros: poesia, conto, romance e literatura infanto-juvenil. Participa também de várias antologias nacionais e estrangeiras de poesia e contos. Foi redator do Suplemento Literário do Minas Gerais, articulista e cronista do jornal Estado de Minas e da revista “Morada”, de Belo Horizonte. Colabora com textos críticos, poemas e artigos de opinião para “El Clarín” (Buenos Aires), “Ror” (Barcelona); “Zidcht” (Frankfurt), “Somam” (Bruxelas), entre outros periódicos. Atualmente coordena a coleção “Para Ler o Mundo”, da Editora Scipione, São Paulo, cujo objetivo é criar condições de recepção e produção de textos verbais e não-verbais, de diferentes gêneros e esferas de circulação, visando atender às necessidades lingüístico-discursivas dos alunos do ensino médio brasileiro. Publicou, entre outros, os seguintes livros: O sono provisório (1978) e Vasta fala (1988), de poesia; Os ambulacros das holotúrias (1990) e Reflexões de um caramujo (1993), de contos, além de A barca dos amantes (1990) e A guerra dos parafusos (1993), romance.


[1] Está observação provém de uma frase inclusa no conto-crônica, O homem do Maracanã, deste autor, e está publicado na coletânea, A vez da bola: crônicas e contos do imaginário esportivo brasileiro, que inclui nomes de escritores-jornalistas como Lourenço Diaféria e Daniel Piza, e foi editada pela Companhia Editora Nacional, de São Paulo, em 2004.

 

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