Os caçadores de “players” suburbanos: o celeiro de craques

Por Nei Santos Junior

         No dia 5 de abril de 1919, a Gazeta Suburbana publicou na coluna “Dizem…” um fato que perseguia as agremiações da periferia da cidade: os “caçadores de players” suburbanos.

         Formado por representantes da Liga Metropolitana, esses indivíduos atraiam os jogadores da região com a promessa de emprego e algumas regalias, enxergando nos jogadores da zona suburbana a oportunidade de fortalecer as suas equipes. Para o historiador João Malaia, com a popularização do futebol, jogadores da zona suburbana começavam a se destacar em clubes menores, passando a despertar interesse das grandes agremiações dos bairros da zona Sul, aqueles clubes com potencial para lotar os estádios e ter rendimentos anuais na casa de centenas e milhares contos de réis [1].

         Com a entrada dos players suburbanos nos jogos da Metropolitana, os órgãos da “grande imprensa” carioca começavam a destacar essas transformações, como apontou o cronista d’O Imparcial:

 Para os sportsmen que entendem que a entidade suburbana não preenche os fins progressivos do desenvolvimento sportivo da nossa terra, como de quando em vez se propala nas rodas desportivas, levamos ao conhecimento daquelles que de facto se interessam pelo progresso do football, o escandaloso caso de suborno, de vantajosas promessas de bons empregos, de gordas gorjetas que estão sendo postas em prática aos jogadores da Suburbana para se filiarem aos diversos clubes das três divisões da Metro.
Já sobe a numero superior de 20 players que se transferiram com malas e bagagem para a entidade da Rua Buenos Aires.
E depois digam que a Suburbana não é o celeiro da Metropolitana [2].

          A transformação da Liga Suburbana num “celeiro” [3] de players para a Metropolitana colocava em xeque os valores morais tão apreciados pelos clubes dos bairros chics da cidade. Lentamente, esses jogadores, fruto de um “escandaloso caso de suborno”, apareciam ano após ano em clubes de equipes consideradas pequenas e, com isso, o cenário da Metropolitana ganhava novos ares. Para Malaia, a vantagem de se trazer um jogador suburbano, era que ele não mantinha qualquer vínculo com qualquer clube filiado à Liga Metropolitana e, portanto, não havia que esperar o período de um ano sem jogar, imposto pela famosa “Lei do estágio” [4].

‘C’est lla Mem chose’!”. Fonte: O Imparcial, 4 de março de 1919.

         A fim de evitar tamanho desastre, a Gazeta Suburbana se dedicava em acompanhar as ações que movimentavam esse mercado, publicando uma série de notícias sobre as transações que envolviam jogadores oriundos da zona suburbana. Logo, uma chamaria a atenção até mesmo do próprio cronista.

         Surpreso com a escalação do Vasco da Gama na apresentação do torneio “Initium”, revelando em seu team “vários elementos do Engenho de Dentro” [5], dentre eles, Nelson (Chauffer), Pederneiras e Quintanilha, os principais responsáveis pelo tricampeonato, o redator questiona: “mas será mesmo possível que esses players abandonem seu glorioso club para jogar por um club estranho a elles, como o Vasco?” [6] Espantado, o mesmo responde, “não queremos crer, mas… em todo caso… esperemos os acontecimentos” [7].

Fonte: MALAIA, J. M. Revolução Vascaína: a profissionalização do futebol e inserção sócio-econômica de negros e portugueses na cidade do Rio de Janeiro (1915-1934).

         De maneira geral, os jogadores suburbanos começavam a perceber que essa prática poderia ser um meio rentável para o seu sustento. Mesmo recebendo uma fatia mínima das rendas adquiridas com a venda de ingressos, esse indivíduo se convertia cada vez mais em um verdadeiro trabalhador urbano, servindo como objeto do espetáculo que se tornara o futebol da época.


[1] MALAIA, J. M. Revolução Vascaína: a profissionalização do futebol e inserção sócio-econômica de negros e portugueses na cidade do Rio de Janeiro (1915-1934). 2010

[2] O Imparcial, 25 de janeiro de 1919.

[3] Expressão ainda utilizada na atualidade para definir um local onde se produzem bons jogadores.

[4] MALAIA, J. M. Revolução Vascaína: a profissionalização do futebol e inserção sócio-econômica de negros e portugueses na cidade do Rio de Janeiro (1915-1934). 2010.

[5] Gazeta Suburbana, 5 de abril de 1919, p.3.

[6] Gazeta Suburbana, 5 de abril de 1919, p.3.

[7] Gazeta Suburbana, 5 de abril de 1919, p.3.
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