É carnaval! Vamos bailar!

Por Victor Andrade de Melo

Aproveitando que estamos em pleno domingo de carnaval (a essa altura devo estar perdido por algum dos blocos desse meu maravilhoso Rio de Janeiro), vou seguir a ideia de minha amiga Valéria, que no ano passado aproveitou a festa momesca para fazer um post temático.

Falarei de dança, um tema que tem me apaixonado ultimamente.

Não falo aqui da dança que se apresenta nos teatros, mas da dança de salão. Em meados do século XIX, as sociedades dançantes e os bailes tornaram-se espaços sociais muito valorizados na Corte, em um momento em que se estabeleceu uma nova dinâmica pública das diversões. José de Alencar, em crônica publicada no Correio Mercantil de 1 de outubro de 1854, ironizava:

Se os antigos, que não tinham baile, nem teatros líricos, nem concertos, nem clubes, nem corridas, e que se contentavam com algum sarau de vez em quando, inventaram os dias santos para filarem assim dois dias de descanso, nós, que temos durante a semana todo esse enorme acréscimo de trabalho imposto pela sociedade, nós que já fomos privados dos dias santos, devemos em todo o rigor da justiça lograr mais um dia de descanso, e juntar a terça-feira à segunda, a fim de poder na quinta encerrar o trabalho, com o espírito calmo e o corpo bem disposto.

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Um baile no século XIX

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Entre os cronistas, José Maria da Silva Paranhos, o futuro Visconde de Rio Branco, era o que narrava com mais entusiasmo os bailes, que, aliás, não costumava perder: era um habitué das atividades oferecidas pelos primeiros clubes recreativos que se organizaram no Rio de Janeiro, por ele citados em sua crônica publicada no Jornal do Comércio de 24 de fevereiro de 1851:

São numerosas as sociedades de baile, de dança, musicais e dramáticas que atualmente existem no Rio de Janeiro. Aí vão os títulos das que neste momento me lembram. Sociedades de baile: Cassino Fluminense, Cassino da Floresta, Recreação Campestre, Recreação Brasileira, Terpsícore, Lísia, Paraíso, Ulisséa, Sílfide, Nova Eleusina, Vestal, Fidelidade, Filo-Euterpe, Assembleia Familiar Fluminense e Amante do Recreio.

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A sede do Cassino Fluminense é a terceira da esquerda para direita. Hoje é a abandonada sede do Automóvel Club (Rua do Passeio). Do seu lado esquerdo é a atual Escola de Música da UFRJ, na época a Biblioteca Nacional

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Descrevendo com detalhes as festas dançantes, que frequentava junto com a “mais fina flor da sociedade carioca”, Paranhos chegou, certa feita, a afirmar sobre um evento promovido pela Sociedade Recreação Campestre: “Foi, no meu sentir, o mais importante acontecimento da semana”. Em outra ocasião é até mais enfático: “O baile! O baile é sempre o baile! Estas interjeições exprimem as mais sérias preocupações, os mais vivos e afetuosos sentimentos da atual sociedade fluminense”.

Para Paranhos, tais atividades eram uma expressão de uma nova forma de relacionamentos sociais, segundo seu olhar “mais democráticos”, menos marcados pelos “constrangimentos da tirânica etiqueta”. Melhor definindo: “Todas as classes aí estão representadas – as artes, as letras, a indústria, a lavoura e o comércio; o funcionário civil e o militar, grandes e pequenos, a inteligência e o dinheiro, o talento e a felicidade, o nacional e o estrangeiro”. Obviamente o cronista se refere às elites, que adotam costumes mais distendidos, frutos, inclusive, dos mais frequentes contatos na esfera pública.

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José Maria da Silva Paranhos

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Outro cronista da época, Francisco Otaviano não se mostrava tão entusiasta quanto Paranhos, mas também não deixa de reconhecer a importância dos bailes, para ele tão complexos, um “resumo de todas as ciências e artes”, que para descrevê-los bem só se houvesse um “bailólogo”. Já José de Alencar não perde a oportunidade de, junto com o registro do gosto social por tais encontros, fazer uma sutil crítica:

 Começa a estação dos bailes e dos saraus. O Campestre dá a sua primeira partida por estes dias; o Cassino nos promete uma bela noite antes do fim do mês. Teremos naturalmente, como nos anos passados, uma febre dançante. Ninguém escapará à epidemia; e até alguns malévolos espelham que o próprio ministério fará uma contradança.

Tal era a importância da dança na época, muitas escolas começaram a oferecê-la como conteúdo, por vezes até por solicitação dos pais (como o Colégio Pedro II).

Mas esse é tema para outro post.

Vamos aos blocos!! Alalaô-ô-ô-ô-ô-ô.

 

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