Slam

Por Rafael Fortes

No aeroporto de Lisboa, em janeiro, me dei conta de que terminaria mais rápido do que imaginara os dois livros que levei na viagem. “Vou comprar um Saramago, ó pá”, pensei. Só que livraria de aeroporto é livraria de aeroporto em qualquer lugar, parafraseando os Racionais. Difícil achar algo que me interesse. Achei um do Saramago, mas era um só; e caro; e pesado. Eis que, na estante de pockets em inglês, esbarro com um de Nick Hornby. E ainda por cima sobre skate… Comprei.

Faz alguns anos que admiro esse escritor inglês. Li Alta fidelidade, Um grande garoto, Como ser legal e Febre de bola. No tempo em que eu tinha a mesma mania de fazer listas de seu protagonista, Alta fidelidade figurava na dos meus livros preferidos. É, aliás, uma das raríssimas obras que li mais de uma vez. Vi e gostei muito de sua adaptação pro cinema. E, mais ainda, da teatral – A vida é cheia de som e fúria, dirigida por Felipe Hirsh. Também curti Um grande garoto (com Hugh Grant, hilário). Neste 2012 que começa (afinal, passou o Carnaval), Amor em jogo – adaptação de Febre de bola para as telas – está na programação do Cineclube Sport.

Slam é a narração, por um jovem de 18 anos, de episódios da sua vida ocorridos quando tinha 15-16 anos. Sam vive em Londres e gosta de andar de skate. Foi um filho não planejado, nascido quando sua mãe tinha apenas 16 anos. Assiste à MTV, anda com amigos, não sabe direito como se portar com as garotas. Ou seja, é um adolescente comum. Até que… Bom, não vou contar a história. Explorarei dois aspectos que me chamaram a atenção, relativos ao esporte: a) as especificidades do skate; b) a relação com o ídolo Tony Hawk.

Marcando diferenças

Logo no início, o narrador esclarece que, quando diz skating, isto não significa que estivesse patinando. A confusão é comum em inglês (idioma em que li o livro) porque a palavra designa duas ações distintas: patinar (andar de patins) e andar de skate. Sempre que o equívoco se repete, o narrador reclama que as pessoas nunca pensam no esporte skate, mas sim em patinação. Mas por que tal engano, aparentemente banal, o incomoda tanto? Difícil responder uma pergunta dessas sem entrar no terreno da psicologia barata, daquela elaborada em mesas de botequim, regada a muita cana. Bom…

Creio que a irritação do personagem remete a uma característica das subculturas relativas aos esportes radicais: a busca de diferenciação em relação a modalidades “comuns”. No caso, Sam se ofende por considerar a patinação uma atividade “inferior”, realizada por bons moços, maricas, pregos etc. (atribuições com sentido pejorativo), ao passo que vê o skate como algo cool, marginal, arriscado, inconformado (atribuições com sentido positivo).

Em um trecho antológico, disserta sobre a relação entre skate e cidade. O argumento é que os demais esportes são praticados em Londres apesar da cidade – ou seja, esta atrapalha ou impede a prática de diversas modalidades, graças ao concreto, às ruas, à poluição, aos espaços apertados etc. Com o skate, ocorre justamente o contrário: ele é praticado por causa da cidade. Neste caso, destaca-se uma característica do skate em contraposição a outros esportes radicais: ser eminentemente urbano, fazendo uso de asfalto e concreto e de equipamentos urbanos, como calçadas, praças, escadas e corrimãos.

Por fim, há uma passagem em que a diferenciação se dirige ao futebol, modalidade popularíssima na Grã-Bretanha. Sam explica que, quando pronuncia as iniciais TH, as pessoas, “que são como gado”, acham que está se referindo a Thierry Henry (jogador francês de sucesso em gramados ingleses). Lança, portanto, um olhar crítico em relação às pessoas comuns, consideradas iguais entre si, tanto por gostarem de futebol quanto por ignorarem a existência de Tony Hawk.

O ídolo

Logo à página 3, lê-se: “Eu falo com Tony Hawk e Tony Hawk me responde”. Caso o leitor não saiba, trata-se, possivelmente, o atleta mais famoso da história do skate. Na verdade, o diálogo é entre o narrador e o pôster do astro do skate que ganhou de presente da mãe. Colado na parede do quarto, o retrato tornou-se interlocutor. Aqui tenho dois comentários.

Primeiro, sobre a materialidade – para além da prática esportiva efetiva – que crianças e adolescentes (e também adultos e idosos, claro!) frequentemente  estabelecem com o esporte, aspecto geralmente pouco explorado por nós historiadores: para o garoto, o ídolo está lá, presente e disponível, em seu quarto. Isto é possibilitado pela existência de um produto (pôster) bastante disseminado entre os adolescentes de certos países (no caso brasileiro, provavelmente as figurinhas de álbum sejam o mais comum, ao menos no caso futebolístico). Para eles, parede de quarto é lugar de colocar pôster de quem se admira – quase sempre, grandes estrelas do cinema/televisão, da música ou do esporte.

Contudo, ao contrário do que pode parecer, Sam não é um adolescente sem-noção que fala com as paredes. Pelo contrário: refere-se à imagem como it (pronome usado para referir-se a coisas e objetos), como uma fotografia, como um pôster etc. Segundo o próprio, começou a falar com a fotografia após ter lido o livro Occupation: Skateboarder (Ocupação: Skatista), “o melhor já escrito” (p. 4). Não, não é o melhor livro escrito por Hawk, nem o melhor livro de skate já escrito. A coisa é séria: o garoto está seguro de que é o melhor livro jamais escrito. Ponto.

Do skate, o papo passa a incluir outros temas. Os diálogos são formados por Sam contando a Tony episódios de sua vida, ao passo que as “respostas” do ídolo são trechos de Occupation: Skateboarder, os quais o garoto tenta articular com os acontecimentos de sua própria vida.

Segundo, pra encerrar: o recurso do diálogo com o ídolo estampado num pôster me lembrou o bacana Em Busca de Eric, de Ken Loach, em que o esportista é o futebolista francês Eric Cantona (confira aqui uma resenha no blogue Futepoca) e o protagonista, um trabalhador dos correios que vive crises em todos os aspectos de sua vida.

Bibliografia

HORNBY, Nick. Slam. London: Penguin Books, 2008 [2007]. Há edição brasileira.

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