“Se eu pudesse eu voltava no tempo iaiá, só pra ver como tudo aconteceu”

por Vivian Fonseca

Ao longo do período em que realizei pesquisa de campo e produzi entrevistas de história oral com mestres de capoeira (2005-2010), uma questão se tornou recorrente nas mais diferentes linhas de capoeiragem com as quais tive contato: o passado.  Ainda que até hoje um número expressivo de mestres não tenha tido acesso ao processo completo de educação formal, grande parte deles utiliza em suas falas conhecimentos históricos para explicarem a trajetória da capoeira e, claro, deles mesmos.

Os Mestres entrevistados e igualmente os que mantive contato durante minha pesquisa, têm um conhecimento aprofundado da História brasileira, porém, normalmente esse conhecimento diz respeito aos fatos que se relacionam de alguma maneira com a capoeira. Em muitos casos, a prática ensinada por eles é colocada como a principal personagem da História do país, sendo ela, na visão de muitos mestres, por exemplo, a grande responsável pelo Brasil ter sido vitorioso durante a Guerra do Paraguai (1865-1870). Este evento aparece recorrentemente nas falas dos mestres, sendo destacado, muitas vezes, como um momento no qual a presença de capoeiras foi fundamental para a vitória brasileira na guerra. Além de estar presente nas falas dos capoeiristas, esse é um acontecimento bastante lembrado em cantigas de capoeira, que procuram ressaltar a participação heróica dos capoeiras durante o conflito.

Apesar de ser um evento mobilizado rotineiramente ressaltando-se o papel dos capoeiras na guerra, na historiografia sobre o tema a capoeira não obtém o mesmo destaque. Em grande parte, quando se faz presente a participação de capoeiras na guerra, nas palavras dos historiadores, se dá em apontamentos rápidos ou em notas de rodapé. É interessante perceber que com relação a esse evento nota-se uma dupla interpretação: de um lado, a interpretação histórica acadêmica e, de outro, a interpretação de pessoas que não participam do processo de construção da História formal e que, em muitos momentos, se vêem como herdeiros desses capoeiras que lutaram no Paraguai.

Apesar de apontar essas diferentes versões, não se pretende questionar a legitimidade de uma ou outra visão. E sim, ressaltar que se tratam de interpretações do passado, que se mostram, como todas elas, entrelaçadas com as questões do presente. Há algumas décadas, quando a capoeira começava a ganhar espaço na sociedade, mas ainda se apresentava como uma prática bastante associada à marginalidade e outras categorias pejorativas, era preciso ressaltar participações heróicas e positivas dessa prática ao longo da história brasileira. Mesmo não tendo sido feita de maneira totalmente consciente, essa reconstrução do passado tem sido operada de modo recorrente por diferentes estilos, que agregam significados distintos a ela.

Em diversos momentos, marcos históricos cruciais nas interpretações acadêmicas sobre a história brasileira são também recuperados pelos capoeiristas. No entanto, isso ocorre quando de fato há uma mudança ou uma valorização social relacionada à prática. Nesse sentido, momentos como a independência do Brasil, em 1822, não são sequer citados, pois não produziram nenhum impacto sobre a capoeira.

As interpretações do passado além de transmitidas através de gerações pelos capoeiristas, são também modificadas pelos agentes em momentos históricos e políticos diversos. Nas últimas décadas, fundamentalmente a partir dos anos 1980, pode-se assistir a uma maior relação entre capoeiristas, principalmente da Capoeira Angola, e entidades do Movimento Negro. Um capoeirista que merece destaque nessa relação é o Mestre Moraes, fundador do Grupo de Capoeira Angola Pelourinho. Moraes, a partir de finais da década de 1980 e principalmente início dos anos 1990, começa a estreitar os laços com organizações do Movimento Negro baiano, realizando cooperações em projetos sociais, tal qual o Projeto Erê, especializado no atendimento a crianças carentes. Nesse momento, a figura de Zumbi ganha destaque em detrimento da imagem da princesa Izabel e do 13 de maio. Se em momentos anteriores a Princesa era exaltada, agora se ressaltava o caráter de resistência dos negros e seu papel no processo de abolição. Esse é um deslocamento que acontece em diversos movimentos negros do país e traz conseqüências para alguns estilos de capoeira. É nesse período que é escrita por Mestre Moraes a seguinte ladainha de capoeira que é bastante elucidativa dessas questões:

A História nos engana/ Diz tudo pelo contrário/ Até diz a abolição/ Aconteceu no mês de maio/ A prova dessa mentira é que da miséria eu não saio

Viva 20 de novembro/ Momento pra se lembrar/ Não vejo em 13 de maio/ Nada pra comemorar/ Muitos tempos se passaram/ E o negro sempre a lutar

Zumbi é nosso herói/ Zumbi é nosso herói, colega velho/ De Palmares foi senhor/ Pela causa do homem negro/ Foi ele quem mais lutou/ Apesar de toda luta, colega velho/ O negro não se libertou, camarada!

(Ladainha: Rei Zumbi dos Palmares).

De maneira geral, nesse período, passa a ser comemorado o 20 de novembro em detrimento ao 13 de maio. Zumbi, assim, começa a ser visto como o primeiro capoeirista que se tem notícia. O Quilombo de Palmares transforma-se, rapidamente, em um local relacionado, para algumas vertentes de capoeira, com a origem da prática. Apesar dessas mudanças, nos últimos anos o 13 de maio voltou a fazer parte de diversas comemorações em grupos de capoeira. No entanto, essa, como o 20 de novembro, não são datas tão hegemônicas, não encontrando eco em todos os grupos e vertentes.

Anúncios

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: