Touradas em Salvador

Por: Coriolano P. da Rocha Junior

             A tourada, uma prática conhecida e de importância na Europa desde muito tempo, notadamente na Espanha e em Portugal (ainda que com diferenças em sua organização), também se organizou por terras baianas.

          Na atualidade (ao menos brasileira), as touradas não são classificadas como esporte e sofrem perseguições de entidades protetoras de animais e órgãos de justiça. Todavia, entre meados do século XIX e o início do século XX, a tourada foi sim uma atividade de interesse para o público.

             No Brasil, as touradas foram realizadas desde o período colonial e eram presença efetiva nas festas públicas, como as promovidas pela corte. Ott (1955) e Silva (1957), ao tratarem de Salvador, apresentam as mesmas observações sobre a presença das touradas: existiam desde o império e faziam parte das festas, acontecendo em praças que eram, naquele momento, sítios importantes e de convivência das pessoas.

         Segundo Silva (1957): “tauromáquia, antiquissima em nosso meio, porque praticada desde os primeiros tempos desta cidade, representou assim e durante três centúrias seguidas, o seu principal divertimento” (p.17). Como exemplo disso, o Correio de Notícias[1] trazia a seguinte nota: “esta sociedade philarmonica vae realisar amanhan beneficio com uma tourada no Derby-Club do Rio Vermelho”.

           As críticas às touradas como práticas de diversão ganhavam peso na mesma medida em que crescia nas cidades um apelo à modernidade. Dessa forma, dentro desse processo ambíguo de constituição da modernidade e diante de resistências, em Salvador, as touradas continuaram a existir, contando inclusive com a presença feminina, na platéia ou na condição de toureira[2].

a senhorita Josefa Mola, intreída e sympathica toureira, mais conhecida, nos redondéis como hespanhóes, portuguezes, mexicanos e do sul da República por La Pepita. A notícia da estréa da senhorita Josefa Meola e a promessa de attrahentes sortes, feita nos cartazes, levou ao redondel do Largo de Nazareth animadora e selecta concorrência, no domingo último. Desta feita, bem no meio do sol havia um claro enorme e a sombra regorgitava de sombrinhas e sombreros, de cores e feitios diversos, predominando, porém, os tons claros e o indefectível matiz da moda – violeta. [..] Pouco depois, saia o 1º touro, portuguez, para o diretor da praça, que o aproveitou com boa arte, cravando quatro ferros largos, dos quaes 3 muito bem citados e rematados. A fera foi bem recebida por um bom salto de vara pelo Angelo. […] Afinal, para que o animalejo não recolhesse ao touril sem um pallitos, Minuto, que capeava para a corajosa Pepita, poz-lhe um par de bandarilhas, muito regulares e deixou-o ir, pinoetando, de bocca escancellada e língua pendente… Substitui-o um outro, ligeiro, que não queria cumprir, a despeito dos esforços da Senhorita Josefa Mola e que entretanto achou geito de colher a sympathisada matadora junto da trincheira, lançando-a por terra e pisando-a. Soccorrida, num segundo, pelo Minuto, e por outros peões, volveu a lide, cravando bom par de ferros na fera e executando a sorte, muito limpa, da morte simulada[3].

          Outro exemplo é:

o redondel do Largo de Nazareth alindou-se para a festa do sempre querido Club de Natação e Regatas S. Salvador; e mui acertadamente, porque raríssimas vezes apanhará tamanha concorrência. Feitas as cortezias, o sr. Major da Joaquim da Costa Freitas, que servia de intelligente, ordenou a saída do 1º touro, portuguez, para o cavalleiro Adelino Raposo, que, offerecendo a sorte ao Presidente da Federação e do S. Salvador, cravou com arte 4 ferros, sendo que o último, curto de palmo, arrancou prolongado palmeio á assistencia[4].

          Ainda, Silva afirma que ” Pessoas existem entre nós e não poucas que presenciaram touradas entre 1904 e 1908 no Largo de Nazaré num campo situado nos fundos do atual Ginásio São Salvador e possivelmente no Largo do Barbalho (1957, p.22)[5]“.

          Vemos então, que quando a cidade procurava se modernizar, a tourada – prática associada a valores considerados “atrasados” e identificados com a ideia de um Brasil colonial, por possuir características rurais e fazer uso de animais –, existiu e teve relevância. A tourada, mesmo representando o “velho” e antiquado tinha apelo popular e também era de interesse das elites rurais. Assim, a tourada foi uma prática que por muito tempo foi uma prática cultural importante na cidade.

Referências:

OTT, Carlos B. Formação e evolução étnica da cidade do Salvador – Tomo I. Salvador: Prefeitura Municipal de Salvador – Tipografia Marú Editora, 1955.

SILVA, Alberto. A cidade do Salvador: aspectos seculares. Salvador: Livraria Progresso Editora, 1957.


[1]Correio de Notícias, 15 de julho de 1898, p.1.

[2]Revista do Brasil, 15 de março de 1908, ano II, n. 12, p.28, 15 de abril de 1908, ano. II, n.14, p.24 e 30 de abril de 1908, ano III, n.15, p.9.

[3]Revista do Brasil, 15 de março de 1908, ano II, n. 12, p. 28.

[4]Revista do Brasil, 15 de abril de 1908, Ano II, n. 14, p. 24.

[5]Matérias em jornais também trazem o Derby do Rio Vermelho como um local de touradas neste período.

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