Volver a vivir (Mario Camus, 1968)

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            Boa noite caros leitores!

Hoje vamos falar de um filme com um perfil um pouco diferente da maioria dos que temos visto por aqui. Nessa nossa coluna em que vimos mesclando produções brasileiras e espanholas de filmes que abordam o futebol, temos nos deparado mais com documentários e/ou filmes com grande viés cômico[1]. Volver a vivir, de 1968, está mais para um drama e até um dramalhão.

Nesse sentido se aproxima mais de uma outra produção, do ano imediatamente posterior, e  já vista por nós aqui. Lembram-se de “La Vida sigue Igual”, de 1969, estrelada por Julio Iglesias? (ver post do dia 24/10/2010). Aliás, a ideia básica seria agrupar esses dois textos fílmicos, de um lado, e as fitas espanholas a seguir, de outro: “Cero siete com el dos delante” (1966), “Las Ibéricas” (1971  – também já comentado aqui  – 17/01/2011) e “la Liga no es cosa de hombres” (1972). Explicarei isso melhor nas próximas publicações, que devem apresentar essas duas outras comédias hispânicas. Mas, detenhamo-nos na película de hoje.

Volver a vivir trata-se de película com um enredo que versa sobre uma nova chance. Luís Rubio, personagem vivido pelo ator Raf Vallone, é um jogador de futebol de passado glorioso e de presente decadente. Após uma passagem vitoriosa no futebol espanhol no qual chegou à seleção, o mesmo viaja para a América do Sul, torna-se treinador de sucesso, mas se vê abatido por uma tragédia pessoal: o suicídio de sua esposa. Saindo de uma temporada em um hospital psiquiátrico, escreve a um amigo no velho continente e retorna, como treinador de seu primeiro clube, o qual se exaspera para voltar à divisão principal. Todas suas esperanças são colocadas no antigo ídolo. Essa história, aliás, é contada por esse amigo-narrador.

A partir do regresso de Rubio, a dinâmica é centrada em uns quatro pontos principais, a saber: nos treinamentos dirigidos pelo ex-jogador (cuja habilidade em campo demonstra o quanto Vallone devia ser bom ator e limitado double de jogador); pela ascensão, com dificuldades, da equipe; com a marcação cerrada de um aborrecido cronista desportivo (Andrés Medina, personagem de Luís Peña) e com o envolvimento de Rubio com a bela Maria, vivida por Lea Massani. Apesar do enlace romântico de Luís e Maria se evidenciar logo na primeira sequencia em que ambos contracenam, a moça é casada com um dos dirigentes contratantes do velho craque. O novo nó da tentativa de soerguimento de Luís está desenhado.

Ao voltar ao seu mundo, o mundo do futebol, Rubio tem pois uma nova chance. Com o sucesso antevisto pelas primeiras vitórias, tudo indica que o ex-jogador dará a volta por cima, já sendo cotado inclusive para dirigir times do primeiro escalão. Não obstante, como da primeira vez, um percalço, de saias, pode por tudo a perder. E é o próprio personagem de Rubio que se descontrola e, não aguentando a inconstante presença de sua amada (dirigente de futebol, segundo Maria, fica muito ausente, mas às vezes aparece, né…) quase põe seu futuro a perder, caindo na depressão e no relaxamento de seus deveres profissionais. No final, Rubio, amorosamente frustrado pela impossibilidade do desenvolvimento de sua relação com Maria, joga tudo na última e definitiva partida do clube frente ao qual já foi até demitido. 

De cara, eu faria algumas ilações (já que não estamos em um ambiente jurídico não creio que faço mal). Primeiramente eu ligaria essa obra a um conjunto literário e cinematográfico romântico, de alusão a um certo caráter apaixonado do espanhol ou de uma suposta hispaniolidad. “Os Amores de Carmem” (1948, Charles Vidor), baseado em conto de Prosper Mermimé e imortalizado pela performance de Rita Hayworth, consiste em realização maior desse tema no cinema.

Em segundo lugar eu retomaria, como hipótese de teste, a ideia que sugeri para “La vida sigue igual” (1969). Naquela oportunidade coloquei a pergunta se a retomada da vida de Iglesias (após acidente que quase o deixou paralítico para sempre) não se coadunava com as expectativas/anseios de toda uma nação, a qual talvez precisasse passar uma borracha na tragédia familiar da secessão civil e, aproveitando o crescimento e novos graus de intercâmbio turístico, cultural e econômico vivenciados pelo país, seguir com a vida, de maneira confiante no futuro[2].  Dessa forma o futebol, o ex-boleiro, o time de terceira divisão que precisa ascender urgentemente (o personagem, representado pelo ator Carlos Otero, que faz Moro, um outro ex-jogador relegado ao esquecimento e aos cuidados com o estádio do time e que é recuperado como auxiliar técnico por Luís Rubio) constituir-se-iam em metáfora nacional. 

O caso amoroso de Rúbio aparentemente é interrompido, com pesar para ambos os lados, mas a vitória do clube e o reconhecimento expresso na sequencia final, é compensador. Mesmo demitido o (ex) técnico é carregado nos ombros por jogadores e torcedores e sob a vista amorosa e orgulhosa de Maria, parecendo fazer juz às palavras do protagonista, o qual, no início da arrancada, afirmava: “Yo tengo fe en el porvenir” e brindava por tudo, mas principalmente por “volver a vivir”. 

Obs:  A foto acima não é a do seu blogeiro dileto, mas sim a do diretor Mario Camus, espanhol, nascido em 1935 e diretor, dentre outras várias obras, do filme acima.  Como não achei imagem da criatura, coloquei a do criador.


[1] Venho fazendo isso por conta de trabalho de doutorado que venho desenvolvendo junto ao Laboratório de História do Esporte  (http://www.sport.ifcs.ufrj.br/) que tem como base a análise comparativa entre filmes brasileiros e espanhóis que envolvam o tema  futebol, entre 1964 e 1975, ou seja, entre dois períodos de regimes ditatoriais

[2] Entre 1961 y 1974, a taxa média de crescimento do PIB espanhol foi de 7%, somente superada pelo Japão; período também lá conhecido como o de um “milagre” espanhol SEIXAS, Xosé Manoel Núñez. La España de Franco. Madrid, Cuadernos Historia 16, n. 51,  s/d. Pag. 07.

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