Valentes corredores de Goiânia

Cleber Dias

cag.dias@bol.com.br

O brasileiro é louco por carros, consagrou certa vez a propaganda de uma produtora de combustíveis. Mas em Goiânia, além dos carros, o pessoal é louco por motos. Nos horários de rush, tivesse vacas e elefantes, o trânsito da cidade pareceria o de Nova Déli.

Segundo dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres, a ANTT, a capital de Goiás conta mais de 10 motocicletas para cada 100 habitantes. São Paulo, que reúne a maior frota de motocicletas do Brasil em termos absolutos, conta apenas, em números relativos, 4 motocicletas para cada 100 habitantes. Talvez por isso, Goiânia é uma das cidades em que mais cresce o número de acidentes fatais no trânsito, onde 70% deles têm motociclistas envoldidos; somado, é claro, à imprudência absurda de muitos desses moto-condutores.

Precariedade do transporte público, crescimento da capacidade de consumo da população e oferta abundante de motocicletas no mercado de compra e venda são provavelmente alguns dos fatores a explicar a crescente frota de motos em Goiânia. Todavia, costumes históricos poderiam também ter concorrido para tamanha predileção?

Goiânia foi construída para ser uma cidade moderna. Na esteira da Revolução de 30, políticos mudancionistas – como se chamavam os partidários da transferência da capital goiana – opunham-se a tudo que pudesse simbolizar o velho, ao mesmo tempo em que celebravam tudo que pudesse representar o novo. Com a construção de Goiânia, queria-se mesmo “uma capital acessível, que irradie progresso e marche na vanguarda”, dizia Pedro Ludovico, em relatório de 1933, quando era Interventor Federal de Goiás e principal articulador da construção da nova capital. E o esporte seria um dos elementos para a realização deste desejo de modernidade.

Em meados da década de 1930, à época da transferência da capital goiana, os chamados “circuitos de Goiânia” foram um dos principais, se não o principal evento esportivo da nova cidade. Em 1938, um ano depois do lançamento da pedra fundamental da cidade, jornais goianos já noticiavam que “as grandiosas corridas de bicicletas e motocicletas” estavam despertando “a mais viva ansiedade”. Segundo noticiava-se, “as apostas se cruzam, o numero de inscritos para as diferentes provas já atingiu a uma elevada proporção, começam a chegar competidores e torcedores de fora do Estado e dos diversos municípios vizinhos”.

Largada da prova da cidade de Goiânia (1944). Fotografia de Silvio Berto. Acervo do Museu da Imagem e do Som de Goiás.

Tais “festas esportivas” contavam também competições de futebol, “bola ao cesto”, corrida a pé, de bicicletas, jumentos, cavalos e velocípedes (para crianças). As corridas de motocicleta, no entanto, constituíam “o ponto de maior atração”, realizadas, pois, “num ambiente de delírio e incontido entusiasmo por parte da numerosa assistência”, calculada às vezes em mais de doze mil pessoas.

Organizadas pelo Departamento de Propaganda do Estado, as corridas de moto, que registravam a presença de competidores de Goiás, São Paulo e Minas Gerais, dividam-se, basicamente, em três categorias: motocicletas de motores leve, médio e pesado. As competições desta última eram as mais aguardadas e tinham as maiores premiações em dinheiro (quando as tinham). Paulo Franco, “destemido volante de Uberlândia”, era um dos maiores heróis esportivos da época. Com “façanhas incríveis”, Paulo Franco arrebatava o público, era o mais aclamado e conquistava para si toda a torcida, independente se ganhasse ou perdesse. Em 1939, noticiava o jornal Correio Oficial, “o valente corredor brincou com a vida, movimentando sua maquina vertiginosamente, a ponto de, por diversas vezes, ter a mesma abandonado a pista em carreira incontida”. Em outro trecho da prova, “devido a uma ligeira elevação do terreno, o seu motor precipitou-se num salto de mais de dez metros, continuando na mesma velocidade. Foi fantástico”.

Em 1941, essas corridas já se configuraram como “uma pequena tradição”. Segundo os jornais da época, “essa prova esportiva vem, de ano para ano, se revestindo de maior interesse e se tornando mesmo tradicional”. De fato, durante muitos anos, as provas de motociclismo continuaram a ser a “atração máxima” do calendário esportivo da cidade, “dando um movimento desusado a Goiânia”.

Corrida de motos na Praça do Bandeirante, atual praça Atílio Correia Lima, esquina da Avenida Goiás com Avenida Araguaia (1961). Fotografia de Alois Feichtenberger. Acervo do Museu da Imagem e do Som de Goiás.

Corrida de motos na Praça do Bandeirante, atual praça Atílio Correia Lima, esquina da Avenida Goiás com Avenida Araguaia (1961). Fotografia de Alois Feichtenberger. Acervo do Museu da Imagem e do Som de Goiás.

De maneira bem menos nobre e glamourosa, quase se pode ver a tradição motociclista de Goiânia até os dias de hoje. Pseudo-herdeiros dos valentes motociclistas de outrora cruzam as ruas da cidade, brincando perigosamente com a vida deles e de outros, só que agora sem torcida, sem aplausos, sem heroísmo. Agora, o único prêmio que pode oferecer-lhes, na melhor das hipóteses, é um passeio em ambulâncias do SAMU.

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