A arte de jogar e a arte de narrar

Por Edônio Alves

O futebol é um jogo (para não dizer uma arte) visceral. Tanto para quem joga quanto para quem aprecia. A arte de narrar idem; embora tal envolvimento nesse campo, por parte do escritor, seja bem mais contundente do que para o leitor, que o aprecia. Em sendo assim, tanto jogar quanto narrar exige do seu participante ativo (o escritor ou o jogador) uma entrega quase que incondicional. Por isso é que muitos dos analistas dos dois campos veem nestas profissões uma atividade existencial por excelência. Viver é jogar e jogar é viver. Assim como viver é escrever e escrever é viver.

É com esta interpretação do jogo e da arte de narrar que analiso o conto abaixo, intitulado, Campeonato de futebol, de autoria do escritor baiano Luiz Henrique, dentro daquela nossa proposta de sempre ligar, nesse espaço, o futebol com a literatura. Nessa narrativa, por exemplo, o contista vai jogando junto com os jogadores propriamente ditos ao narrar. Por isso mesmo, vai expondo as ligações sutis e secretas da literatura com o futebol, pelas páginas em branco e os verdes gramados do Brasil.

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Campeonato de futebol

Luiz Henrique

 Essa é uma história rápida, curtíssima, que narra as jogadas-proeza de uma dupla de ataque de um time qualquer, de um bairro qualquer, de uma cidade qualquer do Brasil, país do futebol. O texto é veloz e instantâneo como a figurar a própria fugacidade dos dribles e fintas dos dois personagens que quer destacar para o leitor, através de um testemunho em terceira pessoa comandado por uma reminiscência admirada com o que conta e com a distância do tempo que decorreu do que conta. Daí o texto fixar-se no motivo do talento de um tipo de futebol que talvez já tenha se perdido na poeira da sua própria história: o nosso tão decantado futebol-arte.

Por aqueles tempos, a velocidade do jogo não se contrapunha ainda as suas potencialidades criativas. À sua demanda artística – melhor dizendo -, que o narrador transfigura como elemento do próprio texto narrativo para dar ritmo ao transcorrer das ações: “Tô Falando com a bola. Ele era um jogador bom de negaças e um corredor. Ele corria com disposição. Quando pegava uma reta, a bola nos pés, ninguém o alcançava. Certa feita Português tentou parar Tô Falando e Tô Falando fez o seguinte: levou a bola até a linha de gol do adversário, não chutou, mas deu uma queda de corpo, algo lindo! Enganou Fausto e Faustino, levou Chuteirão à grama, depois subiu para a própria área. Português correndo atrás e segurando nos lados, lá nele, cai-não-cai, Tô Falando fez um arco, tá entendendo? Fez um arco e deu uma bola e tanto pra Didiu e Didiu cometeu a sua especialidade: bateu com o pé esquerdo e foi gol”.

A história se adianta nesse ritmo frenético e veloz. Registre-se que Tô Falando é o nome inusitado do companheiro de Didiu, com quem compõe a dupla de ataque infernal. Assim como no universo do erotismo existe a figura da fêmea fatal, no não menos “incendiário” mundo do futebol existe também a figura do jogador fatal, aquele que ao receber a bola de jogo sob determinadas condições já era, é só correr pro abraço, a bola está lá no fundo das redes e gol.

“Naquela partida Tô Falando suspendeu a bola. Taí, ninguém entendeu! Mas a gente logo viu a treta. A bola subiu para a esquerda e desceu nos pés de Didiu, uma bola 5, nova, novinha, de modo que foi descendo pela esquerda, cada vez mais pela esquerda, superou Cagão e Torresmo, fez Sossegado de bobo, parou, um rei! Olhou o campo e chutou. Gol, claro! Quem ia pegar aquela bola?”

Assim a narrativa de Luiz Henrique vai contando os prodígios daqueles jogadores do seu tempo numa prosa simples, mas eficiente no que tem de artístico. Vai encaminhando seu texto no ritmo do jogo que narra, o proseado fluindo ao sabor das jogadas relembradas com teor de crônica. A destacar ainda nesse conto curto como um drible de Romário (verdadeiro jogador fatal!), só mais duas coisas, para encerrar: o efeito cômico criado pela homonímia dos jogadores (Cagão, Torresmo, Zé de Viu, Adrenalina) e o seu arremate memorialístico eficiente.

Sobre a primeira, deve-se assinalar que a ficção não é mais extravagante do que a realidade. Como exemplo, vejam-se os nomes de jogadores que disputaram a Copa do Brasil de 1990, numa pesquisa curiosa feita pelos jornalistas, Alex Escobar e Marcelo Migueres, entre as fichas técnicas dos jogos dos clubes participantes deste campeonato de caráter nacional (ver: 20 anos da Copa do Brasil, 2009, p.174, 176). Para cada ano da disputa, os jornalistas escolheram um time de nomes esquisitos. Assim é que em 1990 entrou em campo pelo Brasil afora o seguinte esquadrão: Marega, Balu, Chicletão, Lúcio Surubim e Mingo; Chico Monte Alegre, Tanta, Miolinho e Erijânio; Ibateguara, Gulliver e Limão. O ano de 1995 não fica atrás em matéria de nomes estranhos: Isoton, Bocage, Gelásio, Gilberto Corneta e Nemias; Barata, Adalberon, Caçote e Petrólio; Nailson Xororó, Testinha e Zé Rebite.

Sobre a segunda observação, exemplificaríamos com o próprio texto o aspecto que queremos ressaltar, quando após outro gol fenomenal de Didiu, o narrador fecha a conta com essa: “Foi aí que o dono da bola correu para o campo e recolheu a bola. Ele era do lado que estava perdendo. E estava uma fúria. – Vão ganhar na… Todos tínhamos 12 anos e embolamos no Campo da Cuia”.

 Quem é Luiz Henrique:

O autor nasceu em Nazaré das Farinhas (BA), em 25 de janeiro de 1926. É contista, novelista, cronista e romancista. Doutor em História do Brasil e Professor Emérito da Universidade Federal da Bahia. Publicou, entre outros livros, História da Bahia (1987); Moça sozinha na sala (1961), com o qual ganhou o Prêmio Carlos de Laet da Academia Brasileira de Letras, e Almoço posto na mesa (1990). A história curta, Campeonato de futebol, está na coletânea, Contos brasileiros de futebol, organizada em 2005 por Cyro de Matos, sob os auspícios da Editora LGE, de Brasília.

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