Vargas Neto e suas crônicas: a imprensa esportiva para além de Mário Filho

Por André Alexandre Guimarães Couto

guimaraescouto@yahoo.com.br

Bem, neste post de estreia, gostaria de dividir com todos a discussão em torno das crônicas esportivas do Jornal dos Sports, veículo criado em 1931 e que entrou definitivamente em uma grave crise institucional nos recentes anos 2000.
Obviamente, quando pensamos em crônica ou mesmo imprensa esportiva, caímos, a meu ver, numa armadilha: “não existia vida para além de Mário Filho”. Por que discordo desta afirmação? Bem, além de pensarmos numa conjuntura mais ampla e no  próprio conceito de História, e de não negar a importância deste jornalista da famosa família Rodrigues para a consolidação da imprensa esportiva brasileira, tal interpretação oculta de forma negligente a atuação de outros literatos do esporte.

Vamos ficar desta vez com Manoel do Nascimento Vargas Neto (1903-1977). Oriundo da família Vargas, sobrinho do presidente Getúlio, tinha uma atuação diversificada, com formação em Direito e poesias publicadas com êxito (considerado por muitos críticos como bom exemplo do modernismo literário gaúcho). Também foi procurador do Estado e deputado federal.

Para o grande público, todavia, foi nas páginas do Jornal dos Sports, principalmente nas décadas de 1940 e 1950, que se tornou mais conhecido com a sua coluna “A Crônica de Vargas Neto”. Aliando sua atuação no campo político do esporte como presidente da FMF (Federação Metropolitana de Futebol), membro do CND e vice-presidente do COB, com suas inserção no meio midiático, o cronista destilava sua visão de organização do mundo esportivo com um tom ficcional que tinha exercitado no movimento modernista.

Como exemplo de uma crônica em que tentava discutir cientificidade/emotividade do esporte, por meio de técnicas literárias próprias, segue o seguinte texto:

“Controle Médico

Os rapazes que jogam football quando sofrem qualquer restrição do médico, entendem que é perseguição ou má vontade do clínico. Em vez de agradecer ao médico pelo cuidadoso exame feito, o jogador, recusado ou posto em quarentena, revolta-se, fica zangado com o facultativo, como se este fosse o culpado das enfermidades ou deficiencias físicas que outros apresentem.

Não é raro, em tais casos de recusa, ouvir-se de interessados torcedores ou do próprio atleta, que o médico errou, que aquilo é besteira, que o atleta jogou sempre, e nunca sentiu nada!

Muitos até insistem na pratica desaconselhada deste ou daquele esporte.

Um dia a casa cai…

Quando o médico acusa um defeito é porque o encontrou. E se o encontrou é porque prestou boa atenção ao exame, teve zelo, e por isso só pode ser elogiado. O interesse não é de quem examina, mas do examinado. Tentar iludir o médico é iludir-se a si mesmo.

Agora no Rio Grande do Sul aconteceu um fato sobre o qual devem meditar todos os atletas.

Um rapaz de vinte e dois anos, forte, entusiasta, que era dianteiro de um clube de Osorio, morreu em pleno impulso de um lance esportivo. Apoderou-se da bola, driblou toda a defesa adversária, e quando entrou na área do goal, sozinho, frente a frente com o keeper sem defesa, e todos esperavam o goal, o dianteiro caiu morto, fulminado por um ataque cardíaco.

Se esse rapaz se sujeitasse a controle médico e o obedecesse, talvez, estivesse vivo até hoje, ou quem sabe, até muitos anos.

O controle médico é uma necessidade para o desportista.”

Desta forma, Vargas Neto atentava para um problema específico, que ainda é muito atual devido aos fatos ocorridos com atletas de futebol na Inglaterra e na Itália, por exemplo. Tal fato ocorria em um momento de aperfeiçoamento das técnicas de se praticar tal esporte. Para discutir tal ponto, entretanto, usava uma técnica literária capaz de criar um enredo ficcional, praticamente “brincando com as palavras” e com a própria imaginação do leitor.

Criatividade, imaginação, veia literária e atuação política. Não se tratava apenas de Mário Filho, mas também de outros importantes cronistas como Vargas Neto. Dos outros, todavia, trataremos em outros posts.

Referências Bibliográficas:

CAPRARO, André Mendes. Identidades Imaginadas: Futebol e Nação na Crônica Esportiva Brasileira do Século XX. Curitiba: UFPR, 2007. Tese de Doutoramento em História.

COUTO, André Alexandre Guimarães Couto. A hora e a vez dos esportes: a criação do Jornal dos Sports e a consolidação da imprensa esportiva no Rio de Janeiro (1931-1950). São Gonçalo: UERJ/FFP, 2011. Dissertação de Mestrado.

HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. O cor-de -rosa: ascensão, hegemonia e queda do Jornal dos Sports entre 1930 e 1980. In: HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de e MELO, Victor Andrade de. O esporte na imprensa e a imprensa esportiva no Brasil. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2012. No prelo.

VARGAS NETTO. Controle Médico. In: Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, nº 5.429, 04/05/1947. p. 7. Coluna A Crônica de Vargas Netto.

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