O NOME DE UM BILHÃO DE DÓLARES – ou a guerra do futebol. (por Jorge Knijnik – 1)

Este post trata de uma Guerra. Uma luta sem bombas nem tiros, mas cheia de estratégias, de vencedores e vencidos. Ao final de suas batalhas, há pessoas feridas, e há aqueles que ‘morrem’ – não de fato, claro, mas sim que veem seus times terminarem suas atividades, por exemplo – típico caso de torcedores que ficam sem um time de futebol para torcer – como recentemente aconteceu aqui com o ‘Newcastle Jets’, um time que até 2012 estava jogando na Divisão Especial Australiana (a Hyunday A-League, que funciona em sistema de franquias), mas cujo dono acaba de anunciar o fim de suas atividades – o que gerou enormes protestos através do país, o que talvez faça com que isto seja revertido. Porém, o que acontece com os torcedores, como aquele moleque que acaba de ganhar de aniversário uma camisa do time? E nesta guerra existem também vencedores, que sorriem, pelos seus times, e com seus times… e que enchem o bolso de dólares australianos… Esta é a guerra pelo futebol, ou melhor, a guerra pelo nome ‘futebol’, que se instaurou neste país-continente desde o inicio do século, e não da sinais de trégua.
A Austrália é um país muito grande… De fato, e diferentemente daquilo que comumente se aprende no Brasil, a Austrália se denomina como um continente. Sim, isto é muito interessante, há diversas formas de se definir um ‘continente’, razões geopolíticas e multiplas visões de mundo fazem com que atualmente existam pelo menos seis respostas diferentes sobre a quantidade de continentes que há na Terra. Mas tudo isso apenas para dizer que os australianos são ‘very proud’, são muito orgulhosos de tudo o que eles têm aqui. Inclusive do seu ‘football’. Mas, usar esta palavra aqui gera muita confusão (2): a qual esporte eu estaria me referindo? Rugby? Mas há dois tipos de rugby, rugby union e rugby league… Australian Football, o ‘footy’? O futebol ‘brasileiro’, denominado pelos norte-americanos de ‘soccer’? Sem mencionar que há o jogo de ‘touch football’ e o ‘indor football’, o futsal… Mas é claro que os quatro principais ‘futebois’ (Australian Football, futebol, rugby union e rugby league) dominam o cenário das transmissões esportivas na televisão, e embolsam quase a totalidade do dinheiro proveniente destas. E é ai que a coisa complica…
Voltemos à guerra. Aos preâmbulos da batalha. Como eu dizia, os australianos são muito orgulhosos de tudo que é ‘Australian made’. Como o ‘footy’, ou o ‘Australian Football Rules’, o futebol Australiano. Durante os séculos XIX e XX, o ‘footy’ (às vezes chamado ‘erroneamente’ de AFL, em virtude de sua liga profissional ser a Australian Football League) também conhecido como ‘Australian Football’, ‘Aussie rules’ ou simplesmente ‘football’ foi jogado por aqui sem problemas – com bola oval, 18 jogadores de cada lado, um campo enorme com formato ovalado e com quatro postes verticais em cada uma de suas pontas! E de fato, é um dos esportes mais populares do país, que nunca sofreu com a competição entre nomes. Entretanto, no inicio do século XXI, a batalha começou. Aquilo que antes era denominado ‘soccer’ passou a ser organizado por uma nova federação, a Football Federation Australia (http://www.footballaustralia.com.au/  ). Aos poucos, as associações regionais e mesmo os clubes locais começaram a mudar seus nomes, deixando de lado o ‘soccer’ e adotando o football em seus nomes (http://shirefootball.com.au/  ; http://www.bardenridgebacks.com.au/ , por exemplo ). Esta mudança ocorreu por conta de uma serie de problemas apontados em um relatório governamental sobre esporte na Austrália (o Crawford report, http://www.sportpanel.org.au/internet/sportpanel/publishing.nsf/Content/home  ); este relatório, que teve a finalidade de avaliar a pratica esportiva no pais, apontou que o ‘soccer’ estava ‘muito mal das pernas’, contaminado por sua má administração, em conjunto com um excessivo número de conflitos étnicos entre times ligados a diferentes comunidades de imigrantes – provenientes de nações da Europa Central por exemplo, entre outras (não há relatos de brigas entre imigrantes sulamericanos até agora…).. Assim, havia a necessidade de um recomeço, o que fez que se criassem novos organismos para dirigir o esporte, com o banimento dos antigos dirigentes. Oficialmente, o esporte passou a ser denominado de football, de acordo inclusive com o próprio organismo mundial, a FIFA.
Foi então que a guerra pelo nome começou de verdade. Claro que no nível do esporte comunitário, as pessoas se entendem. Mas no nível competitivo, onde o ‘real money’ esta sendo jogado, a guerra não é apenas pelo nome. É pelas audiências, pelos direitos televisivos, pelos melhores estádios, pelo público – e inclusive pelos melhores atletas, que podem mudar de ‘code’! Como se diz por aqui, os ‘postes das traves’ (3) mudaram: os canais de TV começaram a lutar pelos direitos de transmitir os melhores jogos e temporadas, e as federações pelos melhores contratos… Resultado? O campo de futebol, outrora firme e rígido, esta se mexendo, pantanoso, sob os pés dos jogadores, clubes, ligas e torcedores…
A mídia fala do ‘Australian Football’… Mas a quem estão se referindo? Ao time que luta para se classificar para a vindoura Copa no Brasil/14? Ao ‘footy’, o ‘futebol australiano’? Ou ao rugby, que acaba de ser terceiro colocado no mundial da Nova Zelândia ano passado? E se a questão da nomenclatura pode parecer acadêmica, se ‘cavoucarmos’ um pouco mais, veremos que a presença do nome ‘football’ para designar o que antes era chamado de ‘soccer’ teve um efeito imediato nos bastidores esportivos, principalmente na questão dos direitos televisivos de transmitir o football.
Em nível mundial, grandes cadeias de TV sobrevivem muito em virtude daquilo que sua grade esportiva pode oferecer aos seus espectadores/consumidores. Assim, a briga das redes australianas de TV pelo futebol virou de fato uma disputa entre algo ‘local’ versus ‘internacional’ – não é imaginar as altas doses de paixão e irracionalidade que fazem parte deste ‘jogo’ . O ‘footy’ tal qual é jogado na Austrália não é jogado em nenhum outro lugar do mundo. Assim, não há sequer uma ‘seleção’ Australiana, não há competições para enviar um time representativo. É ‘Australian made’, australiano puro, com todo o apelo emocional que esta mensagem carrega… Por outro lado, a presença internacional da seleção Australiana de futebol (ainda apelidada de ‘Socceroos’, algo que não ira mudar tão cedo) é crescente. Os Australianos estão muito contentes que sua seleção participou de dois mundiais seguidos (2006 e 2010, com grandes chances de se classificar para o Brasil em 14). Isto fez com que, pela primeira vez, a torcida Australiana se unisse em torno deste ‘code’ tão apreciado na América do Sul. Alguns dados indicam que o futebol da bola redonda é jogado oficialmente por cerca de 300.000 crianças e jovens em ligas amadoras na Austrália, enquanto que o ‘footy’ é disputado por 190.000.Um numero crescente de adultos compete em nível amador com a bola redonda.
Por outro lado, a cobertura televisiva do Aussie rules, o futebol onde se pode carregar a bola ovalada com as mãos mas também chuta-la com os pés é muito mais massiva. O esporte em alto nível é muito mais popular, conta com torcedores muito mais ‘fanáticos’. Com canais abertos as vezes transmitindo 24 horas de ‘footy’, a Australian Football League assegurou um acordo em 2006 que beirava o bilhão de dólares australianos por quatro anos consecutivos de transmissões em canais abertos e pagos. Esta montanha de dinheiro resulta basicamente na maior capacidade desta Associação de atrair novos jogadores, mantendo baixos ou mesmo nulos os custos de inscrição para amadores, podendo oferecer bolsas de estudos, treinamentos para novos jogadores em destaque… Inclusive, esta Associação investe em mercados onde enxerga potencial, para montar novos times, como recentemente aconteceu em Sydney – coincidentemente, na Universidade onde leciono, a qual começou neste ano a patrocinar e dar nome a um novo time, o UWS/Giants (http://www.gwsgiants.com.au/ ). Tudo na região de Western Sydney, a região mais populosa da Austrália, com um potencial mercadológico incrível para esportes.
Por outro lado, a Football Federation Australia (FFA) não conseguiu capitalizar o relativo sucesso internacional dos ‘Socceroos’, quando estes se classificaram para as oitavas de final da Copa da Alemanha (2006) – perdendo da Itália por causa de um penalty cometido por Lucas Neill (atual capitão do time), penalty que até hoje os australianos contestam e reclamam muito que não aconteceu, que foi tudo ‘fita’ do italiano – e se tem alguma coisa que eles odeiam por aqui e’ ‘cera’, ‘catimba’… (http://www.youtube.com/watch?v=Rh2KLm4DpXE&feature=related ). A FFA conseguiu ‘apenas’ um acordo de cerca de duzentos milhões de dólares em TV fechada, o que não favoreceu a popularização de sua liga, a Hyunday A-League. Resultado: mesmo com o futebol mais popular em nível amador na Austrália, jogado por centenas de milhares de crianças e jovens pelo pais, a FFA não consegue fazer uma liga profissional realmente atraente para o publico interno, e consequentemente com capacidade para trazer melhores jogadores, melhorar seu publico, elevar o seu nível tecnico – e inclusive bancar os custos de suas categorias amadoras, que continuam com inscrições e taxas maiores, o que tende a dificultar a participação de setores mais populares, que optam por prosseguir para o footy ou para os rugbys, onde possuem condições de praticar um esporte a custos extremamente baixos, elevando, ao final, a audiência destes outros códigos do futebol.
A guerra tem outros capítulos. Como disse acima, há outros ‘futebois’ por aqui, mas que como esporte de elite são conhecidos como outros nomes (rugby, basicamente, sob dois formatos, ou ‘union’ ou ‘league’). A guerra pra valer existe entre o ‘produto nacional’ e o World Game. A guerra pelos corações, pelas mentes, pelos campos e pelas telinha$. Novos capítulos surgirão. O produto local, o Aussie rules, esta cada vez mais vivo. A Associação (AFL) tem diversas estratégias de expansão, procura abrir times em novos lugares (como o já mencionado Western Sydney), se faz presente em escolas, oferece cursos de férias para crianças sem custo algum, procura universidades para ministrar oficinas e desenvolver parcerias, são absolutamente ativos em manter e expandir o jogo ‘local’.
Por outro lado, o ‘nosso’ futebol , se vai muito bem em nível amador, e parece que vai conseguir mais uma vez se classificar para a Copa do Mundo, ainda esta bem atrás em termos de liga profissional, com clubes deficitários e sem conseguir fazer toda esta expansão que o ‘Aussie rules’ possui.
Como seria no Brasil? Ainda consideramos o futebol um produto local? Existe algo ou alguém disposto a desafiá-lo? Cuidamos assim bem de nossos produtos culturais? Ou apenas pensamos em exportá-los?
Nesta guerra do bilhão (5) , há muito em jogo: o local e o global em nível esportivo lutam não somente para sobreviverem, mas para alcançarem lugares de destaque. Eu por minha parte torço para que todos continuem brilhando, para o bem dos e das amantes da diversidade futebolística do planeta!

NOTAS

1-Obrigado Laercio.cev.org.br pelo apoio de sempre!

2- Em 2010, inclusive, o grupo de estudos ‘Sport and Culture’ (http://www.staff.vu.edu.au/RobHess/Football%20Studies%20Unit.htm ) da Victoria University em Melbourne organizou uma conferencia denominada ‘Worlds of Football’, onde foram discutidas pesquisas sobre os chamados diversos ‘codes’ do futebol, ou seja, os diversos esportes com regras diferentes, nos quais em algum momento se pode chutar uma bola (seja esta mais ovalada ou redonda!) unidos pelo mesmo nome – football, futebol.

3 – Isto e’ uma alusão ao fato que com os mesmos postes voce pode fazer um gol de futebol, ou mudar a forma e fazer um gol de rugby, ou ainda mudar novamente a forma para um gol de ‘footy’.

4 – sempre brinco com meus amigos Aussies que, se existe o Australian Football onde eles são os melhores, o outro devia ser chamado de ‘Brazilian Football’ – afinal, somos ou não somos?

5 – Football Fever: Moving the goalposts e’ uma otima coletanea de artigos sobre estas e outras questoes envolvendo os ‘futebois’. Foi organizada por Matthew Nicholson, Bob Steward e Rob Hess e publicada em 2006 pela Maribyrnong Press

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