A trilha sonora do lazer no subúrbio carioca na década de 1980: uma singela homenagem a Dicró

Por Valéria Lima Guimarães

 No último dia 25 de abril, “abotoou o paletó” prematuramente um dos mais criativos artistas populares que o Rio de Janeiro já conheceu. Escrevo este post revirando o baú da memória para fazer uma homenagem ao divertido e já saudoso Dicró,  autor e intérprete de muitas músicas que fizeram parte da trilha sonora do lazer do subúrbio carioca a partir do final da década de 1970.

Nascido Carlos Roberto de Oliveira, em Mesquita, na Baixada Fluminense, há 66 anos, meu conterrâneo Dicró era um orgulho na região. Quem tem mais de 30 anos deve se lembrar do auge do sucesso na tevê e nas rádios desse artista que fez carreira cantando com muito bom humor as crônicas da vida cotidiana nos subúrbios da cidade. Era chamado carinhosamente de “Prefeito de Ramos”, por suas declarações de amor ao balneário, que frequentava desde criança, hábito muito comum para os moradores da Baixada Fluminense meio século atrás. Dicró contava que costumava ir a pé do bairro da Chatuba (lá dentro de Mesquita) até a Praia de Ramos, por falta de dinheiro da passagem.

Quando estourou o sucesso “Praia de Ramos”, no início da década de 1980, esta já era considerada a praia mais poluída da cidade por conta do adensamento populacional em seu entorno e da falta de políticas públicas adequadas. A divertida letra falava da confusão que a sogra aprontou na praia, matando o genro de vergonha. Tem henê, negão salva-vidas que perde o calção, nega de maiô samba-canção, sogra se afogando, filho jogando siri no calção do pai, caminhão alugado para ir com a família a Ramos, frases de duplo sentido, todos os ingredientes de sucesso da escrachada crônica de costumes populares.

As músicas de Dicró embalavam as horas de lazer do pessoal do subúrbio. No churrasco, nas festas de final de semana, no futebol, em casa, no pagode no fundo do quintal ou bem alto na vitrola da sala, suas músicas e piadas inteligentes e de fácil identificação, tinham como maior inspiração a sogra, mas também falavam de outros tipos muito populares, como o cunhado intrometido, a loira, a nega, o negão/crioulo, o gurufim (velório e enterro com música), o “Ricardão”, o “rapaz que fala macio”, a “sapatão”, o “macumbeiro”, a confusão que terminava na delegacia, num contexto em que o humor e a sociedade não eram tão politicamente corretos como hoje.

Naquela época também fazia muito sucesso a coluna humorística “Avesso da Vida”, escrita pelo jornalista policial Léo Montenegro no Jornal O Dia, com os mesmos ingredientes do humor popular de Dicró. Genival Lacerda, Manhoso e Bezerra da Silva foram outros artistas populares de sua época que estouraram com suas músicas bem humoradas e de forte apelo popular. Quem não se lembra dos “Três Malandros”, o encontro entre Dicró, Bezerra e Moreira da Silva nos anos 1990, numa paródia dos “Três Tenores” (Carreras, Domingo e Pavarotti)?

Os divertimentos populares, como o churrasco, o futebol e o bingo foram captados com muita irreverência nas músicas de Dicró, um vascaíno doente, que gravou o sucesso “O bom de bola”, em que se dizia o professor de Pelé, Beckenbauer e do “tal de Cruijff”. Na música, o supercraque Deu drible no Rivelino, “lençol” no Gérson e no Tostão, tabelou com Pelé e fez gol na Copa de 58, e ainda ganhou poços de petróleo e mais de um milhão na Arábia com o seu desempenho no futebol! O refrão é memorável:  “Joga Bola Mané/ Joga Bola Mané/ Vou lhe mostrar quem eu sou/Fui eu que ensinei a Pelé”.

Nos últimos 10 anos, era figura certa no Largo da Carioca, no Centro do Rio de Janeiro, onde vendia seus CDs e DVDs de forma alternativa, pertinho do povo. Em 2010 foi redescoberto pela Rede Globo e fez uma participação no programa Fantástico, mostrando num divertido quadro os contrastes entre os costumes do povo e as invenções luxuosas e extravagantes da vida moderna, como os navios de cruzeiro. No ano seguinte, foi ao Programa do Jô e disse que tinha 65 anos, mas pelado lhe davam 18 ou 19, fazendo todo o auditório gargalhar.

Tudo na vida é finito, mas as coisas boas bem que poderiam durar um pouco mais.  Falar de Dicró é falar de alegria e dar boas risadas com suas músicas e piadas que captavam com propriedade aspectos cotidianos da cultura popular.

Pra terminar em alto astral, com a melhor lembrança do artista de alma suburbana que animava as horas de folga de tanta gente, segue uma cena antológica que reuniu outros quatro craques do humor nos inesquecíveis videoclipes do programa Os Trapalhões:

Pois é…

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