Tendências, conflitos e outras impressões

por Maurício Drumond

Essa semana, eu e mais dois conhecidos dos frequentadores desse blog, Rafael Fortes e João Malaia, estamos participando da XL Convenção Anual da Associação Norte-Americana de História do Esporte (NASSH – North American Society of Sport History), desfrutando os prazeres de São Francisco e Berkeley, nos Estados Unidos.

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Em meio a muitos nomes consagrados de “referências bibliográficas” do campo, como Richard Holt, Allen Guttmann, Wray Vamplew, Douglas Booth e Murray Phillips, pudemos verificar como são numerosos os trabalhos que deixam a desejar e como os congressos no Brasil não ficam muito atrás do que é apresentado no principal congresso de história do esporte no mundo.

Não vou discutir aqui, no entanto, os trabalhos apresentados até agora. Depois de alguns dias de congresso (o evento está sendo realizado entre os dias 01 e 04 de junho e escrevo no dia 03), eu gostaria de aproveitar esse post para fazer algumas observações a partir de minha experiência nesses dias.  Para organizar melhor minhas impressões, dividirei esse texto em dois temas a serem discutidos: as novas tendências e os confrontos travados.

NOVAS TENDÊNCIAS

Congressos como esses são grandes oportunidades para tentarmos perceber novas tendências que começam a ser delineadas pelos grupos de pesquisa ao redor do mundo. O tema que mais se aproximou disso, e que pode apontar a uma futura área de atuação e interesse dos historiadores do esporte que dá agora seus primeiros passos, foi a questão da produção da história do esporte na internet e Wikipedia.

Murray Phillips, na Conferência de Abertura, apresentou a palestra “Storying the Sporting Past in the Digital Age: Multiple Histories of the Paralympic Movement” (Contando o passado esportivo na era digital: histórias múltiplas do movimento parolímpico). Em seu trabalho, Phillips destacou atenção para o que chamou de e-history, ou seja, novas formas de se apresentar a produção do trabalho do historiador, antes restrito apenas aos textos e aos livros, ainda que não excluindo os mesmos nem tampouco negando sua importância. No entanto com o tempo, argumenta Phillips, esses novos maios estarão cada vez mais estabelecidos e os historiadores precisam se preparar para essas mudanças.

Indo ao encontro dessas novas formas, Murray está liderando uma equipe de historiadores do esporte australianos em uma empreitada, ligada à Wikipedia australiana, de organizar e aperfeiçoar as páginas da mesma dedicadas à história do esporte australiano. Phillips defende que os historiadores do esporte devem se aproximar mais dessa ferramenta, conhecendo assim melhor seus mecanismos e assim suplantando as suspeitas e as ressalvas inicialmente impostas ao site – as quais ele mesmo compartilhou. Novas questões sobre a produção da história, sua forma, autoria e conteúdo, são assim colocadas como importantes ponto a serem debatidos e repensados.

Outra sessão abordou o mesmo tema, ainda que de forma menos proveitosa. Na mesa “The Wiki World of Sport History” (O Mundo Wiki da História do Esporte), Gary Osmond e Mike Cronin, entre outros, debateram a importância e a influência das redes sociais tanto na pesquisa como na produção e no ensino da história do esporte.

As duas sessões, mais do que ofereceram respostas e propostas já formadas e estabelecidas, apresentavam novas questões que se faziam enfrentar e que deviam ser debatidas pelos historiadores.

CONFRONTOS

Um episódio que chamou minha atenção ocorreu no sábado, dia 02/06, quando Douglas Booth e Allen Guttmann dividiram uma mesa intitulada “Historiography Matters” (A Historiografia Importa). Expondo sobre forma e conteúdo, Allen Guttmann (que fora convidado por Doug Booth para compor a mesa) apresentou um trabalho comentando sobre o uso da ironia, rebatendo críticas feitas por Booth a um de seus trabalhos. Os comentários de Guttmann foram respondidos por Booth, sempre com cordialidade e em bom clima, coroado ao final da palestra por um abraço entre os dois debatedores.

O debate cordial entre dois professores universitários, acadêmicos do esporte, deveria ser algo comum na academia. No entanto, ele me levou a pensar em nossa própria realidade brasileira. A troca de ideias e a discordância constantemente são levadas por nossos principais acadêmicos como algo pessoal, e o questionamento, algo que deveria ser natural no processo de elaboração de ideias e de construção de conhecimento, passa a ser algo rude e desafiador. Montéquios e Capuletos surgem de algo que supostamente deveria ser o padrão no meio acadêmico. Ao menos aqui, Booth e Guttmann demonstraram que isso é possível.

FINALIZANDO

Para finalizar esse breve post, um último comentário deve ser feito sobre a visão etnocêntrica presente no congresso. São muito raros os trabalhos sobre algum tema regional/marginal, que não envolva temas ligados aos Estados Unidos, à Europa ou a algum tema transnacional como as Olimpíadas ou o COI. Trabalhos como o que apresentamos geraram pouco interesse entre os participantes. Em nenhum momento sentimos como se fizéssemos realmente parte do congresso, mas éramos convidados que estávamos ali apenas para aprender, e não para mostrar algo em retorno também. Mas pelo que foi possível observar em diversas apresentações nesse congresso, o prejuízo é todo deles.

Até a próxima.

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