O encontro de duas paixões: novelas e futebol

Por Victor Andrade de Melo

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No dia 26 de março de 2012, entrou em campo Tufão (Murilo Benício), cria do Divino, um fictício bairro do subúrbio carioca; o craque era a grande esperança de vitória do Flamengo no campeonato carioca de 1999. A final seria disputada no mítico Maracanã, contra o Real Cruz.

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Essa partida atravessa o primeiro capítulo de Avenida Brasil, escrita por João Emanuel Carneiro, exibida na Rede Globo; trata-se de uma narrativa épica muito comum nas iniciativas audiovisuais que incorporam/abordam o esporte. Ao final, o Flamengo sagra-se campeão graças à atuação do craque Tufão, autor de dois gols. Os moradores de Divino celebram intensamente a conquista, se vendo representados no jogador.

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Quando Tufão entrou em campo, muitos lembraram de uma das mais importantes telenovelas brasileiras, Irmãos Coragem, escrita por uma de nossas mais celebradas dramaturgas, Janete Clair.

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As primeiras cenas dessa novela também se passaram no Maracanã, uma final do campeonato carioca, Flamengo versus Botafogo. Duda (Claudio Marzo), vestindo a camisa 10, a grande esperança de gol da equipe rubro-negra, entra em campo saudado pela assistência. O craque decide a partida, para o orgulho da sua cidade natal, Coroado, de onde saiu jovem para tentar a carreira de jogador.

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Em Irmãos Coragem pela primeira vez o futebol ocupou um espaço relevante numa telenovela brasileiro, o pioneiro encontro dessas duas paixões nacionais. Janete Clair, para compor o personagem Duda e as cenas da prática, contou com a assessoria de João Saldanha, que, aliás, aparece em um dos capítulos, representando ele mesmo ao comentar a lesão do personagem-jogador.

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Anteriormente já houvera uma referência ao velho esporte bretão nesse gênero da ficção televisiva. Pelé atuara em Os Estranhos, de Ivanir Ribeiro, exibida em 1969, na TV Excelsior. Tratou-se de uma ficção científica, aproveitando o momento em que o primeiro homem tinha pisado na lua: extraterrestres contatam a Terra tendo como intermediário Plinio Pompeu, um escritor interessado em discos voadores, representado pelo célebre jogador de futebol, que, na verdade, não teve grande presença na trama, embora seu personagem fosse importante.

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Outro esporte já estivera presente numa novela anterior de Janete Clair: Véu de Noiva (1969/1970), estrelada por Regina Duarte e Cláudio Marzo, que representou Marcelo Montserrat, um piloto de Fórmula 3, que sonhava em chegar à Fórmula 1, um personagem inspirado em Emerson Fittipaldi, que começava a trilhar sua trajetória de sucesso. Já na abertura havia referências à modalidade, nas imagens e na música: Mil Milhas, do grupo Azimuth, que chegou a ser usada nas coberturas automobilísticas da emissora (a musica correta não é a do vídeo abaixo; a correta está em http://www.youtube.com/watch?v=KoyNjpZDlpE).

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A presença do futebol nas telenovelas tem relação com as mudanças da narrativa desse gênero que começaram a ser implementadas a partir do final dos anos 1960. Ao invés de tramas no modelo “capa-espada”, as histórias passaram a exacerbar o caráter folhetinesco, incorporando temas sociais candentes, abordados com uma linguagem mais coloquial. Uma de suas características marcantes passou a ser o estabelecimento de elos entre a ficção e a realidade.

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Não surpreende saber que, no caso do futebol, não poucas vezes os personagens se confundiram com a “vida real”. Por exemplo, nos momentos que antecederam uma partida entre o Flamengo e o Paraná, pelo campeonato brasileiro de 1999, quando foram gravadas algumas cenas de Suave Veneno (de autoria de Aguinaldo Silva), Rodrigo Faro, representando o jogador Renildo, percebendo a empolgação dos torcedores (que gritavam o nome do personagem), de forma improvisada entrou em campo e chutou uma bola ao gol, sendo efusivamente saudado. Ao final, tendo sido o clube carioca derrotado, os rubro-negros, de forma provocativa, pediram a entrada do “craque da novela” no time.

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Caso semelhante já ocorrera antes com o personagem Luca, interpretado por Mário Gomes em Vereda Tropical (Carlos Lombardi, 1984/1985). Algumas cenas foram gravadas numa partida do campeonato brasileiro (Corinthians x Vasco). Na ocasião, quando Serginho Chulapa marcou o segundo gol do clube paulistano, o ator/personagem invadiu o campo, comemorando com os jogadores, recebendo, surpreendentemente, um cartão vermelho do controverso árbitro José de Assis Aragão. Ao final, os corintianos gritaram o nome de Luca, indignados com a má apresentação do time no empate em dois tentos.

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Novela e futebol largamente constituíram narrativas sobre a nação. Inegavelmente se relacionaram aos contextos políticos. Isso não significa que tenham sido produtos homogêneos, que estivessem linearmente a serviço de determinados regimes. Há que se entender a complexidade de ambos para que se prospecte melhor o seu papel na construção de representações.

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Trata-se de um belo tema a ser mais profundamente investigado.

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