O esporte e a propaganda política em cena novamente

por Vivian Fonseca

Não é novidade a mobilização do esporte para fins de propaganda política de Estados Nacionais. De ditaduras, como os de Perón, na Argentina, e Vargas, no Brasil (brilhantemente analisados por Maurício Drumond), à democracias, é comum assistirmos à vinculações de performances esportivas à performances nacionais. Um claro exemplo de exaltação nacional são os Jogos Olímpicos. Neles, o protagonismo no ranking de medalhas pode sugerir maior desenvolvimento, força e superioridade de um povo frente aos demais.

Para o vídeo hoje escolhido como assunto neste post, não foi diferente. Cabe uma ressalva, apenas, no tipo de identidade que a propaganda batizada de Growing Together procura ratificar e valorizar: ao invés de uma identidade nacional, promove-se um ideal de continente e/ ou comunidade forjado a partir da União Européia.

Na película da propaganda, uma mulher branca, vestida com os trajes de Beatrix Kiddo, personagem de  Uma Thurman na película Kill Bill (2003; 2004), nas cores da bandeira da União Européia, amarela e azul, aparece caminhando sozinha em um galpão abandonado. De repente, um lutador chinês de kung fu, aparece realizando golpes e com um olhar ameaçador. A moça mal tem tempo de reagir e, do outro lado do galpão aparece um mestre de kalaripayattu, arte marcial originária do sul da Índia, e profere no ar golpes com sua espada em direção à jovem européia.

Em seguida, mais uma vez a moça vestida de Beatriz Kiddo é surpreendida pela entrada repentina de um homem negro, forte, com dreadlocks e vestindo um abadá, (calça branca bastante utilizada por capoeiristas pertencentes a diversas Escolas de Capoeira). Ao som de samba, o capoeirista profere diversos movimentos e, também com um olhar ameaçador, pára diante da jovem. Ela fita os três lutadores, concentra-se e, então, transforma-se em 12 mulheres que, formando um círculo, cercam os três homens que, imediatamente, guardam suas armas e mudam suas posturas ameaçadoras. Todos se sentam e, à medida que as 12 mulheres se transformam em estrelas, os lutadores somem. Como um esclarecimento final, aparece a frase “the more we are, the stronger we are” seguida pela bandeira da União Européia.

http://www.youtube.com/watch?v=n0PUQYWKkcg

O vídeo foi oficialmente retirado de circulação no dia 6 de março de 2012 pela Divisão de Ampliação da Comissão Européia, mas segue disponível em diversos sites. A propaganda foi retirada de circulação devido às diversas críticas que apontavam o caráter xenófobo e racista do filme.  O assunto se tornou polêmico em diversos jornais e periódicos, como o The Guardian; The New York Times; O Globo; Exame; Portal G1 e no site do Observatório da Imprensa, dentre outros. Nessas reportagens, é destacada a inabilidade da União Européia em elaborar um vídeo de promoção sem parecer preconceituosa ou, no mínimo politicamente correta.

Como resposta às críticas, Stefano Sannino, diretor-geral da divisão de ampliação da Comissão Europeia, esclarece que o vídeo “começou com uma demonstração de suas (os lutadores, representantes dos países) forças e terminou com todos mostrando respeito mútuo, em uma posição de paz e harmonia”. Ainda, ele justificou a escolha do tema e a abordagem tendo em vista o público-alvo: jovens de 16 a 24 anos, familiarizados com filmes e jogos de vídeo game de artes marciais.

No portal do periódico norte-americano, destaca-se as dualidades presentes no vídeo em questão: “uma obra-prima repleta de dualidades estereotipadas. Masculino VS. feminino. Armado e desarmado. Bárbaro vs. civilizado. A força bruta ao invés da inteligência (os homens a ameaçam com espadas e força muscular, enquanto a mulher pensa a si mesma em um círculo).” Ainda, é possível questionar o tipo de política imigratória que se pretende para o bloco europeu: o imigrante “dissipado” e “digerido” pelo europeu.

Para além dessas questões, através de símbolos esportivos associados a elementos culturais nacionais, a União Européia manda um recado claro para os novos países emergentes que formam os BRICs – Brasil, Rússia, índia e China: de que não tem medo frente ao crescimento desses países.

Não à toa, essa mensagem aparece no momento no qual esses países encontram-se em pleno crescimento econômico, mas, por outro lado, a Europa enfrenta uma grave crise que tem questionado não só o Euro, mas a continuidade da própria Comunidade Européia. Pode-se também apontar um momento de redefinição de uma identidade européia frente à forte imigração de árabes, muçulmanos, africanos e latino-americanos ocorrida nas últimas décadas e que, por grupos mais conservadores de direita e, principalmente de extrema direita, é percebida com pavor. Ainda, por fim, é possível perceber a dificuldade existente “dessa Europa” em perceber o(s) outro(s) sem folclorizá-los ou estereotipá-los.

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