La Saeta Rubia (1956)

                 “ – Pero soy futbolista, no actor…”

                    (Di Stéfano “interpretando” a si mesmo).

        Imagem   

Diletos leitores, este post foi enviado direto de Madrid, onde o humilde copartícipe deste blog encontra-se em missão especial (sempre quis dizer, ou escrever isso), representando o Laboratório de História do Esporte e do Lazer – PPGHC / IFCS / UFRJ, com financiamento da CAPES. Isto posto, vamos lá..

A declaração/confissão destacada acima (ademais de desnecessária), é parte do diálogo que o supercraque Di Stéfano mantem com a personagem Julia, uma mulher quase fatal, que tenta e atenta ao jogador a participar de uma  “película”. Mais prudente na ficção do que na vida real, Dom Alfredo Di Stéfano recusa: o papel, o assédio da diva (era um homem casado) e mesmo o “bom dinheiro” que lhe foi prometido. O mesmo não ocorreu quando lhe chamaram para protagonizar “La Saeta Rubia” (de Javier Setó, 1956).  Nesse filme, o atleta-doublé de ator vai “interpretar” a si mesmo, em  um enredo de engajamento moral-cristão (realizado em plena vigência do Franquismo, não nos esqueçamos). A história é simples e quase clásica, ao menos em seus traços mais largos.

Di Stéfano, o famoso ídolo do incrível Real Madrid das décadas de 1950, principalmente, e 1960[1], se choca abruptamente com os desvalidos da sociedade espanhola de então. Um contato quase físico, quando é levado a pensar que teria atropelado um menino que surge à frente de seu carro. Ao socorrê-lo, vê que tudo está bem; é reconhecido pelo garoto e por seus amigos e é alegremente cercado por eles. Somente quando vai se trocar, no vestuario do Real Madrid, é que percebe que teve a carteira roubada. Sorri, conformado. O personagem-mirin de “Chispa” foi o autor da façanha. Faz parte de um grupo de garotos pobres que realizam pequenos furtos e inconsequencias. Ao longo do filme levam a carteira de Di Stéfano, mas devolvem-na;  capturam uma máquina fotográfica, mas apenas para doá-la a um simpático senhor, o seu “Justo”, que estava triste por haver perdido a sua própria máquina (os meninos sugerem que ele peça ajuda a seu santo de devoção e enquanto seu Justo reza, eles põem a máquina roubada junto ao oratório… Milagre!!). A outra ação consiste em surrupiar um rádio, este para poderem ouvir a partida do Real Madrid, com a participação do, agora amigo, Saeta Rubia[2].

Sem a necessidade de maiores descrições, podemos dizer que a partir dessa última empreitada, os rapazes são detidos pela polícia. Don Alfredo intercede e asume a responsabilidade pelos mesmos, treinando-os. Entusiasmado, forma um time, o “Saeta Rubia”, o qual inscreve no campeonato respectivo à idade dos jovens. Para além dos naturais percalços, conflitos e dificuldades, o futebolista, com a ajuda de sua piedosa esposa, acaba por resolver a vida de todo mundo. Dos adolescentes e das famílias. Oferece oportunidades e o apoio, tudo que precisavam para poder melhorar de vida, material e moralmente[3]. A fita evolui até um desfecho que, obviamente, redunda em partidas decisivas. Uma do campeonato dos garotos, na qual, ao final, logram o primeiro lugar; a outra se dá no ámbito profissional. O Real Madrid vai disputar mais uma final e, para variar, La Saeta arrebenta e sagram-se novamente campeões.

A riqueza de elementos históricos e narrativos, já fez desse filme objeto de algumas considerações acadêmicas[4]. Neste post vou apenas tecer uma consideração parcial, pontual e quase ‘impressionística’.  

À luz da minha recente exposição a essa película, é quase impossível não atualizá-la com o acompanhamento da crônica jornalística desses mais de três meses em Espanha. Se Dom Alfredo cumpriu um papel futebolístico espetacular na década de 1950-60, com impacto político sobejamente capitalizado, talvez ese argentino, naturalizado español, pudesse ser ainda mais util nesses dias atuais de incerteza econômica e financeira. Ao menos se pudesse resolucionar, com a mesma rapidez e facilidade, algumas das mazelas sociais representadas no enredo. Duas delas chamam a atenção: o desemprego e a saúde pública. Na película o jogador é pródigo: consegue ocupação remunerada para  todos, dos mais “chiquititos” ao pai do garoto André, um senhor que, literalmente, já havia pendurado as chuteiras (um ex-profissional dos campos que por conta de uma lesão decaiu e se entregou à bebida). Um primor de atendimento social, ao estilo Saeta, voando.

O super craque seguramente teria mais dificuldades hoje, com uma taxa de desocupação recorde na União Europeia, na faxa de 24,6% e que, para os mais jovens, chega a estratosférica cifra de 52,17% ! [5]. Haja  drible, esquema, tabelinha, para lidar com esses números. Isso sem contar que, no filme, o boleiro em questão cura até dontes. Um dos “niños”, acamado, recebe atenção especial e ao fim do filme reaparece, bom o suficiente para ir assistir seu herói ao vivo, com suas próprias pernas, no estádio de futebol. Uma beleza.

Mesmo sem recuperações tão espetaculares, um mecenato médico também cairia muito bem na Espanha contemporânea, quando se aponta, todos os dias, para a necessidade de se cobrar serviços e beneficios de saúde, até então cobertos pela seguridade. Algo que o governo chama de “copago” e os críticos, ou simplesmente os afetados, chamam de “repago” (vejam bem, até ese momento a saúde pública em Espanha parece ter atingido um grau de cobertura e qualidade com o qual não estamos nem um pouco acostumados; por isso a grita, pelo maior custo aos beneficiários e pela possível queda da qualidade, devido aos cortes orçamentários. O temor é pela perda de conquistas).

Nesse quadro, um novo Saeta Rubra viria bem a calhar. Se bem que a Fúria Roja já ajuda bastante. Na atual conjuntura, a grande vitória do selecionado espanhol não opera uma intervenção direta, pessoal (e fílmica), mas é empregada ou quer ser empregada como demonstração de capacidade, de superação do povo espanhol. Um bom exemplo é o dessa peça comercial:

“Sí, somos España. Sí, somos campeones.

El mundo nos admira por nuestro talento, nuestra entrega, nuestro empeño en perseguir un sueño. Nuestra Selección ha demonstrado que, unidos, podemos con todo. Sea cual sea el reto [reto = desafio].  ¡Felicidades España! ”. (Grifo nosso. Publicidade da cerveja Cruz Campo, patrocinadora da seleção. Jornal 20 minutos, 02 de julho de 2012, p. 9. Este diario, aliás, é muito confiável. Faz questão de ter como slogan o seguinte lema: “Um jornal que nunca se vende”.  E é verdade;  é de distribuição gratuita…).  

Nada mais típicamente esportivo (talento, empenho, espírito de equipe, capacidade de superação…) e nada mais visivelmente dirigido à contemporaneidade. Mas creio que isso já constituiría tema para uma outra conversa.

Com saudades das peladas de sábado, das discussões acadêmicas (não academicistas) e de tudo o mais, beijos e abraços,

Luiz C. Sant’ana


[1] Não cabe aqui uma resenha sobre o Real desses tempos, mas apenas para recordar ou informar ao leitor, o clube madrilenho foi, dentre outras, pentacampeão sucessivo da Copa da Europa (a Champions Legue), criada para a temporada 1955-56. Desta primeira edição até 1960-61, só deu Real. O time era liderado por Di Stéfano (bola de ouro de 1957 e 1959, além de artilheiro em vários campeonatos). No sexto ano consecutivo ainda chegaram à decisão, finalmente perdendo para o Benfica.  

[2]  O Site oficial do Real Madrid explica que ese apelido foi criado enquanto Di Stéfano ainda jogava no River Plate e na Seleçao Argentina;  “Pronto le bautizarían con el sobrenombre de ‘La Saeta Rubia’ por la explosiva velocidad que imprimía a su juego”.  http://www.realmadrid.com/cs/Satellite/es/1193041639976/1202817703443/jugador/JugadorLegendario/Di_Stefano.htm.  Consultado em 06/07/2012.

[3] A semelhança com outro filme já comentado aquí, por nós, é impresionante. Trata-se de “Os Trombadinhas”, filme brasileiro dirigido por Anselmo Duarte, em 1979.  O tema, a abordagem, o fato de terem à frente do elenco jogadores excepcionalmente populares, no papel deles próprios etc.  Há inclusive uma sequencia que mostra o diálogo entre Di Stéfano e um juiz, após a prisão dos pequenos delinquentes. Este   trecho existe em ambas as películas (no caso brasileiro o jogador é o Pelé, é claro), e é surpreendentemente parecido, nos levando a crer que a fita brasileira deve ter se inspirado ou adaptado  diretamente  da produção espanhola.   

[4] Ver, por exemplo, “Fútbol, cine y ideología”, de Luís Cantarero (Universidad Zaragoza) y Dora Blasco (Gobierno de Aragón), publicado nas atas do VIII Congreso AEISAD (Asociación Española de Investigación Social Aplicada al Deporte), de 2004.

[5]España encabeza el paro de la eurozona, que llega en mayo al récord del 11,1%. El desempleo español llega al 24,6% | Grecia, Portugal e Irlanda son los siguientes en la lista del Eurostat”. Consultado em 06/07/2012. http://www.lavanguardia.com/economia/20120702/54319875700/espana-encabeza-el-paro-de-la-eurozona-que-llega-en-mayo-al-record-del-11-1.html

 

 

 

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