Crônica de Paris no 14 juillet (2012) e durante o Tour de France

‘Quadro’ de gente tirando fotos do quadro de Monalisa (Louvre, julho 2012)

‘Quadro de gente tirando fotos do quadro de Monalisa (Louvre, julho 2012)

Bonjour mes amis et lecteurs! (Bom dia rapaziada!)

No último post, sobre um filme de Di Stéfano, já havia mencionado que redigia a partir de Madrid, em missão especial (sempre quis dizer, ou escrever isso, de novo), representando o Laboratório de História do Esporte e do Lazer – PPGHC / IFCS / UFRJ, com financiamento da CAPES. Não obstante, durante a semana do feriado nacional do 14 de julho francês (derrubada da Bastilha), tive a oportunidade de passar uns dias na famosa capital daquele país. Inclusive para visitar a filmoteca francesa.  Dessa experiência genérica e dos meus momentos de folga, seguem as impressões abaixo.

A primeira coisa é que a grandiosidade e suntuosidade de Paris chama a atenção. Notre Dame, Louvre, Versailles, as avenidas que se encontram no Arco do Triunfo. Tudo muito conhecido, mas muito mais impresionante, ao vivo. Cruzando a incrível ponte de Alexandre III, já centenária, mas com um shape de garota, não há como não lembrar do canto e do rosto tristonho de Adele, prometendo/advertindo que encontrará “someone like you”. Pena que não sou eu. Belíssimo cenário para a cativante voz e interpretaçao da moça[1]. Passei também pela Ópera de Paris. A fila para entrar, no fim de semana após 14 de julho, era estilo final de carioca no antigo Maraca. Por fora o prédio já é um escândalo, por dentro, só da próxima vez, porque minha noção de turismo tem tamanho de fila máximo; e não era o caso.

Pois bem, mas o que eu queria era narrar uma experiencia e fazer uma observação. Nessa ordem.

Belo dia estava eu caminhando, sem pressa, e buscando uma entrada pro metrô, quando parei em um café/bar, “Les Editeurs”. Bem próximo ao teatro Odeon e a estação do mesmo nome. Depois da segunda biére, comecei a articular algumas imagens dos dias anteriores. Pude confirmar, in loco, uma noção que vinha construindo/observando. Uma de orden básicamente antropológica, posto que advem de um estranhamento[2]. Em muitos bares daqui, diria a maior parte dos que vi e mais este em que parei, as cadeiras são enfileiradas paralelamente. Ou seja, as pessoas, os clientes, se sentam com vistas à rua. Continuando esta observaçao participativa, diria que, de onde me encontrava, só havia cerca de um metro de calçada. Na sequencia havia uma rua para um carro, não mais; um larguinho sem movimento de pessoas e uma outra rua, estreita, também para apenas um veículo por vez. Depois disso um outro bar, o “Le Comptoir”, com pessoas viradas… para nós, do “Les Editeurs”, mas sem comunicaçao possível/provável (havia carros estacionados, fluxo ligeiro de trânsito; eu conseguia ver somente algumas pessoas sentadas: uns 10% do total, pela brecha entre dois automóveis parados no tal larguinho (na verdade, um estreitinho).

Pois bem, para um carioca, isso é estranho (talvez para qualquer não parisiense). Isso não rola no Rio. A não ser que se esteja de frente para Praia… ou na própria. Você se senta frente à frente com as pessoas, não frente à vista  -flagrei varios casais; amigos (aparentemente apenas amigos mesmo) lado a lado. Mesmo grupos de cinco, sete pessoas: todos de frente para… Paris. Deve ser isso. Diante de uma cidade tão espetaculosa, as pessoas preferem a cidade às pessoas…

Ok, pode ser um exagero; “por supuesto”. Na verdade uma vã e provavelmente equivocadada tentativa de explicar o estranhamento percebido. Mas, equivocadamente ou não, vou continuar nessa linha. A ideia é que Paris foi feita para se ver. Paris é espetáculo; beleza; sem dúvida. É capturação pelo olhar. Daí ese voyerismo etílico/cafeínico. As pessoas sentam para beber café, vinho e biére[3] e para ver Paris e ver as pessoas vendo Paris. E isso rola toda hora.

Conforme uma fonte inquestionável, o áudio do Rouge Bus (o buzum de turista), 26 milhões de pessoas visitam essa cidade. Todos os anos. É phoda!(desculpem, mas como não consegui termo com equivalencia de ênfase, solicito licença para esse eufemismo gráfico). E não tem jeito. Talvez fosse possível enganar, com muuuito custo, os primeiros 26 milhões. Mas e os outros…? Todos os anos?

Tanta gente visita e continua visitando essa cidade por uma razão Nelson Rodrigueana. Pela obviedade ululante de que ela é phoda. E ponto. E aí uma (outra) razão para os parisienses se postarem de frente para a rua  -seja qual for a rua-   em sua cidade. É porque nunca se sabe o que vai acontecer. Uma exposição; a restauração e reabertura de um prédio (mais um) histórico, fantástico. Salvo engano, parte da antiga conciergerie, agora palacio da justiça, estava sendo restaurada durante essa minha estadia: advinhem… Tá ficando phoda! Continuando: uma conferência (ainda segundo a indiscutível fonte do Rouge Bus, a cidade luz é uma das que mais recebe encontros internacionais, em todo o mundo. Essa é fácil de entender. Qual a associação profissional/estudantil ou o que for, que vai preferir se encontrar em Brasília, Pequim, São Paulo ou Araruama, à Paris?  Parlez grave!  (Fala sério!)[4].

Ou seja, diante das evidencias e das posibilidades prováveis/previsíveis, o melhor é não dar bobeira, caso contrario, corre-se o risco de se perder a movimentação. Até porque, em Paris, talvez mais que em qualquer outro lugar, vale o dito popular:

Crevette que ne nage pas la vague dela mer le prende:

Ou, em bom português: “Camarão que não nada a onda vem e leva”.

Um abraço;  au revoir!

Ps.: Faltou o Tour de France. Pois é, começou no dia 30 de junho e parece que só acaba no próximo dia 26 deste mês. 3.497 Kms.  Pode-se acompanhar o trajeto, inteiro, pela Tv. Parece que os franceses gostam. Outro estranhamento…

E, por favor, da próxima vez que quiserem ler algo sério sobre ciclismo consultem os posts do Andre Schetino.


[1] Como? Você não viu o vídeo? http://www.youtube.com/watch?v=hLQl3WQQoQ0&feature=related . Visita lá! A cada 1.000.000 de novas entradas, a partir deste post, eu ganho uma milha para minha próxima ida à Paris.

[2] O “estranhamento”, para os não iniciados nos principios da antropologia, consiste em uma experiencia/conceito  básico,  fundamental e recorrente do exercício do trabalho de campo. Em poucas palavras, trata-se do desconforto e imcompreensão sentidos pelo antropólogo e gerados por um hábito, atitude, padrão de comportamento do grupo, povo ou etnia sob estudo. Toda vez que isso acontece expressa o choque entre a cultura do antropólogo e a do grupo sob análise: implica também em um caminho de investigaçao, usualmente vinculado a perguntas como: Por que ese hábito/costume/valor tão comum e evidente por si mesmo para os “nativos” (no meu caso, os franceses) me soa tão estranho e de difícil compreensão?  Irmão, se tá complicado, continua a ler a crônica, vai.

[3] Enriquecerei esta crônica com um vocabulario mínimo para o visitante neófito de Paris. Atente para o fato que se tratam de itens críticos, ou seja, aquilo que você não pode deixar de saber falar em francés:

Bon jour (bom dia);

bonsoir (boa tarde, noite, qualquer coisa);

mercie (obrigado);

mercie beaucoup (muito obrigado:  caso o favor venha de uma francesa bacana);

 s’il vous plaît (por favor) ;

 Une biére (uma cerveja !!)

 Une otre (uma outra :  em caso de dúvidas : « une otre biére ») ;

E por fim uma dica tipo psicologia reversa. Não perca seu tempo e seu pouco francês perguntado :  Ou est le randez vouz ?  (Onde fica o ‘randevú’ ?).  Eu fiz isso umas 50 vezes até entender que « Randez vouz »,em francês,  não é o que a gente pensa que é, em português…

[4] Desculpa aí o pessoal dessas cidades; nada contra, por favor: Já me diverti em todas elas (menos Pequim, onde nunca estive e … São Paulo). Meu argumento único é o de toda esta crónica. Pardon, mais Paris est Phoda!

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