A grandeza dos pequenos

Por Edônio Alves

O espaço que ocupo neste blog tem a função de apresentar ao nosso internauta-leitor o produto dos meus estudos e reflexões sobre a intersecção do futebol com a literatura. Ambos, paixões minhas, tanto o futebol como a literatura são, na minha modesta compreensão das coisas, campos de expressão e atuação humanos em que a surpresa, o aleatório, a singularidade de tudo que vemos ou podemos fazer reponta como uma marca particular da nossa ação no mundo. Sendo assim, cabe ao escritor, ao poeta, no caso da literatura, por exemplo, agir na sua escrita a partir de um olhar inaugurador de realidades novas; a partir de uma mirada descortinadora de possibilidades inéditas para a prática da existência humana. Mesmo que tais possibilidades inovadoras – eis o segredo de tudo isso – sejam passíveis de concretização apenas no universo da linguagem, uma vez que a vida em si mesmo é limitada. Fazemos arte, já dizia o poeta, porque viver não basta. Ou no dizer de outro bardo: “Simplesmente viver, meu cão faz isso e muito bem!”.

Pois bem. Quanto ao futebol, ele nos encanta precisamente pelo mesmo motivo, penso eu. Por ser um jogo que envolve e emociona seus praticantes e admiradores não apenas pelos efeitos e resultados práticos que produz (a vitória da equipe que conseguir marcar mais gols no adversário), mas sim, e talvez principalmente, pelo conjunto de sentidos e significados que comunica para além de sua visualidade objetiva e imediata. Ou seja: o futebol, paradoxalmente, talvez encante muito mais pelo que não se vê dentro do campo quando se assiste ao seu espetáculo diretamente, mesmo que esta experiência seja por si só gratificante e prazerosa. Quiçá, repita-se, o futebol encante mesmo é pelo que se sente e se experimenta ao vivenciá-lo como fenômeno pleno de cultura dentro e fora dos gramados.

Sim, porque, curiosamente, o futebol é um jogo que extrapola as suas próprias regras.  Entendido em sentido amplo, ele começa antes dos 90 minutos regulamentares de uma partida e vai além deles; é um jogo que não se resume aos poucos personagens que o praticam diretamente nos gramados ou campos de várzea, e – mais significativo ainda – é um jogo que não se encerra no mero espaço delimitado para a sua prática, tornando-se, assim, portanto, ao menos para nós, brasileiros, bem mais do que uma prática esportiva: “é a síntese complexa da cultura brasileira, é a sua metalinguagem”, no dizer do sociólogo Maurício Murad.

Portanto, penso eu, entendido assim dá para ver a clara e visceral ligação do futebol com a prática da literatura. Ambos são uma espécie de jogo humano (um mediado por uma bola; outro mediado pela linguagem) em que os jogadores realizam em campo mais ou menos a mesma coisa: a revelação da surpresa; do inesperado; do ainda não visto como potencialidade realizadora latente e prenhe de significados. É só “ver” a sensação que sentimos ao lermos um poema verdadeiramente original e bem realizado esteticamente; ou um romance, um conto, uma crônica, no caso da literatura. Ou uma bela e inesperada jogada de efeito (um drible desconcertante ou um golaço) no caso do futebol.

 Digo isso porque há pouco mais de duas semanas essa certeza foi reforçada em mim quando recebi um singelo presente de um amigo meu e fiquei intrigado com uma coisa que tal gesto de amizade me realçou: a noção que devemos ter da pequenez e da grandeza de todas as coisas. Louco por futebol como eu, meu amigo me presenteou com um desses souvenirs de clubes brasileiros feitos para serem colados na geladeira e, portanto, para ficarem à nossa vista sempre que entramos na cozinha para fazermos algo do cotidiano doméstico. Conhecendo-me como me conhece, o amigo sabia que aquele não era o clube da minha predileção, mas também sabia que nutro por aquela agremiação esportiva uma admiração ímpar. O tal clube, já dá para dizer, era o Íbis, de Pernambuco, considerado e conhecido no mundo futebolístico como o pior clube do mundo. Talvez justamente por isso, o tal presente tenha me inquietado tanto.

Pois digo que a inquietação foi tamanha que resolvi, a partir dela, como já anunciei aqui, utilizá-la para digredir sobre a relação do futebol com a literatura a partir de um tema que esta relação me sugeriu: a noção que temos da grandeza e pequenez de todas as coisas.

A ideia de fundo, enraizada em todas as culturas, é a de que sempre nos orientamos sob os dados da realidade baseados num providencial senso de horizontalidade e, principalmente, de verticalidade, por assim dizer. Isto é, consideramos sempre que há coisas superiores – os gestos nobres, as ações heroicas, por exemplo –, mas também coisas pequenas, inferiores, tais como os gestos mesquinhos, as ações pusilânimes, enfim, as atitudes menores ou covardias inclassificáveis.

Trazendo essa discussão para o mundo do futebol, nos debatemos sempre com o hábito de colocarmos num patamar superior de nossa consideração e estima os chamados clubes grandes do futebol brasileiro, a exemplo do Flamengo, Fluminense, Corinthians, Grêmio, Palmeiras, Vasco, entre outros; e, por oposição de valores, empurramos para a prateleira dos cacarecos insignificantes os ditos clubes pequenos, a exemplo do Brasil de Pelotas, Baré de Roraima, Fast Clube do Amazonas, Dom Pedro do Distrito Federal, Gurany de Sobral, Sinop do Mato Grosso, e, principalmente, a estrela maior dessa constelação de times menores: o Íbis, de Pernambuco, que tem esta posição de destaque entre os pequenos por ser considerado unanimemente como “o pior clube do mundo”, com inscrição no livro dos recordes e tudo.

Trouxe o Íbis para esta nossa conversa de agora porque entendo ser ele (o glorioso Íbis, o pior de todos os times do planeta) um exemplo palpitante do quanto é arbitrária a nossa maneira hierárquica de olharmos para a realidade. Para atestar essa arbitrariedade em julgarmos as coisas do mundo, podemos dizer, por exemplo, que algo pode ser grande justamente por comportar-se como algo pequeno; humilde na sua maneira de ser, nem soberbo nem ostentatório das virtudes que lhes é constituinte, enfim, singelo na sua grandeza de ser pequeno.

O contrário pode também ser verdadeiro, conjecturo eu, ampliando o exemplo: algo pode ser pequeno justamente por insistentemente querer ser grande, pretender assentar a sua existência num patamar além dos limites do seu próprio tamanho, ostentar uma grandeza que nada mais é do que a face oculta da sua própria pequenez.  

É aqui, meus caros leitores, que reponta a grandeza do Íbis no cenário do futebol brasileiro. Não se preocupando em querer ser o melhor, o maior, contenta-se o Íbis na modéstia de ser o pior, e por isso é grande. E a sua grandeza, com efeito, é invejável. Alguém já viu o Íbis perdendo o sono por estar metido em dívidas impagáveis? Pois este não é o atual caso do Flamengo, do Corinthians, do Vasco e de muitas outras figurinhas carimbadas do futebol brasileiro, que só sobrevivem empurrando os débitos (e alguns dirigentes) com a barriga? Não, ninguém nunca viu tal problema com o Ìbis. Ninguém nunca viu o Íbis chorando ou lamentando as perdas constantes que lhe caem nos ombros. Fundando um paradoxo genial, são as derrotas as maiores conquistas do Íbis e isso é o exemplo maior de sua grandeza.

Não, o caso do Íbis é outro, meus amigos, outro porque o Íbis é grande. Grande até na sua infinita generosidade. Assim são as coisas desse mundo se as observarmos bem. O grande pode ser justamente o pequeno e o pequeno pode ser precisamente o grande. Tudo depende da maneira como olhamos o mundo e o mundo, todos nós sabemos, não passa de uma bola: esse objeto distinto de todos os outros – sem quinas, pontas, dorso ou face, igual a si mesmo em todas as direções de superfícies – que rola e quica como se animado por uma força interna, projetável e abraçável como nenhum outro, no dizer do poeta. E os poetas têm sempre razão!

 

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