O Estado e o Jockey Club: relações para a formação de um monopólio

Por João Malaia

Como um clube esportivo consegue se transformar em um grande centro de referência em uma cidade, ou em um país? Como os grandes clubes esportivos se tornaram grandes?

Essas são perguntas que exigem uma resposta bastante complexa que envolve questões políticas e econômicas. Se os empreendedores precisam fazer investimentos em estádios e atletas de ponta para vencerem a concorrência, apenas o dinheiro não seria suficiente para fazer com que uma agremiação se torne grande. Além do dinheiro, se torna necessário costurar relações políticas com a chamada grande imprensa e com pessoas de relevância no Estado.

Para o post de hoje, apresento uma das primeiras agremiações a conseguir costurar relações com a imprensa e o Estado brasileiro, tornando-se um dos clubes mais ricos e mais importantes do país no final do século XIX e início do XX. E nosso foco recai justamente na questão política.

É já sabido que, desde os anos iniciais da segunda metade do século XIX, até mesmo o Imperador D. Pedro II se fazia presente em corridas de cavalo e outros eventos esportivos. Abaixo, o cartaz de uma prova de regatas em Niterói com a presença de Sua Majestade D. Pedro II, em 1868:

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Já estabelecido como um dos dois maiores clubes, ao lado do Derby Club, o Jockey tinha uma estrutura excelente para a realização de corridas. Um prado formidável com grandes pistas e arquibancadas em frente à estação de trem com o mesmo nome do clube, um público fidedigno que chegava a realizar mais de 10 mil apostas em uma só corrida, oferecendo os maiores prêmios a proprietários de cavalos e cavaleiros, o clube vinha se tornando um dos principais centros de recreação esportiva da então Capital Federal.

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No entanto, havia outros clubes de corridas na concorrência que precisavam ser derrotados, como o Prado Villa Izabel:

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A par dos investimentos em infraestrutura, em mão-de-obra e em prêmios, o clube procurava expor ao máximo suas corridas nos principais periódicos da cidade, bem como criar facilidades para aqueles que quisessem se dirigir ao prado do Jockey. Não são poucos os avisos publicados no Diário Oficial sobre as facilidades criadas pelo Jockey Club para seus espectadores:

Para conhecimento do público, declara-se que, domingo, 5 do corrente [outubro de 1890], por ocasião das corridas do Prado Fluminense, haverá trens especiaes directos para conducção de passageiros, desde ás 10 horas da manhã até a 1 hora e 30 minutos da tarde e depois de concluídas as corridas. Os trens especiaes não pararão nas estações S. Diogo, S. Christovão e Madureira. O preço da passagem de ida e volta, sem distinção de classe, é de $500 (Diario Oficial, 4 de outubro de 1890, p. 4.434). Notícias como essas eram comuns para anunciar àqueles que simpatizavam com a atividade turfística sobre as facilidades de transporte para se chegar aos recintos, principalmente de clubes como o Jockey e o Derby.

No entanto, exposição na imprensa, facilidades de transporte e investimentos em infraestrutura não eram suficientes para que o Jockey e o Derby conseguissem concentrar o capital e monopolizar o mercado. Tornava-se imperioso ter como aliado o Estado e isso só seria conseguido se tais clubes conseguissem provar que tinham uma validade social maior que os outros.

As ligações dos membros do Jockey Club com o Estado brasileiro fez com que esta agremiação concentrasse as atenções das autoridades e, obviamente, algumas facilidades só alcançadas para quem tem relacionamento íntimo com figuras de grande poder. A brecha encontrada pelo Jockey para que fosse considerado uma espécie de parceiro do governo brasileiro foi a de se auto afirmar como os únicos capazes de organizar e melhorar a raça dos animais brasileiros, principalmente as raças cavalares.

O clube realizou, a partir de 1893, exposições anuais de raças cavalares nacionais. De acordo com o relatório do enviado do governo que foi jurado do concurso, José Joaquim de Negreiros Sayão Lobato, que se definia como uma pessoa “sem estudos especiaes de zootechnia, mas apenas simples e despretensioso amador do sport”, a pouca concorrência de animais se devia a dois fatores, ambos econômicos. O primeiro, a falta de prêmios em dinheiro para os primeiros colocados e o segundo, a dificuldade e os elevados custos com de locomoção dos animais por meios de transporte. Nas palavras de Sayão Lobato, o representante do Ministro de Estado e dos Negócios Interiores, General Bibiano Fontoura.  Para além das medalhas de ouro, prata e bronze ao melhor cavalo, à melhor égua e melhor potro, faltavam prêmios em dinheiro “que atraísse os proprietários de animais pelo incentivo do lucro, compensando de alguma sorte muitas despesas e mesmo perigos que há na viagem de animais”. O representante do governo elogiava a atitude do Jockey Club e fazia um pedido ao governo:

“Parece-me que o governo poderia animar taes exposições concedendo condução gratuita nas vias de transporte fluviais e terrestres do Estado, ou por ele subvencionadas ou garantidas, e concedendo um prêmio pecuniário ao melhor produto de puro sangue”.

Afirmava ainda que tais “favores” seriam limitados às exposições e não poderiam das lugar a “abusos, nem a grandes despesas para os cofres públicos”. Justificava a necessidade da atenção especial para a necessidade do governo contribuir para o desenvolvimento de uma “indústria a que o governo não pode ser indiferente” (Diário Official. Diretoria Geral da Indústria / Indústria Pastoril. 22 de maio de 1894, p. 676.).

Dois anos depois, o mesmo José Joaquim de Negreiros Sayão Lobato, foi novamente designado para representar o governo na IV Exposição Nacional do Jockey Club, mais uma vez como jurado do concurso, mesmo sem os conhecimentos devidos para tal, como o mesmo afirmara anteriormente. Lobato insistia na mesma tecla. Reafirmava as dificuldades e os altos custos de transporte de animais caríssimos, como grande impedidor de uma maior popularidade do evento. E clamava novamente para o que já havia afirmado no relatório de dois anos antes: a necessidade do governo em ajudar o evento com transporte gratuito aos expositores nas vias férreas e fluviais públicas e concedendo prêmios em dinheiro aos vencedores (Diário Official, 9 de junho de 1896, pp. 2.619-2.620).

Apenas em 1898 é que o governo autorizou a formação da Sociedade Animação da Indústria Pastoril, que passaria a ser responsável pela organização das exposições anuais das raças nacionais cavalares, bovinas, muares e suínas. A sede da sociedade seria no Jockey e o clube deveria organizar um Stud Book em que deveria anotar os registros dos animais brasileiros.

Os prêmios passariam a ser pagos em dinheiro para os primeiros e segundos colocados entre as raças cavalares e bovinas, divididos em categorias de macho, fêmea e filhote. O dinheiro para o pagamento dos prêmios viria da criação de um novo imposto sobre o valor de cada bilhete de aposta que se fizesse nas casas de poules das sociedades de corridas, frontões, velódromos, jardins zoológicos e outros estabelecimentos congêneres. As sociedades de corrida “de forma recreativa” pagavam 1% do valor de cada bilhete como imposto. Já as “sociedades anônimas”, caso dos grandes clubes de corridas como o Jockey e o Derby, pagavam imposto de 2%. As demais sociedades e empresas, 3%. Do dinheiro arrecadado, um terço deveria ser destinado ao pagamento dos prêmios da Exposição Anual. O outro terço deveria ser usado para custeio da escola de veterinária e o outro para a criação de uma escola de equitação (Diario Official, Intendência Municipal/ Atos do Poder Executivo. 1º de janeiro de 1898, p. 9-10).

Na VIII Exposição, realizada em 1900, a lista de jurados do evento contava com o prefeito do Distrito Federal, Antonio Coelho Rodrigues, além de representantes do Jóquei Club, do Rio de Janeiro e de São Paulo, e do Derby Club carioca (Diario Official, 11 de agosto de 1900, p. 3490). A presença dessas figuras atestava a crescente importância que o evento ia ganhando com o passar dos anos.

No entanto, o apoio que clubes como o Jockey Club, tanto o paulista, quanto o carioca, recebiam do Estado chagava mesmo a incomodar figuras antigas e tradicionais da política brasileira. Na votação da lei orçamentária do Estado de São Paulo, o senador Ezequiel Ramos, propunha a suspensão da verba de 10:000$000 (dez contos de réis) destinada ao Jockey Club de São Paulo. Tais despesas, em sua visão, só atendia “a satisfação de necessidades privadas”. O senador argumentava que o serviço a que o clube de corridas se dizia prestar (melhorar a raça cavalar brasileira) não vinha sendo realizado. O clube havia se transformado “em um jogo esportivo de venda de poules onde os potentados, os poderosos da terra vão frequentemente satisfazer os seus legítimos desejos quanto a corridas de cavalo. […] Quando estamos fazendo rigoroso esforço para equilibrar o orçamento, quando chegamos a tirar da Biblioteca Pública as verbas necessárias para manter-se, vai o Estado contribuir para a sociedade do Jockey Club?!” (Diario Official de São Paulo, 18 de novembro de 1898, p. 25.292).

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Mesmo não sendo unanimidade entre políticos cariocas e paulistas, os clubes de corrida conseguiram apoio governamental para que pudessem conquistar e monopolizar seus mercados. Hoje, vimos apenas um exemplo do Jockey Club do Rio de Janeiro que, através da presença de figuras importantes da sociedade carioca, conseguiu atrair os investimentos do governo como legitimador das raças cavalares e bovinas no Brasil.

Essa foi uma das muitas estratégias do Jockey Club, que posteriormente se fundiria ao Derby Club, formando o Jockey Club Brasileiro e consolidando a monopolização da produção dos espetáculos turfísticos na cidade, a partir da década de 1930.

Ao analisarmos as estruturas que deram às atividades esportivas comercializáveis seu formato atual, precisamos estar atentos às investidas dos representantes dos grandes clubes e federações com o poder público. Já vimos em outra oportunidade como Arnaldo Guinle, presidente do Fluminense, passou a ser presidente da Confederação Brasileira de Desportes e se aproximou do presidente Epitácio Pessoa para levar os Jogos Sul-Americanos de 1919 e 1922 para dentro de seu clube, que se tornou um dos maiores centros esportivos da America Latina. Essas e outras histórias ainda estão para ser contadas.

E só para terminar: é no mínimo curioso ver o Derby e o Jockey combinando suas atividades com a Central do Brasil e fornecendo trens rápidos para os clubes, a preços únicos e com horários especiais. Curioso, pois vemos hoje os torcedores deixando de ir aos estádios de futebol no Brasil pelo fato dos jogos começarem às 22h e terminando após a meia-noite, quando já não há transporte público para voltar para casa. Evolução?

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